PDL  Projeto Democratizao da Leitura




              Apresenta:
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       Para as minhas amigas do peito, as Manus, Gabis, Ritinhas e Suza-ninhas da minha vida, pela inspirao, pela fora
de sempre e por me aturarem a tanto tempo. Em ordem alfabtica, para no ter briga: Danica, Ednica, Juca, Pauleta, Rebecca
(que eu chamo de Me-zuca), Renata, Roberta (que para mim  Sita) e Tati. Amo vocs.
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       O
                            namoro de Ritinha e Leandro tinha emplacado. Ela estava apaixonada pela primeira vez, vivendo
                    uma histria de amor que achava s existir nas novelas, nos livros, nos filmes. Ele adorava o mau humor
                    dela. Ritinha, por sua vez, adorava ser adorada por um menino to bonito, to fofo, to tudo, que
                    perdeu sua virgindade bucal com ela. Uau! Para a menina mais reclamona e exigente de Resende, isso
                    era uma qualidade e tanto no currculo de um primeiro namorado.
                           Ritinha passou a vida criticando casais grudentinhos, namorados melosos e chatinhos. Achava
                    insuportvel essa coisa de casal extremamente apaixonado e jurara que jamais mudaria seu modo de
pensar.
       - Tenho mais o que fazer, no posso ficar o dia inteiro pendurada no telefone com voc, no, Leandro - ladrara
para o coitado no comeo do namoro, engrenado havia sete meses numa colnia de frias para onde fora com as amigas
inseparveis, Manu e Gabi.
       Falar com voz de nenm com algum do sexo masculino, ento, estava fora de questo. Ritinha era
terminantemente contra. "Nada mais ridculo", rosnava.
       -No... dixliga vox, m... No, vai... vox... No... vox... rerrerr... rerrerr... - dizia, melosa, ao telefone, numa
tarde de sexta-feira.
       ... O tempo passa, a paixo pega de jeito, as pessoas mudam.
       - No, mjiii... Dixliga vox... No... no tenho colagem... Vox... No...
       Agora Ritinha tinha certeza de que era a menina mais apaixonada do mundo, com o namorado mais perfeito do
mundo. Nunca pensara que um dia tivesse vontade de falar com uma pessoa 37 mil vezes por dia, estar com ela 24 horas,
sonhar com ela todas as noites, querer fazer tudo com ela. Definitivamente, Ritinha era outra Ritinha.
       - Vox, vai. A gente conta at tls e dixliga, mji... No, se vox no conxegue a Ritinha no conxegue tambm...
Verdadiii... Vai, dixligaaa...Rerrerr... vox, xeu bobo!
       - Rita de Cssia, voc acha que eu sou scio da companhia telefnica? Telefone custa dinheiro, sabia? E dinheiro
no nasce em rvore! - berrou seu Onofre, o pai ranzinza de Ritinha.
       - No  nada no,  meu pai, sabe como ele  po-duro. No, mjiii, no vou desligar... Desliga vox... Ele no vai
brigar comigo,  s a primeira vez que ele est reclamando, no sabe que eu s desligo depois da quinta? Vai, desliga
vox... Rerrerr... Tchiamu tambm... Tchiamu muito, muito. Lindo  vox... Agora desliga, vai,  slio... No, desliga vox,
ah, vox! Vox  mais colajoso que eu. Desliga! No, vox! Vox! Vox!
       - Eu desligo, d aqui. Oi, Leandro,  a Manu, tudo bem? Vou desligar pela Ritinha, j que ela t sem coragem, t?
Beijo, tchau.
       A loirinha Manu, espevitada e cheia de atitude, no agentou tanta paixo esparramada pelo quarto de Ritinha,
que ela invadira com Gabi e acabara escutando um pouco da... hum... conversa.
       - No faz isso! No!!! - exclamou Ritinha, com a mo no peito, dramtica, como se estivesse tomando umas
vinte punhaladas.
       - Caraca! Que coisa chata! - reclamou a loirinha.
       -  sempre assim? - irritou-se Gabi.
       - Ei! Posso saber o que vocs esto fazendo no meu quarto?
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       - A gente estava na sala esperando voc desligar, mas voc demorou tanto tagarelando que o assunto com os
seus pais morreu e a gente pediu pra eles pra invadir geral.
       - Seu pai achou tima idia. Disse que s assim pra voc desligar o telefone - entregou Gabi.
       - A porcaria do telefone - lembrou Manu.
       - Isso. Foi isso mesmo que ele disse.
       Ritinha estava enfezada, mas feliz por ver as duas. Ultimamente o trio de amigas inseparveis no andava to
inseparvel assim. Ritinha, a caula do grupo, era a nica que estava namorando e sua relao com as meninas no estava
mais to prxima como antes, embora o amor por elas continuasse imenso e intacto.
       Manu deixou seu lado curioso vir  tona:
       - O que vocs tanto falavam?
       - Um assunto importantsimo, no viu? 'M, eu ti amuuu. Desliga, vai. No, desliga vox... Vox-!' - debochou
Gabi, imitando a voz melosa de Ritinha.
       As trs riram juntas.
       - Eu me transformei numa daquelas meninas que sempre critiquei, n? Podem dizer.
       - Voc  pior do que as meninas que voc criticava. Voc  a me de todas as apaixonadinhas chatinhas do Brasil.
Elas devem ter aprendido tudo com voc - implicou Gabi.
       Manu riu, mas continuava curiosa. Nunca namorara srio. Seu namoro com Joo, que conhecera na mesma colnia
de frias, embora parecesse promissor, durou menos de um ms (ele morava longe e a distncia pesou na hora de
terminar) e essa fase de telefonemas sem fim sequer chegou perto do casal. Ela era genuinamente interessada por
assuntos do corao, j que o seu nunca estivera to ocupado.
       - Srio, fora tomar essa superimportante deciso sobre desligar o telefone, o que vocs estavam falando? - insistiu
ela.
       - Ah, a gente fica um tempo de papo... sempre... todos os dias.,.
       - E falam o qu?
       - Basicamente "eutiamuuuu" - derreteu-se Ritinha. - Todo dia, a voz dele  a ltima coisa que eu escuto. Quando j
estou embaixo das cobertas, a gente fica se falando at o sono bater. Quando eu paro de falar, ele percebe que eu dormi
e desliga.
       - Voc dorme com o telefone no ouvido?
       - Arr - fez ela, orgulhosa. - Na verdade, no meio da noite, acabo abraando o telefone, achando que  o Leandro,
mas a minha me sempre entra no meu quarto e pe o fone no gancho.
       - T boba - reagiu Manu.
       - T enjoada, acho que vou vomitar - ironizou Gabi.
       - A Suzaninha disse que quando ela namorou o Diogo...
       - O imbecil - cortou Gabi.
       - O imbecil, muito bem colocado. Quando ela namorou o imbecil era assim tambm. Acho que  mal de
adolescente - contou Manu.
       - Vocs tm visto a Su nas frias? Como ela t?
       - A gente se v direto, quase todo dia. Anteontem mesmo a gente foi pra casa dela.
       - A me dela fez uma gelatina com leite condensado que  uma ddiva dos deuses.
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        - Nossa! Que saudade da Suzaninha! O que vocs foram fazer na casa dela?
        - Ver um filme. S no te chamamos porque voc disse que ia passar o dia com o Leandro - disse Manu.
        - Ah, , lembrei.
        - Foi timo, depois do filme o pai dela tocou violo pra gente, acabamos dormindo l. Ele vai me ensinar violo,
no  o mximo? - empolgou-se Gabi.
        - O mximo  estar apaixonada. Eu estou to apaixonada, gente! Cada dia mais apaixonada. Estou at combinando
de passar o Carnaval com ele num hotel-fazenda em Valena. Com os pais dele, claro. No sei se meu pai vai deixar, mas
tentar no custa... Estou contando os dias...
        - Quer viajar com namorado no Carn? T louca?  estresse na certa - decretou Gabi.
        - Por qu? A gente vai ficar o tempo todo no hotel...
        - No interessa, Carnaval  a maior pegao, todo mundo quer beijar todo mundo o tempo inteiro - completou
Manu.
        - Ou voc acha que l no vai ter mulher? -Vai, mas...
        - No tem "mas", Ritinha! Os garotos so pssimos! No podem ver mulher no Carnaval que partem pra cima!
No sabe como  garoto no Carnaval?
        - No... - assustou-se Ritinha. - Mas eu acho que os que esto sozinhos podem at partir pra cima da mulherada,
quem t namorando pega s a namorada,  totalmente difer...
        - Depois vocs brigam e a culpa  de quem? De quem? - instigou Gabi, cortando Ritinha.
        - Do coitado do Carnaval - respondeu Manu.
        - E se ele beber pode dar vexame...
        - Ele no bebe, Gabi.
        - No Carnaval todo mundo muda.
        - E bebe.
        - Todo mundo - enfatizou Gabi.
        - Todo mundo - repetiu Manu.
        - E voc no vai querer conhecer o lado feio do Leandro, n?
        - Pior! J pensou se ele se engraa pra cima de algum?
        - Ele vai estar comigo, Manu!
        - E da? No sabe como  Carnaval? Voc vai dar uma volta a cavalo com os pais dele, ele vai dizer que est
cansado...
        - E durante o seu passeio ele vai dar uns amassos numa garota...
        - Ficar com o cheiro dela no pescoo... - provocou Manu.
        - Com o chupo dela no pescoo! - aumentou o tom de voz Gabi.
        - ! E depois vai beijar voc pensando nela...
        - E no pescoo dela, que tambm vai ter um chupo dele.
        - A uma hora voc vai ao banheiro, depois do almoo, para fazer a digesto da comida, fica l um tempo, seu
nmero dois  demorado...
        - Ele, com certeza, vai ficar com outra pessoa.
        - Com certeza - enfatizou Manu.
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         - E toda vez em que voc for ao banheiro, j sabe...
         - Ele pimba!
         - Pimba? - fez Ritinha.
         - Ele pega outra menina, mais bonita ainda - explicou Gabi.
         - E todo mundo no hotel-fazenda vai ver o Leandro ficar com essas garotas sempre que voc virar as costas.
         - Trs, quatro garotas, no mnimo.
         - Cinco, seis, sete... depende, sabe como  Carnaval...
         - Todas muito mais velhas.
         - Lindas, gatas, fceis...
         - Ai, que horror... To pequenininha, com um chifre to grande na testa... - exagerou Manu.
         - Que peninha de voc, Ritinha... Sua cabea vai comear a coar, coar...
         - Piolho?
         - Claro que no, lesa! O chifre! - estressou-se Gabi.
         - E o chifre vai crescer, crescer, crescer, e voc vai ficar conhecida como "a trada de Valena"... - decretou Manu.
         - A chifruda de Valena - alfinetou Gabi.
         - A corna de Valena - preferiu a loirinha.
         - Depois no vem chorar no nosso ombro e dizer que a gente no avisou...
         Ritinha ouvia desconfiada a verborragia das amigas, E quando as duas finalmente pausaram para respirar, ela quis
saber:
         - Que caras so essas? Eu conheo essas caras... O que vocs esto armando?
         - A gente quer que voc faa outra viagem - comeou Manu, sorridente.
         - Com o Leandro? S se for para um convento, n? Ou um outro lugar onde ele esteja livre de todas essas
tentaes a...
         - Que man convento? No delira, Rita de Cssia!
         - No  uma viagem com o Leandro, anta! - estrilou Gabi.
         - No t entendendo...
         - Ih, alm de apaixonada ficou burra, ? - espetou Manu.
         - A gente quer que voc viaje com a gente!
         - No Carnaval?
         - No, Ritinha. No Natal - debochou Gabi.
         - Gente, Natal  com a famlia, al-ou!
         - Al-ou! E bvio que  no Carnaval, Rita de Cssia! Que idia!
         - Sem o Leandro?
         - Claro! - responderam as duas em coro.
         - Gente, eu no tenho a menor condio de ficar sem ele durante quatro dias. Acho que eu morro.
         - Ai, que coisa brega! - bronqueou Gabi,
         - Ningum morre de saudade! - emendou Manu.
         - Alm do mais, saudade  timo para qualquer relacionamento, a pessoa passa a dar mais valor para a outra
depois que percebe a falta que ela faz.
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        - Pera, gente! No vai rolar! Eu vou passar o Carnaval com o Leandro!
        - Voc no vai passar o Carnaval com o Leandro, criatura! Voc vai passar com a gente! J no falei? - irritou-se
Manu.
        - Onde?
        - Em Porto das Rosas.
        - Onde?
        - Porto das Rosas! Em Minas! Cidade linda, cidade delcia, cheia de cachoeiras e grutas, cidade fofa, cidade cti-cti,
toda de paraleleppedos! Tem coisa mais linda que paraleleppedo? - empolgou-se Gabi.
        - Tem 1.987.000 coisas mais lindas que paraleleppedo, Gabriela! - disse Manu.
        - Eu odeio paraleleppedo! - estrilou Ritinha.
        - Que absurdo odiar paraleleppedo! Paraleleppedo  tudo! Adoro o barulhinho dos carros passando em cima
deles... - viajou Gabi. - Sem contar que  timo falar paraleleppedo, olha que palavra linda! No d vontade de parar de
falar: paralelep...
        - Esquece isso, Ritinha - cortou Manu. - A cidade  uma graa, mesmo com os paraleleppedos. 
superaconchegante.
        - Como  que voc sabe? J foi pra l?
        - No, mas a Suzaninha mostrou vrias fotos pra gente.
        - A Suzaninha?
        - .  pro stio da av dela que a gente vai. No  legal?
        - No, Gabi. No  legal.  tudo, menos legal. A gente no vai pro stio da av da Suzaninha. Vocs podem ir pro
stio da av da Suzaninha, eu no vou pro stio da av da Suzaninha.
        - Ritinha...
        - No tem Ritinha, nem meia Ritinha, Manu! Eu estou combinando de passar o primeiro Carnaval com o meu
namorado e vocs vm cheias de idia errada, querendo me levar prum lugar de nome esquisito e ainda por cima longe
do meu amor.
        - Mas voc vive grudada com o seu amor, vai ficar grudada mais quatro dias? - reagiu Gabi
        - Lgico. Depois de todas essas coisas horrveis que vocs falaram  que eu no vou deixar o menino sozinho
dando sopa por a. Vai que ele fica com algum? Pior! Vai que rola uma PPP?
        - No vai rolar PPP! - disse Gabi.
        - O que  PPP?
        - Pavorosa Pegao Progressiva, Manu! Se ele sair pegando a mulherada em Valena eu morro!
        - Ai, pra com esse negcio de morrer, coisa chata! Coisa cafona! - estrilou Gabi. - Ele  apaixonado por voc, no
vai pegar ningum! E ele vai para um hotel-fazenda, nada mais montono do que um hotel-fazenda. S tem vovs, vovs
e famlias.
        - E vacas, e cavalos e nada pra fazer - completou Manu.
        - Mas vocs falaram que...
        - A gente s inventou um monte de coisas pra voc achar que a viagem com o Leandro seria pssima - explicou a
morena.
        - E assim voc ia querer viajar com a gente, no com ele...
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       - Por que eu ia deixar o meu namorado pra ficar com vocs? Eu estou sempre com vocs!
       Minuto de silncio. Incmodo silncio. Gabi e Manu se entreolharam. Manu foi a primeira a falar:
       - Voc no t sempre com a gente.
       - Voc no t nunca com a gente - corrigiu Gabi.
       - Desde que comeou a namorar voc quase no liga pra gente. Nem ao shopping a gente vai mais...
       - Nem as revistas de fofoca a gente l juntas. Agora s falo mal das roupas das artistas com a Manu, e ela no tem
a menor noo de moda - brincou Gabi.
       - A nossa amizade no  mais a mesma, Ritinha, essa  a verdade.
       - Desde que as frias comearam voc est distante, est difcil falar com voc at por telefone...
       - Mas as aulas vo comear j, j, e a gente vai se ver todos os dias.
       - Eu no quero te ver s na escola! T louca? - irritou-se Gabi.
       - Tudo agora pra voc  Leandro, Leandro, Leandro... Cad a minha amiga que achava umas idiotas essas meninas
que paravam de viver suas vidas para viver para os namorados? - quis saber Manu.
       - Que dizia que namoro acaba, mas amizade no acaba nunca?
       - Nossa amizade no vai acabar nunca...
       - Se continuar assim, vai. Sinto dizer - foi seca Gabi. Pausa para reflexo.
       - Gente, acho que vocs esto viajando, a nossa amizade continua igual... - comentou Ritinha, com quase nenhuma
certeza.
       - Ah, ? Qual foi a ltima vez que a gente se viu?
       - Hummm,.. Foi na... na semana passada?

       - T vendo? V se um ano atrs voc teria que parar pra pensar nessa resposta? V se um ano atrs voc teria me
visto s na semana passada?
       - Ritinha, faz mais de uma semana que a gente se viu. No boliche. Mas voc e o Leandro ficaram l to pouco
tempo que nem deu pra gente fofocar.
       - A gente te ama tanto... - emocionou-se Manu.
       - Por isso a gente no quer te perder.
       - Vocs no gostam do Leandro?
       - A gente adora o Leandro, ele faz superbem pra voc, te faz feliz... Mas d pra namorar e continuar nossa amiga...
Ou era muito sacrifcio sair com a gente antes dele entrar na sua vida? - questionou Manu.
       -  timo sair com vocs...
       - No parece... Parece que voc no gosta mais da gente... - choramingou Gabi.
       Ritinha estava assustada. Parou para pensar e constatou que realmente no era mais a mesma Ritinha de antes, no
dava mais tanta ateno para suas melhores amigas como antes. Por qu?
       - Pra! Eu no posso ter me transformado nisso!
       - Justamente porque no queremos perder voc que viemos aqui.
       - Essa viagem pra casa da av da Suzaninha vai reforar nossa amizade, vai fazer com que a gente lembre os velhos
tempos, quando a gente fazia tudo juntas...
       - Vai ser uma celebrao  amizade! - empolgou-se Manu.
       - Mas eu vou deixar o Leandro sozinho? No posso fazer isso...
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         - Claro que pode, alou! Ele existia antes de voc entrar na vida dele. Voc existia antes dele entrar na sua vida!
Como  que vocs viviam antes de se conhecer?
         - No  simples assim. Se eu fosse com vocs, ele poderia ficar chateado e terminar comigo...
         - Terminar porque voc passou um feriado com as suas melhores amigas? Ele  louco? - enfezou-se Manu.
         - Ritinha, vai por mim, distncia faz bem de vez em quando. O namoro de vocs vai ficar at melhor quando a
viagem acabar.
         - E so s quatro dias - reforou Manu.
         - Cinco, se contarmos com a sexta, que  o dia que a gente chega l. Vamos, se anima, vai! Vai ser tudo de bom.
         - Tem piscina l.
         - E tem um lago bem perto - contou Gabi.
         - No  lago,  rio.

         -  gua,  tudo igual. - A gente pode pescar...

         - Pescar nunca, mas nadar, brincar...
         - Por que no pescar, Gabriela?
         - Porque eu acho uma crueldade matar peixinhos.
         - E a? Vamos?
         Ritinha estava pensativa, mastigando tudo que ouvira, pensando em cada palavra jogada nos seus ouvidos, que
entraram de repente, sem pedir licena, e mexeram de verdade com ela.

         - , gente... no sei se meus pais vo deixar...

         - Seu Onofre adorou a idia. Disse na sala que ia adorar ver a gente viajando de novo, porque ns temos muito
juzo.
         - Meu pai disse isso? Srio?
         - Srio. E conhecendo seu pai do jeito que eu conheo, aposto que ele vai preferir que voc viaje com a gente a ver
voc ir pra Valena com o Leandro.
         - ... isso  verdade... - concordou Ritinha.
         - E a? No tem por que no ir, Ritinha!  pela gente!
         - Pelas suas amigas mais fofas, mais lindas, mais gostosas! - brincou Gabi.
         - Posso pensar?
         - No! - responderam Manu e Gabi.
         - No tem essa de pensar!
         - Mas como  que eu fao com o Leandro? No posso responder sem falar com ele antes...
         - Por que no? Ele manda em voc,  isso? Se ele deixar, voc vai, se no, voc no vai?  isso, Rita de Cssia? 
perguntou, sria, Gabi.
         - No  isso... - Baixou os olhos Ritinha. -  que...  que.., eu no sei nem como falar isso pra ele...
         - Diz que voc quer passar mais tempo com a gente, u - sugeriu Manu.
         - Ele no vai entender.
         - Por qu?
         - Vai ficar com cimes...
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         - Da gente? Fala srio! - irritou-se Gabi.
         - Ns te conhecemos h mais de 10 anos, ele te conhece h sete meses. Acho que isso podia pesar na sua deciso,
no?
         Ritinha ficou muda. Pensou, pensou...
         - Eu preciso ligar pra ele.
         - Sabe o que vai acontecer? Voc vai falar, ele vai fazer o maior drama, vai implorar para voc ficar com ele e voc
vai acabar no indo com a gente.
         Ritinha pensou em cada palavra certeira disparada por Manu.
         - Decide agora, Ritinha.  to difcil assim tomar uma deciso sem o Leandro? Decide primeiro, depois liga pra ele
pra contar.
         - No tem muito que pensar. A gente s precisa saber uma coisa: voc quer ou no quer ir com a gente para um
feriado inesquecvel?
         - Querer eu quero...
         - Ento!
         - Mas eu tambm queria passar o feriado com ele, Manu...
         - Em Valena? Valena  aqui do lado, voc pode ir sempre. A gente t te chamando para ir para uma cidade linda,
histrica, cti-cti, cheia de duendes fofos.
         - Ai, sem esse negcio de duende, Gabi, t sem pacincia... - resmungou a sempre resmungona Ritinha.
         - T, eu falo para os duendes no aparecerem pra voc, sua chata. E a? Vamos pra Minas?
         Ritinha pensou. E pensou, pensou, pensou.
         - Ai, que dvida! - deixou o pensamento escapar em voz alta. Ups! Manu e Gabi no esperavam por uma frase
dessas. As duas se entreolharam, visivelmente tristes, certas de que a amiga, mais uma vez, optaria pelo namorado.
         - Beleza, Ritinha, depois a gente te conta como foi. Vamos, Manu?
         As duas dirigiram-se cabisbaixas rumo  porta e quando estavam bem prximas  maaneta...
         - Eu vou.
         - Jura? - perguntou Manu, olhinhos brilhando.
         - Juro.
         - T decidida?
         - Decidida, Gabi.
         - No vai ficar arrependida?
         - De jeito nenhum!
         - Obaaaaa! - comemorou Gabi se jogando na cama da amiga e enchendo sua bochecha de beijos.
         - Ai, pra! T me babando toda! - implicou Ritinha. Quando a euforia terminou, a sempre desconfiada Ritinha quis
saber:
         - Vem c, no  viagem roubada, no, n?
         - Claro que no! A gente trouxe as fotos pra voc ver. Fotos da cidade e do stio da av da Suzaninha. Tudo lindo.
O que voc quer ver primeiro?
         - Hum... o stio.
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       As trs passaram um tempo vendo as fotos (que fotos!) da casa enorme, do gramado verdssimo que cercava a
propriedade, da piscina, da sauna, do campo de futebol, da horta onde pegariam ingredientes para o almoo e o jantar... E
programaram a viagem, imaginaram o que fariam, que roupas levariam, que jogos jogariam... A cidade era uma graa.
Pequena, charmosa, aconchegante. Perderam a noo da hora planejando a viagem que celebraria uma amizade antiga,
importante, e que elas queriam manter para o resto da vida.
       Ritinha cortou o clima de felicidade geral para fazer uma pergunta que no queria calar na sua cabea:
       - Como  que eu fao para contar para o Leandro?
       - A gente te ajuda, boba! - disse Manu.
       - Vamos pensar nos melhores argumentos pra voc dizer pra ele e pra ele ficar mansinho.
       - E ainda mais apaixonado.
       Ritinha baixou os olhos, deu um riso tmido que se abriu aos poucos e disse, com o corao:
       - Eu amo vocs.
       - ! Que fofa! A gente tambm te ama, Ritinha! - Manu pulou no colo da amiga, para abra-la.
       Gabi, antes de se juntar a elas num abrao gordo, brincou, debochada:
       - A gente no te ama, no. A zente tchi ama, Litinha! Vox  a cosa masi rica da noxa vida.
       Gabi fez as amigas rirem, e, findo o riso, a tagarelice rolou solta. A farra no dava sinais de que estava perto de
acabar. Ento as meninas tomaram uma deciso importante, importantssima: dormiriam l aquela noite, para varar a
madrugada conversando, falando bobagem, rindo  toa e dividindo um pote gigante de sorvete. Como nos velhos
tempos.
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       A
                             ssim que nasceu, mesmo fraquinho e tmido, o sol j anunciava uma sexta-feira azul, sem nuvens,
                     um dia daqueles que fazem sorrir as garotas do tempo dos telejornais. Manu, Gabi e Suzaninha pularam
                     da cama s cinco da manh empolgadssimas, como jamais estiveram s cinco da manh.
                             - , Minas Gerais! , Minas Geraaaais! Quem te conhece no esquece jamais! - cantarolou
                     Gabi.
                             - , Minas Geraaaais! - completaram Manu e Suzaninha.
                             - Eu vou, eu vou, pra Minas agora eu vou! Pararatibum! Pararatibum...
       - Menos, Gabi! Sete anes e pararatibum ningum merece! - brincou Manu.
       Suzaninha e Gabi tinham dormido na casa de Manu, a dona da mala mais gorda.
       - Vai estar calor l. Em Minas  vero tambm, sabia? Pra que tanto casaco? - provocou Gabi.
       - Porque eu sou friorenta. E porque quero esconder os dois quilinhos que ganhei e no t conseguindo perder.
       - Ningum percebe esses quilos a mais, s voc, Manu - confortou Suzaninha.
       - Eu acho que casaco engorda. E no acho que voc precise esconder nada, t a maior gostosa.
       - Eu no quero ser gostosa, quero ser modelo. E modelo tem que ser magrssima, no gostosa.
       - Mas tem que tomar cuidado com essa obsesso pela magreza. Anorexia  um assunto muito grave, no quero
perder voc para uma doena horrvel como essa!
       - Vira essa boca pra l, Gabi! No vou ficar anorxica.
       - Por favor!
       - Eu estou to desanimada com a carreira... Achei que com 17 anos eu j teria decolado. Todo mundo sempre me
diz que sou bonita, e tal, mas nada acontece.
       - Manu, voc no  bonita,  linda. E ainda tem muito tempo pela frente - incentivou Suzaninha.
       - No tenho, no. Com 17 anos eu sou praticamente uma av no mundo das modelos.
       - Voc t reclamando de barriga cheia, outro dia mesmo voc trabalhou como modelo - lembrou Gabi.
       - Voc acha que eu considero trabalhar como modelo distribuir panfletos de injeo para fgado de boi em leilo
de gado?
       - Srio que voc fez isso?
       - Srio. E tem que estar sempre com aquele sorrisinho ridculo de danarina de programa de auditrio.
       - Por que voc aceita fazer esse tipo de coisa?
       - Fao pela grana.
       - Mas seus pais tm grana, voc no precisa de dinheiro.
       - No preciso, mas gosto de ter o meu dinheiro.  muito bacana. Mas no  s por isso, eu fao porque se eu
comear a dizer no a agncia no vai mais me chamar pra nada e vai me botar na geladeira.  legal eles me acharem
trabalhadora, para quando rolar uma coisa mais interessante lembrarem de mim.
       - Eu achava que modelo s fazia comercial, desfile e foto.
       - Eu at fao foto. De mo, de p. O povo do mercado acha meu p superfotognico. V se pode, meu p! Agora
sempre me chamam pra fazer foto pra anncio de sandlia, de esmalte... Minha cara que  boa, nada! Ningum se
interessa por ela.
       - Ser modelo  difcil, mesmo - observou Suzaninha.
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       - Bota difcil nisso. Ainda mais quando voc no emplacou. Te chamam pra cada coisa... Distribuir panfletos
imobilirios, dar amostras grtis de produtos na sada de escolas ou em festas, embelezar estandes de feiras
agropecurias, trabalhar como demonstradora de produtos de maquiagem... tudo isso pode ser considerado trabalho de
modelo.
       - Precisa ser modelo pra isso? - indagou Suzaninha.
       - Precisar, no precisa, mas quando um cliente procura uma agncia de modelos para um trabalho como esse 
sinal de que est em busca de pessoas bonitas.
       - E eles pagam bem? - quis saber Gabi.
       - No muito. Mas pagam direitinho.
       - Bom-dia, flores! - saudou a me de Manu, entrando no quarto com uma alegria infinita e interrompendo o
assunto de modelo.
       - Bom-dia, me.
       - , minha loirinha linda, d beijo aqui na mame. A me mais linda do mundo!
       - Linda e modesta! - brincou Manu. As duas se abraaram.
       - Menos, querida, aperta menos. Mame botou peito h 15 dias, ainda t um pouco dolorido.
       - Voc botou mais silicone, tia Macl? - espantou-se Gabi.
       - A h , botei. No esto lindos? - perguntou a me de Manu, abrindo o roupo rosa pink que vestia e mostrando os
seios novos para as amigas da filha.
       - Manh! - gritou Manu, roxa de vergonha!
       - O que foi? Elas nunca viram peito na vida? Deixa de ser boba, Manuela! Eu quero, e posso, mostrar meus peitos,
eles esto um espeitculo!
       - Ai... que pssimo! - riu Manu.
       - Venham c, meninas, venham ver de perto a perfeio em forma de seios.
       - Pra com isso, me!
       - Deixa de ser fresca e moralista, Manu! Elas so mulheres, tm peitos tambm! Pequenos, mas peitos.
       Essa era a me de Manu. Divertida, com a alma jovem e sempre disposta a uma cirurgia plstica.
       - Posso apertar, tia? - quis saber Gabi.
       - Claro que no! - respondeu Manu imediatamente.
       - Claro que sim! Vem c, Gabi, devagar, hein?
       - Posso tambm?
       - Claro, Suzaninha! Todas as minhas amigas j apertaram, imagina se eu ia privar vocs disso!
       Aperta daqui, apalpa de l, os peitos de Macl fizeram o maiorrr sucesso com as adolescentes.
       - Eu no mereo. Eu no precisava ver essa cena. s cinco e meia da manh, minhas amigas apertando os peitos da
minha me. Que cena linda! Que cena fofa!
       As trs riram de Manu.
       - E a? Malas prontas? - perguntou Macl, amarrando o roupo.
       - Prontssimas - responderam em coro.
       - Empolgadas?
       - Empolgadssimas! - disseram juntas novamente.
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      - J sabem, hein? Esse negcio de ficar com vinte por noite  um nojo. Trs ou quatro ainda perdo,  Carnaval,
mas vinte  uma troca de bactria que me d nsia.
      - Me!
      -  o que eu acho, filha, Vocs duas podem fazer o que quiserem, mas no deixem minha Manuzinha botar a boca
em qualquer boca, por favor. Boca feia, fora de cogitao! E boca sem dente neeeem pensar!
      - Pode deixar que a gente toma conta dela, tia - disse Gabi.
      - Maravilha. Vamos tomar caf? No quero atrasar ningum, o nibus de vocs sai s seis em ponto. Pedi pra fazer
uma broa de milho que  muito mais gostosa quando est quentinha. Vamos?


      Enquanto isso, na casa de Ritinha...
      -  o Leandro, Rita de Cssia. Esse menino no enjoa de voc, no? , grude! - disse Ceclia, me de Ritinha,
anunciando o menino, que fora tomar caf-da-manh na casa da namorada.
      - Nunca vi isso. Ficaram juntos at tarde da noite ontem, hoje de manh o menino j est aqui. Ainda bem que
vocs vo se separar um pouco, namoro assim  uma porcaria - resmungou seu Onofre.
      Ritinha fez que no ouviu. Os dois tomaram caf com os olhos grudados um no outro, numa tristeza infinita.
Parecia que Ritinha estava de partida para um perodo de quatro anos na China.
      - So s cinco dias em Minas! Eu volto logo... - derreteu-se Ritinha para Leandro.
      - Vou morrer de saudade.
      - Eu tambm.
      - Eu vou mais.
      - No. Eu vou.
      - Eu vou.
      - Eu vou.
      - Ai, ai, ai! Os dois vo morrer de saudade! Agora anda, Ritinha, se apresse! J, j a Macl est a com as meninas!
      - , me! J vou.
      - No vai, no.
      - - Vou, sim, L.
      - No vai, no.
      - - Vou, sim.
      - Ela vai, sim, j est decidido e combinado, , coisa chata! Vocs se vem na volta. Agora d licena, Leandro.
Ritinha tem que tomar banho para esperar as amigas. Vamos, filha.
      - Eu vou esperar voc aqui na sala.
      - Espera?
      - Espero.
      - Espela...
      - Espelo.
      - Espela xim...
      - Ele espera, menina! No t ouvindo o garoto dizer 'espero, espero, espero'? Ficou surda?
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       - Quem te viu, quem te v, hein, Ritinha? A menina durona virou uma manteiga derretida. Anda, vai tomar banho -
resmungou seu Onofre, empurrando a filha para dentro.
       Em quarenta minutos, a buzina da me de Manu acordou a rua e separou os namorados mais grudados de
Resende, do Rio, do Brasil, do planeta Terra.
       A despedida dos dois foi cinematogrfica. Mais cafona do que o mais cafona dos filmes cafonas.
       - Eu te amo - declarou-se Ritinha.
       - Eu te amo mais.
       - No, eu te amo mais.
       - Eu.
       - Eu.
       - Eu.
       - Eu vou deixar de amar os dois a-go-ra se esse grude insuportvel continuar - brincou Macl. - Vamos acabar logo
com isso, gente, no quero que vocs percam o nibus!
       - T bem, tia... - conformou-se a apaixonada.
       - Tchau, meu amor.
       - Me liga?
       - Ligo.
       - Sempre que quiser, t?
       - Toda hora.
       - Todo minuto!
       - Todo segundo!
       - Toda pacincia que houver nessa vida,  isso que eu lhe peo, Senhor! - Levantou as mos para o cu Macl. - E
ento, chatonildos? Podemos ir?
       Manu, Gabi e Suzaninha estavam no carro imitando os apaixonados, debochadas que s elas.
       Ritinha deu um beijo nos pais, outro enorme e demorado no namorado e entrou no carro. Cumprimentou as
meninas, pediu desculpas por atras-las, mas pediu sua compreenso.
       -  a primeira vez que a gente vai ficar tanto tempo longe um do outro...
       - ...  a plimeila vez, ? - debochou Gabi.
       - Eu te amo, Manu! - ironizou Suzaninha, chorosa.
       - Eu tambm te amo, Suzaninhaaa! - entrou na brincadeira Manu.
       - Eu amo vocs, gente! Bu! - fez Gabi.
       - Ai, como vocs so implicantes. Olha s, Gabi, voc no pode implicar comigo, no! Quando voc estava
apaixonada pelo Diogo eu tinha que aturar Di pra l e Di pra c o tempo inteiro! Ouvia o nome desse infeliz 24 horas por
dia. E olha que vocs nem namoraram!
       - Para sorte dela! - exclamou Suzaninha, ex do Diogo.
       -  verdade,  verdade. Prometo que vou implicar menos com voc, Ritoca - admitiu Gabi.
       O motorista ligou o carro. Macl no podia dirigir antes que a cirurgia nos seios completasse um ms, mas fez
questo de acompanhar a filha at a rodoviria.
       - Prontas para o Carnaval?
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       - Prontas! - responderam as quatro em coro.
       - Ento l vamos ns! - disse ela. - O que vocs querem ouvir?
       - Pitty! - gritou Suzaninha.
       - Beyonc! Ivete! - sugeriu Manu.
       - Madonna! Rolling Stones! Marisa Monte! - disse Gabi.
       - Eu te amoooooo - berrou Ritinha, com todas as cordas vocais, com a cara pra fora da janela, para Leandro, que
corria atrs do carro como se nunca mais fosse ver a amada.
       - Xi... No tenho essa msica - implicou Macl. -  do Chico, n?
       As outras trs estavam espantadas. Tinham certeza de que o momento "eu te amo" havia acabado segundos atrs.
       - Eu tambm! - berrou Leandro, tentando se fazer escutar, comendo a poeira deixada na rua de terra pela picape
de Macl.
       - Olha o nosso pacto, hein? - alertou Ritinha antes de mandar pra ele um beijo e fechar a janela.
       Silncio. Lgrimas escorriam tmidas no rosto da apaixonada enquanto sua mo parecia tentar segurar o corao j
apertadinho de saudade.
       - Pacto? - perguntaram Suzaninha, Manu, Gabi e Macl.
       - , a gente fez um pacto.
       - Conta.
       - Ai, gente, agora no d, t triste... muito triste ficar sem o L.
       - Muito triste  deixar a gente sem saber que pacto  esse - estrilou Manu.
       - Conta, anda! - insistiu Gabi.
       - Ah, a gente fez um pacto de comportamento.
       - Como  que  isso? - perguntou Suzaninha.
       - Eu dei pra ele uma carta que chamei de pacto. Se algo ali for descumprido, nosso namoro acaba.
       - O que dizia a carta? - ficou curiosa Gabi.
       - T aqui, . Eu fiz uma cpia. Podem ler.


       PAPPOC - Pacto Amoroso Para Passar Otimamente o Carnaval
       I -  terminantemente proibido trair. Traiu, acabou o namoro.
       Por trair, entenda-se:


       a - beijar uma pessoa; b - pensar em outra pessoa; c - olhar para outra pessoa por mais de dois segundos; d - sorrir
para uma pessoa do sexo oposto; e - perguntar as horas para pessoa do sexo oposto; f - abraar por mais de dois segundos
uma pessoa do sexo oposto; g - danar com uma pessoa do sexo oposto; h - sonhar com uma pessoa do sexo oposto que no
seja eu; i - fazer piadinhas zero engraadinhas para pessoas do sexo oposto; j - apertar a bunda de pessoas do sexo oposto,
mesmo que seja de brincadeira porque  Carnaval.


       2 -  terminantemente proibido cair em tentao. Caiu, acabou o namoro.
       O que fazer para no cair em tentao?
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       RESPOSTA: Se voc vir uma bonita pessoa do sexo oposto, interessante e sensual, desvie o olhar na mesma hora. Caso
bonita pessoa olhe pra voc e se aproxime com segundas intenes (estamos em pleno Carnaval, esse tipo de coisa acontece),
para no cair em tentao, nossa arma  o celular.


       RESUMINDO:
       Nosso pacto = viu bonita pessoa do sexo oposto, pensou por mais de dois segundos em bonita pessoa do sexo
oposto, se interessaria por bonita pessoa caso no estivesse namorando, ficou com vontade de dar uns pegas de Carnaval (ou
seja, sem compromisso) em bonita pessoa: liga para mim na mesma hora. Assim espantamos a tentao e lembramos o quo
apaixonados somos um pelo outro.


       Por fim: repetir mentalmente antes de dormir e ao acordar:
       Eu amo a Ritinha. Eu amo a Ritinha. Eu amo a Ritinha.


       - Ritinha! Isso  um absurdo! Voc vai ficar histrica cada vez que o telefone tocar - chiou Gabi.
       - No, isso  s para a hora do baile.
       - Baile? - ficou curiosa Manu,
       - , baile. Quase tive um ataque cardaco quando ele me disse que vai para um baile de Carnaval em Valena.
       - Fala srio!
       - T falando, Manu! Quase desisti de ir com vocs quando ele me contou. Achei que a viagem a Valena ia ser
calminha, no hotel-fazenda o tempo inteiro... Nunca achei que eles fossem a baile nenhum.
       - Nem eu! Pensei que ele fosse no mesmo esquema que a gente, para descansar, aproveitar o feriado quietinho,
ficar com os cavalinhos, as vaquinhas... nada de folia - disse Suzaninha.
       - Eu tambm. Ele tambm! Mas ele disse que no vai ter como escapar desse baile, os pais dele conhecem uma
galera em Valena que j reservou mesa e tudo. Um saco!
       - Mas voc disse pra ele que no ia a baile nenhum em Porto das Rosas?
       - Claro que disse, Manu!
       - E ele? No ficou arrasado ao saber que vai se divertir enquanto voc fica em casa vendo o desfile das escolas de
samba pela tev procurando celulite nas madrinhas de bateria? - quis saber Suzaninha.
       - No sei se ele ficou arrasado... Mas a boa parte  que ele vai com os pais, ento acho que no corro muito perigo
de ganhar um par de chifres na testa...
       - Vem c, foi por causa desse baile que voc criou esse pacto exagerado?
       - Foi, Gabi. Se ele achar que vai cair em tentao, liga pra mim na mesma hora, pra lembrar o quanto eu sou
importante na vida dele, maravilhosa, fofa, a melhor namorada do mundo.
       - Ento ele s vai te ligar na hora do baile? - quis saber Macl.
       - Claro que no, tia! Nos outros dias a gente vai se falar direto, toda hora.
       - Ai, t comeando a ficar arrependida de ter chamado voc. Achei que voc ia ficar com a gente, mas vai ficar l
com a cabea em Valena - foi sincera Suzaninha.
       - P, Ritinha, a proposta no  essa. A proposta  celebrar nossa amizade, e no ficar pendurada no telefone com o
namorado.
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        - Ah, gente! No t a fim de ser trada, no! Perdo tudo: menos traio. E se trair, ai dele se no me falar.
        - Voc vai querer saber?
        - Claro.
        - Se ele falar voc perdoa?
        - No. Termino tudo, Suzaninha. No perdo mesmo.
        - Mas voc no ama o Leandro? - Amo, Gabi, mas no quero ser chifruda.
        - Se ele no contasse, voc no iria saber e continuaria feliz com ele - opinou Gabi.
        - T louca? - reagiu Ritinha.
        - Eu no vou querer saber se um dia for trada - concluiu Gabi.
        - Vai querer ser corna mansa? - perguntou Ritinha.
        - Sei l, acho que vou. O que os olhos no vem, o corao no sente. Se eu amar muito o garoto, no vou deixar
que um beijinho inocente acabe com a minha relao.
        - Srio? - espantou-se Manu.
        - Srio. S no perdoaria se meu namorado me enganasse, ficasse direto com uma outra pessoa enquanto
estivesse comigo...
        Isso  mentira,  enganao,  pssimo. Mas tudo depende de conversa, do namorado...
        - Voc diz isso porque no t namorando. Quando voc namorar srio, vai ver como  ruim ter a insegurana de
ser trada.
        - Eu no sou nada insegura. Confio muito no meu taco. E acho que se estou com um garoto tenho que confiar
nele e ele em mim. Alm do mais, sou tima pessoa, tenho certeza de que ningum em s conscincia me trairia, seria
uma coisa do acaso.
        - Gabi, voc tem certeza de que tem 16 anos? Eu s fui pensar assim depois dos 30 - disse Macl, que costumava
dizer que tinha "quarenta e uns" quando perguntavam sua idade.
        - Nossa, Gabi! Eu jamais conseguiria ser assim, sou mega-ciumenta! - admitiu Manu.
        - Como  que voc sabe? Nunca namorou srio... Fica duas semanas com um menino e depois acaba... - disse
Ritinha, sem inteno de ferir a amiga.
        Mas feriu.
        Manu baixou os olhos. Esse assunto a estava deixando bem tristinha ultimamente. Ela j estava com 17 anos e
nunca tinha namorado seriamente ningum. S alguns rolos aqui e ali. E, no bastasse a vida amorosa inexistente, sua
carreira de modelo deixava a desejar. Manu andava bem borocox. Viajar com as amigas, ela acreditava, lhe daria uma
injeo de nimo.
        - , Ritinha! Eu s fui namorar srio com 19 anos. A Manu  muito bonita, assusta os meninos - partiu em defesa da
filha Macl.
        - Me, isso  o maior papo de me, t? A Gabi  linda e vive acompanhada.
        - Que  isso? Nunca namorei de verdade - disse Gabi.
        - E o Doda? O Gabriel, o Beto, o Homero, o Giovani?
        - Ah, fiquei com eles mais tempo do que o normal, s isso. Mas nunca fui apaixonada por nenhum deles. E no
chamei nenhum deles de namorado.
        - Mas eles te apresentavam como namorada.
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       - Eu sei, eles me namoravam, eu  que no namorava eles, Manu.
       - Ah, e vamos combinar uma coisa? O que adianta namorar se o cara  um idiota como o Diogo? - pontuou
Suzaninha. - Antes s do que mal acompanhada.
       - Concordo com a Su. E namorar s porque todas as meninas namoram, ou s pra dizer que tem um namorado, 
ridculo - opinou Gabi.
       - Mas eu t to carente...
       - , Manu, foi mal... no queria te deixar chateada... - desculpou-se Ritinha.
       - Mas deixou, Ritinha. Voc era totalmente encalhada at outro dia, no vem posar de namoradeira, t?
       - Manh! - bronqueou Manu.
       - Ah,  isso, mesmo! Todo mundo desencalha um dia, at a minha filha vai desencalhar!
       - Pra, me! Eu no sou encalhada!
       - Encalhadinha, pronto. Melhorou? - fez graa Macl.
       - D! - debochou Manu.
       O assunto morreu, as quatro voltaram a sorrir e a implicar umas com as outras. Em pouco tempo estavam na
rodoviria, ansiosssimas, prontas para viver um feriado daqueles. Nada de folia, a nica permitida era a festa do pijama,
em que s elas entrariam e j tinham combinado uma guerra de travesseiros.
       O iPod de Manu contabilizava vrias listas com as msicas ideais para os cinco dias no stio. Trilha sonora para a
piscina, para a sauna, para as noites, para as tardes... Estavam prestes a viver uma histria em que elas e sua amizade
seriam as protagonistas. Ningum mais. Piscina, sol, caminhadas, banhos de rio, lago, o que fosse. Estavam juntas, mais
unidas do que nunca, e isso era a coisa mais importante naquele momento.
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       E
                       las passaram a viagem inteira tagarelando e combinando o que fariam quando chegassem. Gabi
                sugeriu que preparassem um bolo para a av de Suzaninha, para agradecer a hospitalidade. A idia foi logo
                vetada por Ritinha.
                       - T maluca? Eu vou pra descansar, no pra ficar com a barriga no fogo! - resmungou, antes de
                atender ao stimo telefonema.
                       -  ele de novo? - quis saber Gabi, irritada.
                       - .  o mala de novo - respondeu Manu, impaciente e irritada.
       - Shhh! - recriminou Ritinha.
       Quando desligou, Manu ameaou jogar seu celular pela janela caso ela continuasse falando de cinco em cinco
minutos com Leandro.
       - Desliga essa porcaria, Rita de Cssia! - insistiu a loirinha.
       - No consigo.
       - Claro que consegue! - disse Gabi, - Desliga! Desliga! Desliga! - puxou corinho, imediatamente acompanhada por
Manu e Suzaninha.
       - No consigo... - repetiu Ritinha.
       - Beleza, eu consigo - fez Gabi, pegando o celular da mo da apaixonada e desligando-o, decidida. - Ai, agora vai
ser bem melhor a viagem.
       - Boa, Gabi! S assim pra gente conseguir conversar sem interrupo.
       - Gabi, devolve meu celular, no tem graa!
       - Tem certeza de que voc vai querer? T sentada em cima dele e acabei de soltar um daqueles puns trogloditas.
       - Ecaaaa! Sua nojenta!
       - Esquece esse telefone, Ritinha - bronqueou Manu.
       - Eu achei que vocs gostassem do Leandro...
       - Eu tambm achava, mas se ele desse mais um telefonema eu ia odi-lo pro resto da vida - foi sincera Gabi.
       - Eu no sei se eu gosto do Leandro... Ele  chato - implicou Suzaninha.
       -  beeem chato - endossou Manu.
       - Tambm, pra namorar a chata da Ritinha, tinha que ser um chato, n? - riu Gabi.
       A tromba de Ritinha deu lugar a um sorriso e as quatro voltaram a conversar e quase no viram passar as seis horas
de viagem. Quando deram por si, estavam em Belo Horizonte, de onde iriam para Porto das Rosas levadas por dona
Hemengarda, av de Suzaninha, que as esperava na rodoviria com um sorriso no rosto.
       - Suzaninha, meu amor! Que saudade! E que amigas lindas! - exclamou assim que viu a neta. Em seu ouvido,
durante um abrao superapertado, sussurrou: - Voc  muito mais linda que todas elas juntas, mas a gente no precisa
dizer isso pra elas.
       Suzaninha riu e apresentou Gabi, Manu e Ritinha  av.
       - Voc  a que est namorando um menino grudentinho? - quis saber dona Hemengarda.
       Contrariada com o "grudentinho", Ritinha quis saber:
       - No  grudentinho, nada. Mas... como  que a senhora sabe?
       - Voc est com cara de apaixonada. Conheo essa carinha.
       - A senhora acha? Ai, gente, que lindo! D pra ver na minha cara que estou apaixonada...
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       - Ainda bem que no d pra ver sua chatice - alfinetou Gabi.
       - At que d, mas minha av no enxerga muito bem - entrou na brincadeira Suzaninha.
       - D!!! - reagiu Ritinha.
       Quando chegaram ao carro, um fusca de 1969, Suzaninha disse:
       - Acho que as malas no vo caber a, v...
       - Claro que vo, querida.
       Quase no couberam. A bagagem foi espremida na mala do carro, embaixo dos bancos e no colo das meninas.
Suuuuperconfortvel. Quando, enfim, dona Hemengarda conseguiu ligar o carro, depois de seis tentativas e um
empurrozinho amigo de gente que estava por perto, Suzaninha perguntou:
       - Tem ar?
       - Ar-condicionado? Claro que no, querida! Mas tem ar-considerado - riu dona Hemengarda. -  s abrir a janela
que fica fresquinho, fresquinho.
       - Quanto tempo de viagem at Porto das Rosas? - quis saber Ritinha, o suor escorrendo na cabea, nas pernas.
       - So 483 quilmetros, umas cinco horinhas. J, j a gente chega l.
       - Cinco horinhas? Cinco horinhas? Cinco horinhas  "j, j" desde quando? O "j, j" da dona Hemengarda  bem
diferente do meu "j, j". Quando eu digo "j, j"  "j, j" - estrilou Ritinha.
       - Shhh! - repreendeu Gabi. - Olha a falta de educao, a gente vai ficar cinco dias na casa dela.
       Depois de trs horas de viagem num fusca onde estavam mais espremidas que sardinha enlatada...
       - T com fome, v - chiou Suzaninha. - A gente no almoou, s comeu bobagem na estrada.
       - Ah, mas eu no posso parar, no, querida. Quer dizer, depende de voc. Esse carro demora pra pegar, voc viu.
s vezes no pega de jeito nenhum e a vocs  que vo ter que me ajudar a empurrar, porque na estrada ningum pra
para ajudar, no.
       Empurrar um fusquinha? Debaixo daquele sol de matar? Encostar suas mos lindas naquele carro fervendo? Fazer
fora? Manu apavorou-se com a idia e logo tratou de dizer:
       - No vamos parar, no, dona Hemengarda, eu tenho barrinha de cereal aqui, a Suzaninha come e engana a fome.
       - Ah, timo! Mas no come muito, no. Quero que voc mate sua fome no stio. Fiz aquele bolo de banana que
voc adora. J, j a gente est em casa comendo at encher a pana.
       , Ritinha estava certa... O "j, j" de dona Hemengarda era bem diferente do dela. E do de todos os outros
habitantes do planeta. Quatro horas haviam se passado e a sensao  de que estavam naquele carro h sculos. Pudera!
O fusquinha de dona Hemengarda no passava de quarenta por hora.
       - Que , seu paspalho? Pra de buzinar e passa por cima! Estou com crianas no carro, no est vendo? - reclamou
a senhorinha, irada, com o motorista do carro detrs.
       - A gente no  mais criana, v.
       -  voc!  a sua me! - gritou dona Hemengarda. -Bostinhaaaa!
       - V!
       - No  voc, querida,  o filho de uma gua que acabou de me cortar e quase bateu na gente.
       - Pode acelerar, vozinha... Acho que a senhora est atrapalhando o trnsito indo assim, to devagar.
       - Ah, ? T devagar? Querem correr, querem? Diante do silncio...
       - Querem correr ou no querem?
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       - Que-quereeemos! - responderam elas em coro.
       - Ento apertem os cintos! Agora vocs vo ver do que esse carrinho  capaz! Seguuuura, peo!
       Dona Hemengarda finalmente passou a quarta marcha e pisou no acelerador. Foi a cinqenta por hora at Porto
das Rosas, com o cano de descarga fazendo um barulho que Deus me livre.
       Uma hora e cinqenta minutos depois...
       - A gente t viajando h quanto tempo? Noventa horas? -perguntou Ritinha no ouvido de Manu.
       - 120 - respondeu a loirinha, exausta.
       - Minha bunda t quadrada, preciso levantar, esticar as pernas... - reclamou Suzaninha.
       - J  estamos chegando, filhota! J, j estamos chegando.
       Quase oito (oito!) horas haviam se passado desde que saram de Belo Horizonte. O cu estava negro e lotado de
estrelas quando dona Hemengarda enfim anunciou para a trupe, que quela altura j estava cochilando no fusquinha:
       - Olha o stio a, pirralhada!
       Nunca foi to bom ser acordada com um grito.
       - U-hu!!! - empolgou-se Suzaninha!
       As outras trs bateram palmas, aliviadas com a chegada ao to sonhado destino. Olharam para os lados,
empolgadas, procurando a casa que conheceram pelas fotos. Mas s viram um muro descascado, branco desbotado,
caindo aos pedaos.
       Dona Hemengarda parou em frente ao porto e saiu do carro para abri-lo.
       - U, no tem ningum para abrir para a senhora?
       - Que nada! - respondeu a senhorinha enquanto saa do carro.
       - Cad o Gildo? O Amncio? O Dod?
       - Gildo foi embora, quis estudar pra ser algum na vida. Foi fazer Veterinria, sempre gostou de bicho. Amncio foi
para Belo Horizonte tentar a sorte como flautista. Ele  pssimo com a flauta, mas eu no ia desanimar o coitado. Dod
casou com uma lambisgia e pediu as contas.
       - O Dod? Mas ele no era casado?
       - Era, com a Elzinha, mas no no papel.
       - E ela?
       - Foi com ele, acredita? Casamento moderno, a trs. V se pode! Onde  que esse mundo vai parar?
       - T boba, v...
       - Eu no fiquei boba, no, Fiquei foi pau da vida com a Elzinha! Ela faz o melhor pudim de leite do mundo, no
podia me abandonar e me deixar sem meu pudim.
       - Ento agora a senhora est sem empregado?
       - Estou s com o Edmilson. Ele cozinha, limpa a piscina, corta a grama, arruma a casa, cuida do jardim, faz a
manuteno de tudo, me leva pra passear, joga baralho comigo...
       Quando o porto se abriu, as quatro logo perceberam que Edmilson no arrumava a casa, no cortava a grama,
no cuidava do jardim e muito menos limpava a piscina. A grama parecia um matagal, as flores estavam murchas e a
piscina cheia de folhas.
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       Estacionaram em frente  casa principal, cuja pintura estava descascando, a exemplo do muro. A varanda - antes
decorada com uma rede, duas poltronas e uma mesa de quatro lugares onde a av servia quitutes e jogava cartas com as
amigas - tinha apenas uma cadeira de balano.
       - Cad os mveis, v?
       - Ah, caiu um temporal e destruiu tudo. Era gua para todo lado. A cadeira de balano eu consegui salvar. Ainda
bem, gosto muito de fazer meu tric olhando para o jardim ouvindo as cigarras e os bem-te-vis.
       - A senhora fica aqui sozinha?
       - Fico.
       Suzaninha engoliu em seco ao pensar na cena de sua av sozinha, pior!, solitria, tricotando. Cortou seu corao.
       - Mas eu gosto de solido, querida. Vov j est acostumada, no precisa ficar preocupada - disse dona
Hemengarda, segurando o queixo da neta e dando nela uma bitoca no nariz. - E ento, meninas? Tem algum com fome
a?
       - Muita fome! - foi sincera Ritinha.
       - Ai, que maravilha! Tem um bolo de banana, que  o preferido da Suzaninha, esperando por vocs. Querem comer
aqui ou l dentro?
       - Melhor l dentro, v, seno os mosquitos vo devorar a gente aqui fora.
       - Melhor, mesmo. At porque no tem onde sentar aqui na varanda. Que cabea a minha... - lamentou dona
Hemengarda.
       - Bolo? No vai ter jantar? - sussurrou Ritinha para Manu.
       - Pelo visto, no, Ritinha. Vamos encher a cara de bolo.
       - Vamos l dentro, a gente ajuda a senhora a servir - prontificou-se Gabi.
       As trs entraram e Suzaninha quedou-se um tempo de p na varanda, olhando em volta. Aquele lugar no
lembrava, nem de longe, o stio onde passara os melhores momentos de sua infncia... Estava abandonado, largado... E
no era um stio qualquer. Era a casa de sua av. Ela morava ali, o lugar no poderia estar naquele estado... Uma tristeza
bem doda invadiu o peito da menina, que teve de segurar o choro. A nica coisa que a deixou feliz foi ver que a goiabeira
onde subia para comer goiabas continuava l, s no tinha mais no galho gordo o balano onde se sentia a garota mais
feliz do mundo, pois achava que tocaria o cu, de to alto que ia nele. Suas lembranas foram cortadas com um chamado.
       - Suzaninha! Voc no vem, meu amor?
       - Claro que vou. Estou morrendo de saudade do seu bolo de banana, vozinha.
       Ao chegar  cozinha, Manu, Gabi e Ritinha estavam  espera da amiga com seus pedaos devidamente cortados.
       - Que fofas! Estavam s me esperando para comer? - perguntou Suzaninha.
       - Eu quis comer logo, mas a Manu e a Gabi falaram para te esperar. Sabe como , n? Minoria perde.
       Suzaninha riu do comentrio sincero da gulosa Ritinha enquanto sua av partia uma fatia generosa para ela.
       - Nossa, v, como t bonito!
       - Deve estar delicioso - elogiou Gabi. Com sua fatia no prato, Suzaninha disse:
       - Viva as calorias! Bora comer, mulherada!
       As quatro esfomeadas puseram seus garfos em ao e botaram na boca pedaos gigantes.
       - E ento? - quis saber dona Hemengarda, curiosa, olhinhos brilhando de felicidade por dar  neta e s amigas um
bolo que fazia to bem.
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         As meninas no conseguiram disfarar. O doce estava... estava... assim... pa-vo-ro-so. Para usar uma palavra
publicvel.
         Mastigando com dificuldade e bem devagar, para no ter de engolir to cedo, Manu foi a primeira a dizer, com a
boca cheia:
         - Est muito bom, dona Hemengarda.
         - Uma maravilha - entrou na mentira Gabi.
         - A senhora me desculpe, mas est com gosto de unha comida - entregou Ritinha, cuspindo seu pedao num
guardanapo.
         - V, acho que em vez de acar voc botou... sal...
         - No brinca! Deixa eu provar! - disse a senhorinha. Cuspiu na mesma hora. - Meu Deus! Isso est um horror! Est
com gosto de cotovelo! Meninas, que lapso o meu! No acredito que troquei acar por sal. Mil desculpas, mil desculpas...
         As quatro ficaram com peninha.
         - No fica assim, v... Essas coisas acontecem.
         - Mas no podiam acontecer. No hoje! Fiz com tanto carinho...
         - Mas no est to ruim, d para comer - tentou Gabi. - N, gente? Vamos comer! - disse, botando mais um
pedao enorme na boca.
         Nenhuma das trs acompanhou a amiga.
         - , querida, muito obrigada, mas torta de banana salgada, para falar a lngua de vocs, ningum merece! No sei o
que aconteceu, o pote do acar  parecido com o do sal, eu no estou enxergando muito bem... fiz confuso. Que pena...
Vou fazer outro agora mesmo.
         Dona Hemengarda estava desolada. Foi  despensa e voltou mais desolada ainda...
         - Acabou o acar... Foi a que Manu teve uma idia.
         - Por que a gente no sai pra comprar acar para a senhora fazer outro bolo?
         - timo, Manu! Vamos, gente? - empolgou-se Suzaninha.
         - Espera a, eu vou pegar a chave do carro.
         - No precisa, v, at o fusca ligar j deu tempo de a gente ir e voltar. Vou a p mesmo com as meninas,  to
pertinho a padaria... - brincou Suzaninha.
         - Eu acho que vou ficar aqui com a sua av, fazendo companhia pra ela - prontificou-se a preguiosa Ritinha, que
no tinha gostado nada da idia de caminhar.
         - E voc, Gabi?
         - Su, eu acho que vou ter que ficar porque... porque... - No teve tempo de completar. Saiu correndo com a mo
na boca em direo ao banheiro. Seu estmago no estava preparado para duas fatias de torta de banana salgada.
         - Ah, coitadinha... - lamentou dona Hemengarda.
         - Fica assim, no. A Gabi vomita  toa - mentiu Manu, para levar um sorrisinho ao rosto enrugado de sua anfitri.
         - Voc  linda por dentro e por fora, viu, Manu? - derreteu-se dona Hemengarda.
         - Bom, vou com a Manu, ento. J volto. Precisa de mais alguma coisa, v?
         - No, querida, s acar, mesmo. Banana tem  bea, as bananeiras esto apinhadas, o Edmilson pegou muitas
ontem.
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          - Vou comprar macarro instantneo tambm, t? Enquanto voc faz o bolo a gente traa o macarro e depois
come o bolo de sobremesa.
          - Claro! Que pssimo da minha parte! Fiquei to feliz com o doce que nem me lembrei de fazer jantar para vocs.
Minha cabea no anda boa, mesmo...
          As duas partiram. No meio do caminho, Suzaninha comeou a chorar.
          - Que foi, Su?
          - A minha av... No acredito que ela est vivendo numa casa to largada... Ela  to linda, merecia uma velhice
muito melhor... Uma vida muito melhor...
          - , Suzaninha, vem c, vem...
          As duas se abraaram e Suzaninha caiu no choro no ombro de Manu.
          - Chora, pode chorar com vontade. Melhor fazer isso aqui do que na frente dela. Ela ia ficar arrasada de ver voc
triste.
          - Eu queria tanto fazer alguma coisa para ajudar a minha avozinha...
          - Eu sei, Su...
          - Mas como  que eu posso ajudar? O que eu posso fazer pra melhorar a situao dela? O qu? - disse, chorando
mais ainda.
          Manu enxugou as lgrimas da amiga, deu mais um pouco de seu ombro a ela e Suzaninha pareceu se acalmar.
          - Estar aqui ao lado dela j  uma grande ajuda, pode ter certeza.
          - Obrigada, Manu. Mas eu queria muito mais. A minha av merece muito mais...
          Voltaram a caminhar rumo  padaria, de mos dadas, em silncio. At que Suzaninha resolveu desabafar mais um
pouco:
          - Eu estou morrendo de vergonha...
          - Por qu, criatura?
          - Porque prometi para vocs o Paraso, mandei aquelas fotos lindas... E vocs chegam aqui e o stio  a viso do
inferno, - O , Su, no exagera, vai.
          - No d para acreditar que em dois anos a casa onde eu passei as melhores frias da minha vida se transformou
nesse lugar sem vida, sem alma... Eu vim aqui h dois anos e estava tudo to diferente... D pra acreditar?
          - Claro que d. Eu imagino o que voc est sentindo...
          - Olha, Manu, se vocs quiserem voltar pra Resende amanh, eu vou entender.
          - E ficar sem guerra de travesseiro? Sem sol? Sem dias de papo pro ar com as melhores pessoas que conheo? T
maluca?
          Manu conseguiu arrancar um sorriso de Suzaninha. Andaram mais um pouco e chegaram  padaria. Quando
pediam o quilo de acar no balco, o inesperado aconteceu.
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       E
                       stacionou em frente ao estabelecimento uma caminhonete azul-marinho e dela saiu um garoto alto,
               uns 19, 20 anos no mximo, cabelo castanho desgrenhado, sensacional barba por fazer, nariz afilado,
               boquinha pequenininha, porm carnudinha, o charme em forma de gente. Imediatamente os olhos de
               Manu cruzaram com os dele e o encantamento  primeira vista pegou os dois de surpresa.
                       - , menina! Meninaaaa! , loirinha! T aqui o acar, ! -avisou pela terceira vez o funcionrio, com
               o quilo do produto nas mos, esperando Manu peg-lo.
                       - Ah, t... Desculpa, estava distrada. Obrigada - agradeceu, meio zonza com a viso do
Charmosssimo, como ela o batizou mentalmente.
       Suzaninha namorava, do lado oposto da padaria, as bombas de chocolate dispostas na vitrine do outro balco.
Com o saco de acar nas mos, Manu aproximou-se da amiga para comentar sobre o Charmosssimo, mas antes de abrir
a boca prendeu a respirao para ouvir sua voz, que soou como msica.
       - Me v 1 8 pes franceses, presunto sem gordura, queijo-minas, mortadela, p de caf, Coca Light e cerveja, por
favor - pediu. Manu virou a cabea e seus olhos cruzaram novamente com os dele. Que frio na barriga ela sentiu! - Oi,
tudo bem?
       - Tudo bem - respondeu, tmida. - Mora aqui ou veio s passar o Carnaval?
       - Carnaval...
       - Eu tambm. Mora perto?
       - Perto.
       - Onde?
       - Onde... Onde o qu?
       - Onde voc mora?
       - Moro em Resende, no Rio.
       - No  perto daqui.
       - No  perto daqui.
       - Eu sou de BH. - BH...
       J deu pra perceber que no xadrez da conquista Manu era um pouco devagar, n? Estava to abobada com a
presena do Charmosssimo que no conseguia comear uma frase sem repetir a ltima palavra dele.
       - Vocs esto em alguma pousada?
       - Pousada... , pousada... - respondeu e levou um piso de Suzaninha. S ento percebeu o furo e corrigiu: - Quer
dizer, estamos no stio da av da minha amiga, que parece uma pousada.
       - E o que esto planejando fazer nos dias de folia?
       - Folia? No vai ter folia, vamos ficar em casa.
       - O qu? Vocs no vo pro baile do Jquei? Nem pra Coronel Olavo?
       - Pra onde?
       - Pra Coronel Olavo!  l o melhor Carnaval de rua de Minas!
       - Srio?
       - Srio!  na Coronel Olavo que a gente abastece, encontra a galera, samba... Depois vai todo mundo para o baile
do Jquei Clube, que  irado.
       - Olha, nem tinha pensado em ir pra rua ou pra baile... Vim aproveitar o feriado para ficar com as minhas amigas...
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         - Que pecado deixar essa beleza toda dentro de casa no sbado de Carnaval! No faz isso...
         Manu se derreteu. E sentiu suas bochechas ferverem. Sabia que tinha ficado vermelha.
         - Vai l encontrar a gente amanh! E leva as suas amigas. Meu nome  Andr, mas pode me chamar de Ded. E o
seu?
         - Manuela, mas pode me chamar de Manu.
         - Manu, adoro esse apelido.
         - Eu tambm adoro o seu. Ded. Duas slabas to fofinhas... D mais d  igual a Ded.  fofo, n?  infantil. Infantil
no bom sentido, no t te chamando de criana, longe de mim, no quero que voc me entenda mal. Na verdade acho
Ded lindo. No voc, o apelido! Por favor, o apelido! No que voc no seja lindo... Quer dizer, feio voc tambm no ,
mas lindo, lindo tambm no... - enrolou-se a loirinha, novamente vermelha de vergonha, em um breve ataque
verborrgico.
         Parecia Ritinha quando conheceu Leandro na colnia de frias. A caula do grupo no disse cr com l, se enrolou
com as palavras e pagou altos micos. Conquista, definitivamente, no era a praia delas.
         - Voc  linda, Manu. Sabia?
         "Voc tambm. Muito", ela gostaria de ter dito. Mas no disse. Apenas baixou os olhos, mais encantada do que
nunca.
         - E a, Ded? Vai demorar com esse rango? T com fome! -gritou da caminhonete um cara bem bonitinho, que
estava com o Charmosssimo.
         - T indo! - gritou ele para o amigo. Voltando-se para Manu, perguntou, charme puro: - Posso pegar seu telefone?
         - Telefone...
         - , para a gente combinar um lugar para se encontrar.
         - Encontrar... Encontrar?! -ou...
         Manu ficou sem ao. No foi para Porto das Rosas pensando em encontrar ningum, nunca foi muito chegada em
Carnaval e era uma negao sambando, parecia um pato bbado. Alm do mais, aquela era uma viagem para curtir suas
amigas, ficar em casa, dormir cedo, aproveitar as manhs, as cachoeiras, as grutas, andar de caiaque nos rios, mergulhar...
Que indeciso, meu Deus! Dou ou no dou meu nmero?, ela se roa por dentro.
         - O de cima  o celular, o de baixo  o telefone do stio onde a gente est hospedada - intrometeu-se Suzaninha,
viva ela!, entregando ao Charmosssimo um guardanapo com os nmeros.
         - Maravilha, Vou ligar pra voc, ento. Beleza? - perguntou, olhando fundo nos olhos de Manu, seduo em forma
de gente.
         Manu ficou muda.
         - Beleza! - respondeu Suzaninha.
         - Manu? - insistiu Charmosssimo.
         - Be... beleza... - sorriu a loirinha, abobada.
         - At amanh - disse ele, e se dirigiu ao carro, feliz da vida, com os braos pra cima cantando a deliciosa marchinha:
- Viva o Z Pereira, viva o Z Pereira, viva o Z Pereira, Viva o Carnaval!
         Manu riu e ficou a suspirar.
         - Caraca! Que bofe lindooo! - exclamou Suzaninha.
         - Voc viu?
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       - Impossvel no ver aquele deus, n, Manu? - Acho que ele gostou de mim...
       - Ele no gostou de voc. Ele pirou com voc!
       - Ta uma coisa que eu jurei que no fosse acontecer. Conhecer algum em Porto das Rosas estava fora dos meus
planos.
       - Ele deve fazer o tipo fofo, que quer conversar, conhecer, pegar na mo...
       - Ai, ser? T a com um monte de amigos, no Carnaval, deve estar a fim de pegar qualquer coisa que use saia.
       - No achei, no. O olhinho dele brilhou por voc.
       - Jura? - perguntou Manu, olhinhos tambm brilhando.
       - Caramba... H tanto tempo que um cara maneiro no chega em mim... Mentira, H tanto tempo que um cara no
chega em mim.
       - At parece, Manu!
       -  srio! Estava at achando que tinha embarangado.
       - Que bobeira! Voc  linda! Cad sua auto-estima?
       - Xiii... No sei. Se voc encontr-la por a, me avisa. Essa coisa de os meninos darem uma afastada de mim deixou
minha auto-estima no p. Desde que terminei com o Joo no fiquei com ningum. Nin-gum! H seis meses eu no beijo
uma boca, voc tem noo do que  isso?
       - Ento chegou a hora de tirar essa teia de aranha! Vamos pra casa encher a barriga de macarro e torta com
acar porque amanh tem festa!
       - Festa? Voc no vai ficar chateada de mudar os nossos planos?
       - Manu, nem tudo acontece como a gente planeja. Graas a Deus! O bacana da vida so as surpresas!
       - No sei... Ser que ele vai querer ficar comigo?
       - D-a! Ser? Deixa de ser ridcula!
       - E as meninas, ser que vo gostar da idia de trocar um feriado pacato por dias de folia?
       - A Ritinha eu no sei, mas voc acha que a Gabi vai perder a oportunidade de se jogar no samba e de conhecer
aqueles tchutchucos que estavam no carro? - divertiu-se.
       As duas riram, decidiram comprar as bombas de chocolate que Suzaninha tanto namorou e voltaram para o stio
cantando em coro o que sabiam da letra de um conhecido samba:
       - Como ser o amanh? Responda quem puder. 0 que ir me acontecer? 0 meu destino ser como Deus quiser!
       Mal chegaram em casa e Suzaninha logo apressou-se em dar a notcia:
       - Mudana de planos,
       - Ai, no tinha acar, nem macarro instantneo e a gente vai ficar sem comer at amanh? - desesperou-se
Ritinha,
       - No, Rita de Cssia! Mudana boa de planos!
       - Vamos sair para jantar fora? Oooba! Anha, anha, anha, eu quero comer lasanha! Anha, anha, anha! Eu quero
com... - disse Ritinha.
       - Que musiquinha  essa, doida? - perguntou Suzaninha.
       - A gente fazia musiquinhas assim quando era mais nova, t?
       - Mas isso t no passado, Ritinha! - disse Gabi.
       - E voc errou feio. No  nada de comer! - respondeu Manu.
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         - O que ? - perguntou Gabi, curiosssima e empolgada com a tal mudana. Para ela, mudanas eram sempre
bem-vindas.
         - Hummm... O que  que , hein? - questionou Ritinha, com a tromba j armada.
         - Vou beijar-te agora no me leve a mal, hoje  Carnaval! - cantarolou Suzaninha.
         - No quero beijo de mulher, no, sai pra l, maluca!
         - No  nada disso, Rita de Cssia! Pensa!
         - Espera, essa  uma marchinha de Carnaval... - arriscou Gabi.
         - E da? - perguntou Ritinha.
         - Marchinhas a galera canta nos blocos, nos bailes...
         - T esquentando, t esquentando... - ajudou Manu.
         - Pera! Vocs querem se jogar no Carnaval,  isso? -empolgou-se Gabi.
         - Siiim! Amanh, ns vamos conhecer o Carnaval de Porto das Rosas!
         - Porto das Rosas-sas-sas-sas!!! - emendou Manu.
         - Obaaaa! - Deu pulinhos Gabi.
         - Oba? Fala srio! A gente no tinha combinado de ficar junta e aproveitar a nossa companhia?
         - , mas depois da ida  padaria a gente resolveu mudar de idia... - respondeu Suzaninha, lanando para Manu
um olhar cmplice e sapeca ao mesmo tempo.
         - Por qu? O que foi que aconteceu na padaria? Que mistrio  esse, posso saber? - ficou curiosa Gabi.
         Risinhos e mais risinhos de Manu e Suzaninha.
         - Conta, gente! - pediu Ritinha. - T chato isso!
         -  que... Tipo assim... Eu conheci uma pessoa... - derreteu-se Manu.
         - Uma pessoa, no! O bofe mais lindo que j vi na vida, gente! - descreveu Suzaninha.
         - Que tudo! Esses encontros inesperados so meus preferidos! Como foi? - disse Gabi.
         - Ah, ele veio, puxou assunto e chamou a gente para ir amanh para a Coronel Olavo, onde rola o Carnaval de rua
daqui.
         - De l, ele e os amigos vo nos levar para o baile do Jquei - completou Suzaninha.
         - Vai rolar beijo na boca, , Manuela? - provocou Gabi.
         - Acho que vai, finalmente. - Ficou tmida Manu.
         - Claaaaro que vai, lesa! O menino s faltou te dar um beijo ali na padaria mesmo. Isso  que eu chamo de
comear bem o ano.
         - Que mximoooo! - reagiu Gabi.
         - Que mnimoooo! Na boa, gente, eu no gosto de Carnaval, no gosto de muvuca, no t a fim de ficar
espremida entre um monte de gente suada, ouvindo msica alta, j passei da idade pra essas coisas - irritou-se Ritinha.
         - Ah, esqueci que estamos com uma anci. Quantos anos, mesmo, hein, Ritinha? 87? - ironizou Suzaninha.
         - Eu no gosto de Carnaval.
         - S porque t namorando no quer ir?
         - No  isso. Eu prometi pro Leandro que no iria a nenhum evento carnavalesco, Gabi!
         - Despromete, u! - sugeriu Suzaninha.
         - Arr - irritou-se Ritinha.
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       - Como eram os amigos do bofe? - quis saber Gabi.
       - Gatos! Muuuuito gatos!
       - Viva o Carnaval! - vibrou Gabi. -  lel!  lal! O carn chegou, beijo na boca vai rolar! - improvisou um samba
enquanto danava com os indicadores para cima balanando os longos cabelos castanhos.
       - Ah, no, gente. No era esse o combinado. -ou... Ritinha no estava gostando mesmo da idia de cair na folia.
       - Mas agora , Rita de Cssia. Deixa de ser chata! No esta vendo que a Manu t toda empolgada com o cara? Que
garota mala! - bronqueou Gabi. - Quero saber detalhinhos, Manu.
       - Vamos pra cozinha fazer o macarro e continuar esse papo que t tuuudo de bom! - disse Suzaninha.
       - Tudo de pssimo - resmungou Ritinha.
       - Caraca, Ritinha, nem apaixonada seu humor melhora, n? - espetou Manu.
       As quatro foram para a cozinha e continuaram seu tric sobre o Carnaval, que invadira suas vidas de repente.
       - Oba, adoro me fantasiar. Vamos improvisar umas fantasias? - sugeriu Gabi.
       - E se ningum for fantasiado?
       - T nem a, Ritinha. Acho muito burra a pessoa que deixa de fazer uma coisa s porque os outros no fazem -
cortou Gabi. -Alm do mais, vamos combinar que Carnaval so os nicos quatro dias do ano em que podemos sair
vestidas do que quisermos. E, melhor, ningum ri! Sabe por qu? Porque  Carnavaaaal! Tudo  permitido! Pra mim, quem
no aproveita isso  louco.
       - E a gente pode dar asas  imaginao, viver personagens que sempre quisemos. Podemos ser fadas, princesas,
rainhas, gatinhas, coelhinhas... - opinou Suzaninha.
       - Acho fantasia uma coisa ridcula - emburrou-se de vez Ritinha. - No estou nem um pouco a fim de me fantasiar.
       . Ela estava chata, chata, chata.
       - Beleza, a gente vai fantasiada e voc no - rebateu Manu. Ups! Clima pesado no ar. Tentando esconder o choro,
Ritinha levantou-se.
       - Perdi a fome. Vou para o quarto dormir. Boa-noite. - Deixa de bobeira, Ritinha! - atenuou Manu.
       - No precisa se fantasiar se no quiser, boba! - tentou Suzaninha.
       - Fica aqui com a gente! - pediu Gabi. - Vai rejeitar comida? T doente, ?
       - No, t na boa. T s com sono - respondeu Ritinha, com um fiapo de voz.
       - No quer saber detalhes do meu Ded? - perguntou Manu.
       - Amanh c me conta. Beijo, gente.
       Silncio total, Manu, Suzaninha e Gabi se entreolharam. Pensaram em mais argumentos para convenc-la a ficar
com elas, mas desistiram. Seria em vo.
       - Precisava a Ritinha fazer esse climo? - questionou Gabi.
       - Ela sempre foi assim? - quis saber Suzaninha.
       - Sempre, mas agora com o Leandro acho que piorou. Est mais emburrada do que nunca, acho que misturou
saudade dele com a chatice natural dela.
       - Estou me sentindo culpada por ter feito todo mundo mudar de planos. Acho melhor a gente esquecer o Carnaval
e aproveitar o feriado como tnhamos combinado - disse Manu.
       - T louca? A vida nem sempre  do jeito que a gente quer.  bom a Ritinha aprender logo isso - reagiu Suzaninha.
- Ns trs somos maioria, ela tem que entender que a maioria sempre ganha.
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       - Sabe por que ela no quer brincar o Carnaval? Porque ela  a nica que est namorando, no tem nada pra fazer,
nem para ver - palpitou Manu.
       - Acontece que isso  muito egosmo, ela  incapaz de pensar na gente, de pensar que voc vai ficar com um cara
depois de um tempo sem beijar na boca e de que, como a maioria das mulheres, ns gostamos de ver e ser vistas, de
jogar charme, de dar aqueles olhares sedutores sem compromisso.  Carnaval, p! - discursou Gabi.
       - Voc no est chateada comigo?
       - Claro que no, Manu! A proposta da viagem continua, s que, em vez de ficarmos em casa  noite, vamos
aproveitar a folia. Continuamos aproveitando nossa companhia e nossa amizade - foi fofa Gabi.
       - Olha o macarro saindo!
       - Obaaaa! - comemorou Manu.
       - Vem c, cad a minha av, Gabi?
       - Foi pra cama, Su. Ela estava cansada, dormindo em p. Eu disse que a gente sabia fazer macarro direitinho e ela
acabou concordando em ir para o quarto. Deixou um beijo para vocs e prometeu que faz a torta amanh.
       As trs encheram a barriga de macarro instantneo e riram, confabularam sobre sua primeira noite de Carnaval e,
claro, falaram como Ded era lindo, como Ded era charmoso, como Ded era isso, era aquilo... Ai, ai...
       Depois foram ao depsito, que ficava num quarto anexo ao sitio, e de l saram com tudo o que podia virar
fantasia: cortina velha, papelo, papel alumnio, revistas, sacos de lixo, sacos plsticos de supermercado, latas de tinta,
arame etc.
       - Eu vou de princesa - disse Manu.
       - Eu vou de gatinha - decretou Suzaninha.
       - Eu vou de iPod.
       - De iPod?! - as duas perguntaram em coro para Gabi. - . Adoro ouvir msica. E  fcil de fazer. Papelo na frente,
papelo atrs e um fone de ouvido. A  s desenhar numa folha branca os comandos e pronto. Sou um iPod ambulante. -
- Que irado! - elogiou Suzaninha.
       - Com essa cortina velha a gente pode fazer uma princesa linda pra Manu, que tem mesmo que estar linda
amanh - decidiu Gabi. - Sua av tem mquina de costura?
       - Claro! E adora costurar, aposto que vai querer ajudar a gente com as fantasias.
       - Maravilha! A sua  a mais fcil, Su.  s ir de preto, pintar o nariz e os bigodinhos, fazer uma tiara com duas
orelhas e achar uma coisa para fazer o rabo.
       As trs riram, felizes com a improvisao das fantasias, que no seria nada difcil. Aquela viagem comeava a ficar
gostosa como restinho de brigadeiro na panela. Elas estavam certas, seriam timos os cinco dias juntas. Mas tinha um
problema.
       - E a Ritinha? - perguntou Suzaninha.
       - Eu vou fazer uma fantasia pra ela.
       - Mas ela foi dormir chateada com a gente, Gabi. No est com nenhuma vontade de pular Carnaval.
       - A Ritinha  assim, amanh ela melhora, voc vai ver. Conheo a pea.
       - Vai fazer fantasia de que pra ela?
       - De tucano.
       - De tucano?
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       - , Manu. Tucano tem o bico enorme, e o da Ritinha  o maior que eu conheo - divertiu-se Gabi. - Nenhuma
fantasia combina mais com ela do que essa.
       As amigas riram, concordando com a idia.
       - Se s a gente estiver fantasiada...
       - A gente vai aproveitar muito mais que todo mundo, Manu - esclareceu Gabi.
       - Srio? Sem pensar em mico? - quis saber a loirinha.
       - Que man mico? Mico  coisa de gente fraca. Ns somos poderosas, maravilhosas! Quem no estiver fantasiado
vai morrer de inveja da gente, isso sim!
       - , voc t certa! - concordou Manu.
       Com o assunto mico esgotado, o material que usariam separado e as fantasias pensadas, elas sucumbiram ao sono.
Foram para o quarto descansar, o dia tinha sido puxado, a viagem looonga e o dia seguinte seria divertido, mas
trabalhoso. Antes de dormir, porm, Manu perguntou para sua amiga de infncia:
       - Gabi, voc me d uma aula de samba amanh? Eu sou praticamente um boneco de Olinda sambando,
desengonada e sem jeito.
       - Tambm quero essa aula!
       - Claro, meninas. Eu sou um espetculo sambando - disse, nada modesta. - Sou uma morena com alma de mulata.
S no tenho bunda de mulata. Aquelas bundas me irritam! So duras, lindas, lisas, sem celulite, nada balana.
       - Bunda de mulata no  bunda, aquilo  uma maldade com a gente! - soltou Manu, fazendo as amigas rirem.
       - Fiquem tranqilas. Mesmo com minha bunda mole, eu vou ensinar tudo para vocs. O segredo  o quadril. Mas
amanh eu explico direito. Agora t me dando um soniiinho...
       Jogaram-se na cama e capotaram de cansadas. Nem perceberam que Ritinha ainda estava acordada, chorando com
o travesseiro.
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       A
                         s primeiras a despertar foram Gabi e Suzaninha. Saram p ante p do quarto para no acordar as
                  amigas e desceram. Logo sentiram o cheirinho que vinha da cozinha.
                         - Bom-dia, vozinha. Que cheiro bom  esse?
                         - Bom-dia, querida. Ontem deixei vocs sem comida, mas hoje caprichei no caf-da-manh -
                  orgulhou-se dona Hemengarda.
                         - O Edmlson foi cedo ao mercado e comprou tudo o que eu precisava: fiz bolo de milho e bolo
                  de banana, com acar! Tem po doce, po de sal, manteiga, goiabada, queijinhos, presunto, suco de
melancia, de laranja e de abacaxi, waffle, gelia, caf com leite...
       - Caramba! Parece at caf-da-manh de hotel! - elogiou Gabi.
       - Ah, se prepara! A gente com certeza vai engordar aqui, minha av adora fazer o povo comer, n, v?
       As duas sentaram-se  mesa e comearam a comilana. Estava tudo to gostoso, mas to gostoso, que no dava
vontade de parar, mesmo com a barriga estufada, continuavam a botar guloseimas para dentro.
       Contaram  dona Hemengarda os planos para a noite. - Por isso vocs pegaram aquelas coisas no depsito?
Quando vi tudo na sala, pensei: "O que essas danadinhas esto aprontando?" - brincou a av de Suzaninha.
       - Voc ajuda a gente a fazer as fantasias, v?
       - Claro! Imagina se no! Sou uma costureira de mo-cheia. Vou agora mesmo pegar minha mquina pra gente
comear a pensar nas roupas.
       Quando dona Hemengarda saiu, Manu desceu, com a cara amarrotada de sono.
       - Bom-dia, meninas... - disse, dando um beijinho carinhoso em cada uma. - Nossa, que caf-da-manh  esse? E
pra ficar sem comer o dia todo, n?
       - A Ritinha no acordou?
       -Ainda no. Ela sempre dormiu mais que a cama.
       - Ser que ela t melhor?
       - Com certeza, Su. No precisa se preocupar - respondeu Manu, pegando um po e um pedao de queijo. -
Enquanto estava de preguia na cama, pensei em uma forma de ajudar sua av.
       - Jura?
       - Por que a gente no bota a mo na massa e limpa a piscina, corta a grama, faz um balano e pinta a casa e o
muro, j que tem tinta  bea no depsito?
       - Que idia boa, Manu! E que fofa se preocupar com a minha av!
       - Voc tava to triste ontem, fiquei triste tambm e acho que essa  a melhor forma de ajudar,
       - No estou entendendo nada, no tenho idia de por que a Su estava triste, mas ajudar  comigo mesmo! T
dentro!
       - Gente, eu amo vocs!!! Como vivi tanto tempo sem vocs. - indagou Suzaninha, antes de dar nas duas um abrao
esmagado.
       - Nossa, que felicidade, que abrao gostoso logo de manh. Posso saber o motivo da alegria? Bom-dia, Manu!
       - Bom-dia, dona Hemengarda! O motivo da nossa alegria  a senhora.
       - Eu? S porque eu vou ajudar nas fantasias de vocs? Imagina!
       - No  por isso, v! A Manu deu uma tima idia, que a gente est louca para botar em prtica!
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       - O que ?
       - A gente vai dar uma geral aqui no stio!
       - Como assim?
       - A gente vai pintar a casa com o que tem de tinta, aparar a grama, limpar a piscina...
       - De jeito nenhum! Voc e suas amigas vieram aqui para se divertir, no para trabalhar. Onde j se viu?
       - V,  trabalho bom! Vai ser uma farra!
       - No, no e no!
       - Vozinha...  um presente nosso para voc.
       - Mas no precisa... - insistiu dona Hemengarda.
       - A gente no vai gastar dinheiro, vamos gastar apenas o nosso tempo e nossa energia como forma de
agradecimento pela hospitalidade - explicou Manu.
       - E pela fofura - acrescentou Gabi.
       - E, como disse a Suzaninha, ns vamos amar fazer essa minirreforma! Vai ser divertido pintar o muro e falar
bobagem o dia inteiro... - disse a loirinha.
       Fala srio, que meninas fofas!!!
       Enquanto as trs sorriam com a idia da boa ao, dona Hemengarda baixou a cabea.
       Comi as mos no rosto, desabou em prantos: - , minha filha, no precisa se preocupar com a vov... Eu sei que a
casa est meio largada, uma vergonha...
       - No  vergonha nenhuma, v.
       - , sim, virei uma velha relaxada. Mas  que eu no tenho mais o pique de antes para cuidar do stio...
       - Ento, isso a gente tem de sobra.
       Dona Hemengarda no disse nada, apenas chorou e abriu os braos para as meninas. Ela urrava por um abrao,
mesmo sem dar uma palavra.
       As trs se levantaram e, emocionadas, foram apertar dona Hemengarda, uma senhorinha to meiga, to linda, to
v, que merecia todo o carinho do mundo.
       Depois de se recompor do abrao e das lgrimas, dona Hemengarda avisou:
       - No sei se tem tinta para pintar tudo.
       - U, a gente pinta com o que tiver. O que faltar a gente compra - sugeriu Suzaninha.
       - No vai faltar. L no depsito tem tinta de tudo que  cor. Se a senhora deixar a gente pode fazer um muro
irado, todo colorido, tipo arco-ris, cheio de desenhos fofinhos. Deixa? - opinou Gabi.
       - Claro que deixo! Meu Deus, nem vai parecer que mora uma velhota aqui! Vai parecer um albergue da juventude!
Estou adorando essa idia!
       - Oba! Vai ser tudo de bom, gente! - exclamou Manu.
       - Ento, meninas, vamos acabar nosso caf, botar uma roupa de faxina e mos  obra! - comandou Gabi.
       Uma hora se passou e as meninas subiram para o quarto, com a barriga cheia, loucas para trabalhar e deixar
lindamente colorida a casa da av mais fofa de Porto das Rosas.
       Ritinha ainda dormia. Por isso, Suzaninha resolveu implicar:
       - Ai, aaaaai! Ai, ai, ai, ai, ai!!! - gritou. - Sou eu, gente, a cama da Ritinha, tira essa menina daqui, por favor! No
agento mais ela em cima de mim!!!
                                      PDL  Projeto Democratizao da Leitura


       Manu e Gabi caram na gargalhada e Ritinha acordou com cara de poucos amigos.
       - P, Suzaninha! Eu tava dormindo!
       - Por isso a sua cama estava reclamando!T na hora de acordar, Ritinha.
       - Pra qu?
       - Porque a gente vai trabalhar - explicou Gabi.
       - Trabalhar? T fora. Eu vim aqui pra descansar e aproveitar meu feriado de papo pro ar.
       - , mas os planos mudaram.
       - U, o Carnaval no   noite?
       - , Ritinha, mas agora a gente vai dar um jeito na casa. Vamos pintar o muro, as paredes da varanda, construir um
balano, cortar a grama, limpar a piscina... E precisamos de voc - disse Suzaninha.
       - Fala srio! Alm de me fazer brincar o Carnaval, que eu no gosto nem um pouco, agora vocs querem me
obrigar a trabalhar no feriado? S podem estar brincando!
       - Nunca falamos to srio! - rebateu Gabi.
       - Vem c, Suzaninha, por que a gente no foi pra Salvador, hein? Quando acabou a colnia de frias lembro de
voc ter dito alguma coisa de Salvador... L a gente ia ficar num hotel, no ? E ir para blocos conhecidos, com bandas
conhecidas...
       - , mas a minha me resolveu fazer obra em casa e no sobrou grana pra viagem.
       - Ento porque seus pais esto sem grana voc trouxe a gente pra essa roubada?
       Silncio e mal-estar. E ainda nem era meio-dia.
       - Deixa de ser mal-educada, Rita de Cssia! Isso aqui no  uma roubada! - bronqueou Manu.
       - Desculpa, gente, mas trabalhar, pra mim,  uma roubada. Especialmente num feriado. E isso no  falta de
educao,  sinceridade.
       Quando a caula do grupo acordava com o p esquerdo, atur-la era uma tarefa dificlima.
       - T bom, Ritinha, voc pode ficar dormindo. Bem que as meninas tinham avisado que viajar com voc no era
fcil. Agora eu estou vendo por qu. Desculpa te trazer para uma... roubada. Esse lugar aqui  muito especial pra mim, eu
s quis trazer vocs porque vocs so especiais. Uma pena que voc no tenha gostado - discursou Suzaninha, antes de
sair do quarto rumo ao banheiro, com as lgrimas brotando nos olhos.
       - Passou dos limites, Rita de Cssia! - brigou Manu.
       - Isso  coisa que se diga para uma pessoa que convidou a gente para um feriado na casa dela? Voc magoou
muito a Suzaninha, Ritinha! - completou Gabi.
       - Ah, menina fresca! No disse nada demais, s a verdade. Eu preferia quando ramos s ns trs, era muito mais
divertido. Quatro sempre d problema, sempre d briga.
       - No diz besteira! - repreendeu Gabi,
       - Posso saber por que a gente tem que fazer tudo o que ela quer?
       - Eu que dei a idia de dar uma geral na casa, Rita de Cssia! Eu! Ela ontem chorou  bea quando fomos 
padaria. A av t velhinha, no consegue mais dar conta de tudo, os empregados foram embora, ela no confia em
qualquer um para botar aqui dentro pra trabalhar... Uma senhorinha que precisa de ajuda e mora na casa onde a
Suzaninha passou os melhores dias da sua infncia. Ser que  demais ajudar essa senhora?  muito sacrifcio?
       Ritinha baixou a cabea, envergonhada. Olhou as duas e resolveu:
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        - T bom, t bom! Vou pedir desculpas para a Suzaninha. Ponto para Gabi e Manu! Elas sabiam que Ritinha no era
m.
        Era s uma menina muito sem noo que s vezes falava coisas que no devia.
        Bateu  porta do banheiro.
        - Suzaninha, posso entrar?
        - No, Ritinha, j estou acabando, usa o banheiro da minha v.
        Como Suzaninha no abriu a porta, ela comeou a falar do lado de fora, mesmo.
        - No quero fazer nada, quero s pedir desculpas pra voc. Olha, eu sou meio insuportvel de manh...
        - Meio, no. Beeeem insuportvel - sussurrou Gabi.
        - Bem insuportvel.
        - Uma vaca - disse Manu ao seu ouvido.
        - Uma vaca! - repetiu Ritinha. - Reclamo de tudo, resmungo o tempo inteiro, nada est bom nunca, meu humor s
melhora depois do almoo.
        - Quando melhora - corrigiu Gabi, baixinho.
        - Quando melhora - admitiu Ritinha. - Eu t muito arrependida do que disse. Mil desculpas. Essa casa  linda e eu
vou adorar ajudar vocs a deix-la mais bonita. Sua av merece. Voc merece.
        - Boa, Ritinha! - comemoraram Gabi e Manu.
        - S espero que no tenha que fazer um trabalho muito pesado, prefiro ficar com as coisas mais leves.
        - Caraca, Rita de Cssia! Voc no presta, hein?! - estrilou Gabi.
        - Estava indo to bem! - sussurrou Manu. Suzaninha abriu a porta.
        - Vocs no precisam falar baixo, a porta  fina e eu estava ouvindo tudo, suas bobas - disse para Manu e Gabi. -
Ritinha, desculpa se seu feriado no est sendo como voc sonhou, mas eu quero que voc saiba que, mesmo com todo o
seu mau humor, eu estou adorando ter voc aqui. Esse stio no tem luxo, no  grando, a piscina t suja... Mas  o stio
da minha av, da minha infncia. Quando a Manu deu a idia de a gente botar a mo na massa, eu achei lindo! No quero
te obrigar a trabalhar, pode ficar torrando a bunda na piscina enquanto a gente trabalha, o que eu quero  que voc fique
feliz aqui.
        Ritinha ficou pssima. E caiu no choro.
        - Desculpa, Suzaninha, desculpa! Eu t feliz aqui, juro! At pro Carnaval eu vou com vocs! - disse ela, enchendo de
beijos sua anfitri.
        - Voc sabe qual  a fantasia que a gente vai preparar pra voc? - intrometeu-se Gabi.
        - Uma bem fofa, naturalmente. Coelhinha, ursinha panda, apresentadora infantil... - enumerou Ritinha.
        -  de tucano - cortou a morena.
        - Tucano?
        -  o pssaro que tem o maior bico que eu conheo, igualzinho ao seu.
        - Palhaa!!! - bronqueou Ritinha, sem disfarar o riso. - Eu sei, eu estou sempre de bico, podem me zoar. Aceito a
provocao. E mereo. Eu vou de tucano.
        - A!!! - As trs bateram palmas.
        - Viu como eu sou fofa, Su? - Vi... - respondeu Suzaninha, meio cabreira.
        - No fica assim... Me desculpa, vai?
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       - J desculpei, Ritinha, no sou de guardar rancor das pessoas. Mas no vou mentir, fiquei bem chateada.
       - Eu sei. Prometo que vou me comportar melhor daqui pra frente, t?
       - T.
       - D um abrao?
       As duas se abraaram. Abrao forte, cheio de vontade.
       - Tambm quero! Tambm quero!!! - berraram Manu e Gabi, juntando-se s duas.
       - Ei, ei, ei! Como  que vocs no me chamam para esse abrao coletivo? Adoro abraar, meu abrao  timo! -
disse dona Hemengarda, j juntando-se ao quarteto. - Olhem, minha mquina est perfeita, funcionando que  uma
maravilha. Enquanto vocs mandam brasa na casa, eu mando brasa nas fantasias. Combinado?
       - Combinado!!! - concordaram as quatro.
       - Mas eu quero ajudar a senhora, dona Hemengarda. Eu adoro costurar.
       - A Gabi quer ser estilista, v - explicou Suzaninha.
       - Ento maravilha, Gabi. Pode vir aqui quando quiser para me ajudar. Vou dar uma olhada no meu armrio para ver
se no tenho mais coisas que sirvam para fazer as fantasias. Estou adorando esse Carnaval, meninas! - vibrou.
       As quatro ficaram felizes por fazerem, com sua simples presena, uma mudana e tanto na vida daquela senhora
to solitria, mas ao mesmo tempo to alegre, to bem-humorada, to de bem com a vida. Depois daquele Carnaval, a
vida de dona Hemengarda no seria a mesma. Pelo menos, sua casa seria mais colorida. Com carta branca para fazerem o
que quiserem com muro, paredes, piscina e jardim, as meninas se vestiram e se dividiram em grupos. Ritinha foi limpar a
piscina enquanto Manu e Suzaninha foram pintar o muro. A Gabi coube dar cor ao assento do balano e s paredes da
varanda. Edmlson ficou encarregado do trabalho mais pesado, cortou a grama e arrumou pregos, parafusos e corda para
botar o balano de volta na goiabeira. Manu, com sua caixa de som porttil, botou o volume no mximo e ps para tocar
suas msicas preferidas.
       - Com msica tudo fica melhor! - justificou para as meninas. O dia correu bem, o trabalho fluiu melhor do que
esperavam, o muro do stio parecia um arco-ris, as paredes da varanda estavam com uma nova cara (Ritinha quase matou
de susto as companheiras quando tomou a chocante iniciativa de pintar a varanda depois de encerrar seu servio como
limpadora de piscina), o jardim estava com cara de jardim, no de matagal abandonado, e o balano estava pronto para
ser balanado e levar ao cu quem se sentasse nele. Livre de folhas secas, insetos mortos e sujeirinhas, a piscina convidou
as meninas para um mergulho que durou boa parte da tarde. Ritinha estava to entretida com as amigas que nem se
lembrara de falar com Leandro. Manu, por outro lado, no parava de checar se seu celular estava ligado. Esperava ansiosa
o telefonema do Charmosssimo.
       Enquanto isso, dona Hemengarda "mandava brasa" nas fantasias, costurando, bordando, emendando e colando,
tudo sob a superviso de Gabi, que a cada ida  sala de costura dava na senhorinha uma bitoca esmagada na sua
bochecha.
       - Obrigada por tudo, dona Hemengarda. Pela casa, pelo caf-da-manh de cinema, pelas fantasias...
       Dona Hemengarda riu um riso "deixa disso", encabulada, mas feliz, feliz com o carinho da menina.
       Um celular tocou. Manu arregalou os olhos.
       -  o meu! - gabou-se Ritinha. - Al! Oi, meu amor! Tudo bem, e a? Ah, tambm estou morrendo de saudade.
       - Mentira, nem falou dele hoje! - provocou Gabi.
       - Eu te amo.
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       - Ama nada! Vai pro baile mais tarde - foi a vez de Suzaninha implicar com a caula do grupo.
       - No, no  nada, no! Elas esto na piscina brincando e falando bobagem, esto mandando beijo para voc -
disfarou Ritinha ao telefone, arregalando os olhos para as amigas, implorando por silncio. -  hoje o seu baile? Ah, t.
Divirta-se. E me liga, hein? Vou estar acordada pensando em voc! T bem, amor. Vai l aproveitar a companhia dos seus
pais. Te amo. Tchau.
       Minutos de silncio.
       -  isso mesmo? Voc no contou para. o Leandro do baile de hoje  noite? - quis saber Manu.
       - Voc mentiu para o Leandro? - enfatizou Gabi.
       - No menti. Omiti.
       - Pra mim d no mesmo - implicou Manu. - Ai, Deus! Por que eu no contei?
       - Por qu? Por que no contou, Rita de Cssia?
       - Sei l! Tambm t querendo saber - admitiu Suzaninha.
       - Ah, gente,  melhor, n? Assim ele no vai ficar com a pulga atrs da orelha - opinou Gabi.
       - , j pensou ele ficar l preocupado comigo, com medo de eu ficar com algum aqui? S no falei por isso,
porque no quis preocupar meu namorado. , foi isso, sim. Boa, Gabi.
       - Hum... No sei se essa resposta me convenceu, no, mas vou aceitar - declarou Suzaninha.
       A neta de dona Hemengarda botou em palavras exatamente o que passava na cabea das outras meninas. Afinal,
vamos combinar que a resposta da Ritinha no convence ningum, n? Foi a pior resposta de todos os tempos.
       - Vocs acham que eu ligo e conto?
       - Claro que no, Rita de Cssia! Pra qu? - chiou Manu.
       - Amanh, quando voc falar com ele, conta que surgiu convite para um baile na ltima hora e que a gente
resolveu ir pra ver qual era - sugeriu Suzaninha.
       - Diz que a gente insistiu para voc ir, o que no  nenhuma mentira - acrescentou Gabi.
       - ... , n? Melhor... Melhor assim, n?
       - , Ritinha! Agora vem pra piscina, anda! - pediu Manu.
       A caula do trio voou para a piscina e jogou gua para todos os lados com seu mergulho desastrado.
       Nadaram, brincaram de briga de galo, tentaram adivinhar palavras ditas embaixo d'gua, falaram bobagem... Gabi
deu a prometida aula de samba, na piscina e fora dela. Sambaram, suaram e viram o sol querer ir embora, o cu ficar meio
roxo, meio vermelho, meio laranja. Todas estavam encantadas com o entardecer no stio. Menos Manu. Ela estava
cabisbaixa. Por que seu telefone no tocara?
       Triiiimmmm!!!, fez finalmente o toque estridente de seu celular.
       Ela foi correndo atender, o corao na garganta. Deixou tocar trs vezes, para no parecer ansiosa. -Al.
       - Manu?
       - Ded?
       - E a? Vou te ver hoje? - Vai, u.
       - Maravilha. s onze no Bar do Z.
       - s onze, no Bar do Z. Mas onde  que  isso?
       -  um bar bem conhecido na Coronel Olavo, esquina com Marechal Fvero. Na porta tem uma placa enorme com
o nome Bar do Z, no tem como voc errar. No vai furar, hein?
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        - Claro que no!
        - Um beijo, loirinha linda. T mais.
        "Loirinha linda"  tudo na vida, n no? Manu sentiu seu corao derreter com o elogio. Ai, ai...
        - T mais - despediu-se. - Seu barbudinho gostosinho! -acrescentou, depois de desligar, obviamente.
        Manu largou o telefone e foi correndo aos gritos para a piscina, onde deu uma cambalhota no ar antes de cair na
gua.
        - O meu Ded ligou! O meu Ded ligou! O meu Ded ligou! Caraca! Caraca! Caraca! Isso  que  empolgao com
um telefonema!
        - Voc achou que ele no fosse ligar, lesa? - perguntou Suzaninha.
        - E a? - quis saber Gabi.
        - Tudo certo. s onze, no Bar do Z.
        - Oca, oca, oca, Manu vai beijar na boca! - cantarolou Ritinha.
        - Anha, anha, anha, vai tirar a teia de aranha! - implicou Gabi.
        - Asso, asso, asso, vai ficar no m amasso! - completou Suzaninha.
        - Eja, eja, eja, t morrendo de inveja! - puxou Gabi, seguida imediatamente pelas amigas, que cantaram a musiquinha
umas trs vezes antes de afundar Manu na gua. Mesmo aps o "caldo" amigo, a loirinha no conseguia parar de sorrir.
Sorriso bobo, completamente abestalhado, Ah, o que os meninos no fazem com um corao solitrio?
        Depois de um dia de trabalho de sol na piscina,  noite, na mesa do jantar, j de banho tomado, elas estavam
exaustas. Mas sono, nem pensar. Dormir estava fora de cogitao.
        - Ei, ei, ei! No quero ver bocejos nessas boquinhas, no! Que  isso? Trabalhei o dia inteiro nessas roupas e  isso
que eu ganho em troca? No mesmo! Quero ver todas maquiadas e fantasiadas logo depois do jantar - decretou a
senhorinha.
        - Fica tranqila, v, a Manu no vai deixar ningum dormir. Ela  a mais interessada em ir para a rua hoje  noite.
        - Ah, ? Ento tem homem nessa histria, n, sua safadinha? Eu sabia!
        - V! - exclamou Suzaninha, arregalando os olhos.
        - O que  que tem? Vocs acham que eu no tive a idade de vocs? No meu tempo no era como hoje, demorava
muito at a gente beijar na boca. Mas quando a gente beijava dava um frio na barriga, a beijava mais, fazia um pouco de
assanhamento... Assanhamento decente, mas assanhamento. Assanhamento  bom demais... D um calor, uma
cosquinha...
        - Pra, v!
        -Ah, pra o qu? Vocs nunca ficaram de assanhamento? Sou velha, mas no sou burra!
        Assanhamento? Que palavra antiga!, as quatro pensaram e rolaram de rir. E que papo-sexo era aquele na mesa do
jantar? Sem nem uma preparao? lsso no se faz. Papos-sexo muitas vezes deixam as pessoas envergonhadas,
constrangidas. Mas a verdade  que o quarteto ficou bem interessado em prolongar a conversa. Dona Hemengarda
tambm:
        - Hoje em dia, vocs podem beijar quem quiserem. Na minha poca no era assim, no. E se a gente namorasse
srio, no podia acontecer nada, virgindade era muito importante naquele tempo. Hoje ainda ? Nem sei mais... Vocs so
virgens?
        - V!!! - ruborizou Suzaninha. - Meninas, no precisam responder, vamos mudar de assunt...
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         - Eu sou! - exclamou Manu, cortando Suzaninha e dando sinais de que estava louca, louca para falar sobre aquele
assunto.
         - Eu tambm - disse Gabi.
         - Tambm - contou Ritinha.
         Sem sada, a neta da anfitri se rendeu e entrou na roda:
         - Eu tambm - finalizou Suzaninha. - Ah, que lindas! Todas virgenzinhas! Mas por que querem, por que no
acharam ningum especial ainda ou por que pretendem casar virgens? Que no seja a ltima opo, que no seja a ltima
opo!
         - No achei ningum ainda - respondeu Manu.
         - Nem eu - emendou Gabi.
         - Eu at achei, mais dia, menos dia talvez role alguma coisa, mas ainda no me sinto preparada... - entregou
Ritinha.
         - Eu pensei que o Diogo era o cara, quase rolou, mas ainda bem que no aconteceu nada. Imagina, aquele idiota
ser meu primeiro homem?
         - Ah, meninas, quando tiver que ser, ser. No tem esse negcio de dia certo, de namorado certo.  a minha
opinio, pelo menos. Para mim, o que vale na primeira vez  a garota estar confortvel e segura, com a auto-estima l em
cima e, principalmente gostar do rapaz e se sentir querida por ele. No precisa ser o homem da vida, s precisa ser uma
pessoa bacana, com quem vocs se sintam bem  vontade, um garoto que tenha carinho por vocs e, principalmente, que
seja seu amigo. O ideal  que, alm de gostar dele como homem, vocs queiram ser amigas dele para sempre. A  uma
maravilha.
         - Caramba, dona Hemengarda, que legal tudo isso que a senhora t dizendo! - suspirou Gabi.
         - Nunca tinha pensado por esse ngulo da amizade - completou Suzaninha.
         - Pois . E para uma relao amorosa dar certo,  essencial que o casal seja amigo, que goste de conversar, de
fazer companhia um para o outro. E essa presso da primeira vez  horrorosa! Se com o primeiro no for bacana e no
vingar o namoro, vocs vo acertar no segundo, no terceiro...
         - Ai, dona Hemengarda, posso dar um beijo na senhora?
         - Claro, Ritinha.
         As outras beijoqueiras ciumentas levantaram-se e encheram de beijo aquela senhorinha surpreendente, que falava
de sexo com uma naturalidade que nenhuma de suas mes jamais tivera. E, melhor, na mesa de jantar!
         - Agora chega de beijo. Beijo de velha babona, eca! Que nojo! Quero que vocs beijem os brotos! Porto das Rosas
fica cheio de brotinhos no Carnaval!
         As meninas foram se arrumar.
         Suzaninha ficou para dar um recado  av:
         - Sua casa t ficando irada.
         - E eu no sei? A varanda t muuuuito irada! Iradssima! - brincou.
         - V, tem que botar o Edmlson pra trabalhar, ele  preguioso, faz o trabalho devagar, mas faz. A grama ficou
tima e o balano t prontinho.
         -  que eu no sei mandar direito, o Dod que cuidava de tudo...
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        - Eu tambm no sabia mandar, aprendi hoje. E vi que  fcil, fcil. Ele no est aqui de graa, v, ele  pago para
trabalhar para a senhora. Com ele botando a mo na massa decentemente, sua casa nunca mais vai parecer abandonada.
        - , minha querida...
        - Pensa nisso?
        - Vou pensar. Mas prometo que nunca mais voc vai encontrar a casa da vov nesse estado.
        - Oba! - comemorou, mandando para a av um beijinho e subindo as escadas correndo para juntar-se s meninas.
        Gabi ajudou as amigas a se maquiarem e matou-as de rir quando vestiu sua fantasia de iPod, que estava perfeita.
        Ritinha, apesar de resmungar, teve que botar o enorme bico de cartolina amarela que dona Hemengarda fizera
para ela. A fantasia contava ainda com duas asas feitas de fil azul e amarelo que ela pregou s alas de uma camiseta
azul.
        - Ningum merece! - resmungou, olhando-se no espelho. Manu ficou linda de princesa. Sua fantasia consistia em
uma camiseta vermelha com paets bordados e uma saia comprida feita de cortina. O mesmo tecido serviu para enrolar a
trana de lado que Suzaninha fez na loira. Gabi caprichou na maquiagem da amiga e arrematou a produo com uma
coroa de arame que ela mesma fizera.
        - No vou botar gloss, t, Manu? Menino odeia beijar boca de gloss. Vai por mim, eles acham uma baba s! - riu
Gabi.
        Suzaninha estava a prpria gatinha. Camiseta preta, sainha preta com um rabinho costurado, uma tiara com orelhas
e focinho e bigodinhos de gato. Estavam prontas.
        Dona Hemengarda incumbiu Edmlson de lev-las  cidade e traz-las de volta.
        - So quase dez horas, vamos marcar meia-noite para vocs voltarem, est bem?
        - Meia-noite? Mas a gente no vai aproveitar nada! - chiou Suzaninha.
        - Uma, ento?
        - Uma, v? Muito cedo!  Carnaval!
        - Ento vamos combinar uma coisa: uma  a hora marcada, querida. Confio em voc. Podem chegar s trs, trs e
meia. Trs e quarenta no mximo.  s no contar para a sua me.
        - Beleza! - comemorou Suzaninha.
        - E no me acordem quando chegar, seno no consigo dormir mais. Juzo!
        Despediram-se de dona Hemengarda e partiram no fusquinha mais caqutico de Porto das Rosas.
        A Coronel Olavo ainda estava com pouca gente. Os bares abertos vendiam cerveja e petiscos e ambulantes
tentavam faturar com churrasquinhos duvidosos e cerveja mais barata que nos estabelecimentos comerciais.
        - Ningum fantasiado. Fala srio! - reclamou Ritinha. - Que mico!
        As pessoas realmente no estavam fantasiadas, mas algumas, uma minoria,  bem verdade, optaram por acessrios
como antenas de abelhas e colares de havaiana.
        - Nenhum mico  maior que o meu. A fantasia de vocs passa despercebida, a minha  a que mais chama a
ateno.
        - Tira, Gabi! - sugeriu Ritinha.
        - E perder a chance de desfilar a minha criatividade por aqui? T louca? - riu a morena.
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       Seguras e convencidas por Gabi de que pareciam quatro minideusas, as meninas seguiram para um lugar onde
pudessem sentar e esperar a meia hora que faltava para o encontro de Manu com o Charmosssimo. Resolveram parar em
um bar para beber alguma coisa.
       - Por que no no Bar do Z? - quis saber Manu.
       - Porque ele que tem que esperar voc, no o contrrio, lesa! - explicou Gabi.
       Em pouco tempo, a rua estava lotada. Gente de vrios sotaques e vrios tipos. Gente bonita, gente feia, gente
jovem, gente mais velha... Gabi resolveu ir ao banheiro. Enquanto estava l, uma voz no alto-falante anunciou o desfile do
Grmio Recreativo Escola de Samba de Porto das Rosas. Sim, Porto das Rosas tinha escola de samba. Estava mais para
bloco de rua do que para escola de samba, mas tudo bem. Era um bloco metido  besta. U-hus empolgados e uma
pequena queima de fogos chamaram a ateno das amigas, que no resistiram  curiosidade e correram para a calada
para pegar um lugar com uma boa viso do desfile.
       - Moo, sabe a menina que tava aqui com a gente, cabelo comprido, castanho? Vestida de iPod?
       - I o qu?
       - Deixa pra l. Sabe quem , no sabe?
       - Sei, sim.
       - Diz pra ela que a gente t bem aqui na frente esperando por ela, t? - pediu Ritinha ao garom.
       Quando saiu do banheiro, Gabi no achou as amigas e percebeu a muvuca na rua. O garom no a viu, portanto,
no lhe deu o recado. Tentou ligar para os celulares das meninas, mas nada. Imagina se elas ouviriam o toque com tanto
barulho em volta!
       Resolveu sair para procur-las. Baixinha, mesmo na ponta dos ps no conseguia v-las no meio da pequena
multido que se amontoava para ver o desfile. Resolveu andar para procur-las. Procura daqui, procura de l, em pouco
tempo Gabi estava distante do bar e, portanto, de Manu, Ritinha e Suzaninha.
       Em vez de se aborrecer, que no era do seu feitio, Gabi resolveu buscar um espao para ver o desfile. Na pior das
hipteses, encontraria o trio s onze, no Bar do Z, a uma quadra dali, onde a princesa Manu encontraria seu prncipe.
       Gabi sentiu um cheirinho gostoso de acar queimando. Bingo! Era algodo-doce, que adorava. Enquanto andava
na direo da fila, ouviu piadinhas de todo tipo: "Deixa eu te tocar, iPod", disse um, "Ah, um iPod desses l em casa!",
suspirou outro.
       Pedindo licena aqui, pedindo licena ali, ela finalmente entrou na fila para comprar a guloseima. Na sua frente, um
grupo de amigos conversava animado.
       - Gente, gente! Tem um iPod na fila. E ele t fantasiado de menina, menina linda ainda por cima.
       Gabi baixou os olhos e sorriu encabulada, com o ego inflado pelo elogio repentino.
       - Meninas lindas no pegam fila, vamos deixar que ela entre na nossa frente - sugeriu o menino.
       Os amigos resmungaram, mas cederam, diante de protestos do belo galanteador.
       - P, cad o cavalheirismo, cabeada?  insistiu. Charmosa, ela aceitou. Tambm pudera, , menino bonito, s!,
pensou com sotaque mineiro.
       - Vou aceitar. Afinal, vocs so quatro e eu uma s.
       - Uma s? No  possvel que uma menina linda como voc esteja sozinha no Carnaval.
       -  que eu me perdi das minhas amigas, mas daqui a pouco esbarro com elas.
       - E o namorado, cad?
                                        PDL  Projeto Democratizao da Leitura


         - No tenho.
         - No tem? No  possvel! Como  que pode isso?
         Esse a queria messsssmo beijar na boca! E Gabi, claro, entendeu o recado.
         - Tambm no sei! Sei que t solteirinha da silva.
         Isso  uma menina despachada. Desembaraada. Atirada. Zero envergonhada.
         - Eu tambm, morena. Solteirinho da silva.
         Gabi jogou a cabea para o lado, sorrisinho no rosto, dengosa que s ela. Adorava ser chamada de morena. Sentia-
se a prpria Iracema, a virgem dos lbios de mel do romance de Jos de Alencar. Desde que lera o livro para a escola,
achava que era a personificao contempornea da ndia. Logo ela, que de ndia no tinha... assim... como dizer?... nada.
         - Posso pagar seu algodo-doce? Quero adoar a sua vida...
         - Puxa, voc estava indo to bem... No precisava da parte do adoar, mas vou fingir que no ouvi para aliviar sua
barra.
         Ele ruborizou, concordou com Gabi e, sorrindo, pagou um para ela, outro para ele. Fizeram um brinde com seus
dois algodes-doces e saram da fila.
         Para se fazer entender em meio ao baticum que estava rolando, chegou bem perto do ouvido da menina e disse,
sem rodeios:
         - No vou te enrolar, morena. Podia puxar um assunto atrs do outro, mas no consigo. Estou louco de vontade de
te dar um beijo.
         Bom, ela gostava de beijar, ele era bonito, ela estava sozinha, ele gostara dela e, principalmente, era Carnaval.
         Gabi no precisou pensar muito. - T - respondeu, sem piscar. E beijou.
         E que beijo bom!
         Beijo demorado, encaixado, molhado, nada babado.
         Enquanto beijava, enrolada nos braos do menino bonito, Gabi nem suspeitava que os paraleleppedos de Porto
das Rosas estavam prestes a voar pelos ares. Faltava muito pouco para um terremoto daqueles acontecer e virar de cabea
para baixo a pacata cidade mineira.
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       D
                            epois de um beijo que demorou longos minutos, Gabi e o menino bonito ficaram em silncio,
                   apenas se olhando, se namorando, fazendo cafun, aproveitando o frio na barriga que d um primeiro
                   beijo... E beijaram de novo... E de novo... E de novo... No trocaram mais palavras. Estavam entorpecidos
                   um pelo outro.
                            No intervalo entre um beijo e outro, Gabi olhou no relgio!
                            - Preciso ir, bofe! Beijoooo! - E saiu s pressas rumo ao Bar do Z.
                            - Espera a! Volta! - gritou o menino bonito, correndo atrs dela. - Eu no sei nem seu nome!
       Gabi nem ouviu, no podia deixar de conhecer o Ded de Manu, tinha que estar ao lado da amiga numa hora
daquelas.
       - Vem c, morena! - Agarrou seu brao. - Me leva com voc - pediu, fofo.
       - Beleza, mas se apressa! Preciso encontrar minhas amigas, no quero me perder de novo delas - respondeu Gabi,
dando a ele sua mo e o rebocando entre a multido carnavalesca.
       Finalmente avistou a placa do Bar do Z. Antes de chegar l, porm, Gabi viu as amigas, que estavam a alguns
passos na sua frente.
       - Bu! - deu susto.
       Rindo, Manu virou-se para dar-lhe um caprichado:
       - D-a!
       - Caraca, cs sumiram, hein?
       - Voc sumiu! Onde  que voc estava? - quis saber Suzaninha.
       - Estava na barraca de algodo-doce. Com o... o... Menino, eu no sei seu nome! Caraca! Que furo! Foi mal...
       Manu se meteu e disse, sem respirar:
       -  Andr. Mas ele prefere ser chamado de Ded. O nome de Manu agora era desapontamento.
       - Andr? Andr Ded? O seu Andr Ded? - chocou-se Gabi.
       - Meu, no. Seu, pelo visto.
       - Que  isso, Manu?
       - Trouxe o cara aqui pra qu? Para me magoar? Para me deixar pssima? Boa, Gabriela! Conseguiu!
       Andr Ded assistia a tudo mudo, calado. Estancado no meio do caminho.
       - Que  isso, Manu? - surpreendeu-se Gabi. - Eu nem sabia o nome dele!
       - Duvido!
       - Como assim "duvida"? T louca!? A nossa amizade  mais importante que tudo para mim, eu jamais ficaria com
um garot...
       - Ah! Voc j ficou com ele? Nossa, Gabi, voc no perde tempo, mesmo, hein?
       Ritinha resolveu intervir:
       - Calma, Manu, ela t dizendo que no sabia que ele era o Ded.
       - No sabia, mesmo. A gente s se beijou... - resolveu abrir a boca Ded.
       Pra qu? Perdeu uma enorrrme chance de ficar calado!
       - Ah, s se beijou? Comigo faz o maior charme, pergunta nome, liga... Com ela  s agarrar que ela beija. A Gabi 
assim mesmo, beija qualquer um!
       - Manu, voc t me magoando!
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        - Que bom! Voc me magoou, eu te mago, estamos quites.
        - Gatinhas, no vo brigar por minha causa.
        - Cala a boca! No  por sua causa, idiota! - gritou a morena.
        - Ei! - tentou reclamar o idiota, devidamente ignorado.
        - Claro que . Voc no respeita nada, Gabriela! Saiu beijando o cara sem nem pensar que ele podia ser o meu
cara!
        - Calma, meninas, tem para todas! - anunciou Ded, com um indisfarvel sorriso orgulhoso estampado no rosto.
        - , Andr Ded, escuta aqui: se voc disser mais uma gracinha sem graa eu vou enfiar esse algodo-doce
inteirinho na sua goela - ameaou Ritinha.
        - Manu, ento eu no podia beijar ningum? Tinha que perguntar para todo garoto que chegasse em mim se ele
era seu Ded?
        - Claro! - respondeu Manu. - Eu faria isso se fosse o contrrio. Mas voc... No tem jeito,  fura-olho assumida!
        - Fura-olho?! Eu no sou nada fura-olho! Namorado e ficante de amiga minha pra mim  mulher, voc sabe!
        - Ningum furou o olho de ningum, Manu, olha a boca! -acalmou os nimos Suzaninha.
        - Fura-olho! Fura-olho, sim! - insistiu Manu.
        - O que  fura-olho? - quis saber Ritinha.
        - Menina que finge ser fofa, mas quando a amiga vira as costas fica com o namorado dela.
        - Caraca, Manu, que absurdo! - espantou-se Ritinha. - Ele no era seu namorado!
        - Muito menos seu ficante! - completou Gabi.
        - No interessa. Era futuro ficante! Ela sabia que eu no ficava com ningum h sculos, que estou carente, me
sentindo a menina mais feia e sem graa do mundo. Sabia que eu tinha gostado dele. Custava ter perguntado o nome do
garoto? Custava?
        - No deu tempo, loirinha - explicou Ded...
        - A, t vendo? Nem conversaram! Eu nunca faria o que ela fez. No  de se espantar. Ela sempre foi diferente de
mim.
        - Diferente como? - irritou-se Gabi. -Vamos embora, gente! - pediu Ritinha.
        - No, eu quero ouvir! Diferente como?
        - Fcil!
        - Qu?! - espantou-se Gabi.
        -  isso mesmo, fcil! Voc pega todo mundo. Resende inteira fala de voc.
        - Manu! - bronqueou Ritinha.
        - Meninas, t sem graa isso, vamos embora, t todo mundo olhando - alertou Suzaninha.
        - T nem a se esto olhando. Ela conseguiu acabar com a minha noite, eu quero acabar com a dela.
        - No precisa mais se esforar, voc j acabou com a minha noite, Manuela.
        - No se faz de arrependida agora, no. Errou, assume.
        - Eu no errei! Eu no sabia!!! - esgoelou-se Gabi.
        - Manu, se algum errou nessa histria foi o Andr, no acha? - apaziguou Suzaninha.
        - Claro, ele que no devia ter ficado com ela, j que tinha combinado de encontrar voc.
        - Mas eu ia ficar com a loirinha depois, gente. Calma a!
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       - Cala a boca! - gritaram Suzaninha e Ritinha para o sem-graa do Andr Ded.
       - T vendo, Manu? O cara  um idiota! - bradou Suzaninha.
       - A Gabi no teve culpa!  to vtima quanto voc da lbia dele - acrescentou Ritinha.
       - , minha lbia  boa, mesmo - gabou-se Andr Ded, devidamente ignorado pelas meninas.
       - No defende a Gabriela, gente! No defende! Garota assim no merece a nossa amizade.
       -Assim como, Manuela? Desenvolve! - exigiu Gabi.
       - Assim, fcil, que pega todo mundo. A gente sempre achou voc meio... meio vulgar.
       Ui! Agora o barraco tinha pegado fogo.
       - Vulgar? Vulgar?! Voc t louca? O que foi que voc bebeu, hein?
       - Eu no bebo. S estou dizendo a verdade. Quem fica com vrios numa semana, quem beija tudo o que v pela
frente, pra mim  vulgar, mulher fcil, sem amor-prprio, precisa estar sempre pendurada no pescoo de algum garoto
para se sentir bem. Me desculpe, mas  a verdade.
       - Manu, pra de show! Voc tambm j teve uma fase bem beijoqueira, t? - partiu Ritinha em defesa da morena.
       - Fase! Fase passa! A da Gabi no passa nunca!
       - Manu, voc passou dos limites. - Baixou o tom de voz Gabi, fazendo fora para as lgrimas no carem.
       - Gente, vamos pra casa... Vocs esto de cabea quente... -tentou mais uma vez Suzaninha.
       - Pra casa? No mesmo! Eu quero  aproveitar o Carnaval! Vamos para o baile do Jquei! - Manu, eu acho melhor...
       - Ritinha, se vocs no quiserem ir, t na boa. Eu vou e depois pego um txi pra casa.
       - Sozinha?
       - Sozinha no, Suzaninha! L eu tenho certeza de que vou arrumar uma companhia - respondeu, decidida. - Olha,
Ded, cuidado, daqui a pouco a Gabriela te larga e se enrosca com outro, hein? Ela  assim.
       Gabi sentiu o sangue subir. Nunca fora to magoada em toda a sua vida.
       Com raiva, ferida e abalada com as palavras que Manu usara, ela reagiu. J que Manu queria briga, ela brigaria:
       - , Ded. Vamos deixar essa louca ir embora, quero ficar mais  vontade com voc, com mais tempo pra beijar -
disse, tascando no menino um beijo de cinema.
       Manu arregalou os olhos. Ritinha e Suzaninha tambm. Estavam muito desconfortveis com aquela situao.
Aquele era para ser um feriado amigvel! Como assim estava s comeando e j tinha rolado uma enorme baixaria?
       - Olha a! Olha a!  assim que a gente conhece as amigas! -disse Manu.
       - Manu, voc est completamente errada - repreendeu Suzaninha.
       - Ah, ? Ento vamos, Ritinha! Voc  minha amiga de verdade, vamos comigo para o baile!
       - A Suzaninha t certa, Manu, voc est viajando. A Gabi no teve culpa, ela no sabia que era o Ded!
       - Ai, que saco! Vocs so chatas. Vou sozinha, ento. - Virou-se e saiu andando furiosa no meio da multido.
       Ritinha e Suzaninha resolveram ir atrs. Antes, Suzaninha cutucou Gabi, que ainda beijava Andr Ded, embora sem
nenhum sentimento.
       - Sei que voc  mais madura que ela, que sabe se cuidar melhor do que ela... por isso vou com a Manu. S por
isso! No quero que ela faa nenhuma besteira. Afinal, eu que trouxe a Manu pra c, se acontecer alguma coisa com ela a
responsabilidade vai ser minha.
       - Eu entendo... - respondeu Gabi, num fiapo de voz.
       - Conta comigo, t? E com a Ritinha tambm. A Manu vai esfriar a cabea e ver a burrada que ela fez.
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       - Ela me magoou muito. Eu no tive culpa...
       - Eu sei...
       - E no sou vulgar! Vocs... vocs me acham vulgar?
       - Claro que no! Nunca disse nem pensei um absurdo desses! Ela enlouqueceu. Olha, se voc quiser ir para a casa,
lembra onde est o Edmlson, n?
       - Arr... Mas e vocs?
       - Eu volto de txi com as meninas, no se preocupa.
       Triste, cabisbaixa e magoada, Gabi fez que sim com a cabea e deu um abrao apertado na amiga, que logo se
apressou em seguir Manu e Ritinha.
       - E a, Gabi? Vamos pra um lugar mais calmo? - perguntou Andr Ded, sedutor.
       - Lugar mais calmo? Tipo igreja, cemitrio... Essas coisas?
       - No! Tipo s eu e voc.
       - Eu entendi! - exasperou-se. - Estava s sendo irnica, Andr! Acorda, Andr!
       - , morena, no precisa ficar chateada. Eu no acho voc vulgar. Nem fcil.
       - Ah, nossa, muito obrigada, agora vou dormir tranqila - debochou.
       - Vem c, vem com seu Ded, deixa eu te acalmar.
       - Meu Ded? Fala srio! Sai daqui, garoto! Vaza!
       - U, achei que a gente ia ficar mais tempo junto...
       - Achou errado, s te beijei para irritar a Manu, no percebeu?
       - Jura? Quer dizer que voc me usou para atingir a Manu?
       - No acredito! Voc realmente faz o tipo bonito e burro, eu no mereo! - irritou-se.
       - Eu no sou cara pra ser usado, no! Que  que  isso! Eu tenho sentimento, viu?
       Gabi nem ouviu o resto do discurso do agora magoadinho Andr Ded. Virou-lhe as costas e foi marchando em
direo ao fusquinha 69 de dona Hemengarda, rasgando o papelo que formava sua fantasia de iPod, enxugando as
lgrimas e tentando lidar da melhor forma com os pensamentos e pontos de interrogao que invadiam sua cabea.
       Ded. O cara era o Ded! Como  que eu ia saber? Parece at coincidncia ridcula de novela! O nico menino que
eu no podia beijar, eu beijei! Se pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente! Tudo bem, beijei sem perguntar o nome,
errei... Mas  Carnaval, poxa! Todo mundo beija todo mundo! Isso no quer dizer que eu seja... fcil ou... ou... ou aquela
palavra horrvel que a Manu disse. Ser que ela acha mesmo isso de mim? Ser que elas todas acham isso de mim?
Resende inteira acha isso de mim? Que gente preconceituosa! Odeio gente que julga! Ah, Gabriela, deixa de ser ridcula,
todo mundo julga todo mundo, o tempo todo! Quem sou eu para falar em julgamentos errados? J julguei muito mal a
Suzaninha e me estrepei. Agora a Manu est fazendo isso comigo porque t com raiva de mim, e aposto que tem a ver
com o fato de eu ficar com mais meninos do que ela ultimamente. Mas eu no tenho culpa! Eu sou beijoqueira, fui a
primeira a beijar da minha turma... Eu sou assim. E sou jovem, solteira, desimpedida... No quero me culpar pelo meu jeito.
Mas tambm no quero que as pessoas me achem vulgar. Ah! Quer saber? Que se danem as pessoas! Ningum tem nada
a ver com a minha vida, no vou mudar meu jeito de ser s para agradar s pessoas. S mudo se eu quiser!
       Ded, Ded... To bonitinho e to estpido... Ia ficar comigo, com a Manu e com muitas outras, com certeza. E a
palhaa brigou comigo em vez de ver que ele  um palhao, ele no merecia que duas amigas brigassem por causa dele,
eu no merecia ter ouvido o que eu ouvi por causa daquele idiota. Ai, que raiva que eu t desse cara! E de toda essa
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situao!!! Odeio sentir raiva, mas  o que eu estou sentindo agora! Nunca vi a Manu daquele jeito! A gente nunca brigou
to feio! E no meio da rua, que baixaria... Achei que eu conhecesse a Manu, mas me enganei. Estou to decepcionada com
ela... To triste... Quero minha me!
       Dialogando com sua cabea, aos prantos, Gabi chegou ao fusquinha, onde Edmlson dormia e babava no banco da
frente. Bateu no vidro algumas vezes at acord-lo. O caseiro levantou-se num susto.
       - Nossa, achei que vocs fossem demorar mais tempo. J acabou?
       - Pra mim acabou, Edmlson. A Suzaninha pediu para voc me levar para casa. Depois elas vo voltar de txi.
       - U, elas no vo pra casa agora? Ih, dona Hemengarda no vai gostar disso.
       - Ela deve estar dormindo, Edmlson, nem vai ver a gente
       - Mas a ordem era levar vocs quatro de volta. - T, eu vou tentar arrumar um txi, ento.
       - Espera a, Gabi, espera a...  que eu no quero arrumar problema pra mim, no posso perder esse emprego...
       - Beleza, Edmlson. Eu no quero ser motivo para voc perder o emprego, j estou com muitos problemas, mais
um eu dispenso.
       - Onde  que esto as meninas?
       - Foram para o baile do Jquei.
       - Por que a gente no vai at l?
       - Porque eu quero ir pra casa, Edmlson. Eu estou cansada, triste, chateada... No est dando pra perceber que eu
estou chorando e que tudo o que eu quero agora  um banho frio e um travesseiro?
       Edmlson enfim notou que as coisas no estavam boas para Gabi. E decidiu:
       - Entra a. No vou deixar uma menina da sua idade chorando sozinha. Tem muito bbado na rua, eu levo voc
para o stio. Quando a gente chegar l, eu desligo o carro e empurro pra dentro, pra no acordar a dona Hemengarda.
       - Brigada, Edmlson... - agradeceu, sem conter o choro. Gabi entrou no fusca, deitou-se no banco detrs, deixou as
lgrimas descerem com fora e desandou a chorar.
       No txi que pegaram rumo ao Jquei Clube de Porto das Rosas, Ritinha foi a primeira a quebrar o silncio:
       - Voc est totalmente errada, Manu. As coisas que voc disse para a Gabi eu no diria nem para uma inimiga.
       - Ah, Ritinha! No disse nada demais, podia ter dito coisas muito piores. S disse o que eu penso.
       - Voc no pensa nada daquilo, s falou porque estava com raiva - cortou Suzaninha.
       - Pode ser, estava com raiva, mesmo. Ainda estou. Quando a gente quer ficar com um cara e fala pra amiga que vai
ficar com esse cara, sua amiga no pode chegar antes e ficar com ele. Isso  fura-olho!
       - Ela no conhecia o imbecil do Andr!!! - exclamou Ritinha. - Quantas vezes voc precisa ouvir essa frase para se
convencer de que ela no tem culpa de nada?
       - Se fosse eu, tudo bem, voc teria todos os motivos do mundo para deixar de falar comigo, porque eu estava com
voc na padaria. Eu conheci o Andr. Mas ela? Ela no tinha idia de quem ele era! - bronqueou Suzaninha.
       - A gente no pode discutir com a cabea quente, Manu. Isso magoa - argumentou Ritinha.
       - Olha quem fala! A rainha da reclamao e do mau humor! No vem querer me dar conselho, no, Rita de Cssia!
No t com pacincia pra conselho - irritou-se a loirinha. - Se vocs quiserem ir pra casa ficar com a Gabi...
       - Vontade no me falta, mas vou ficar com voc porque acho que voc precisa se acalmar - disse Suzaninha,
       - Eu estou calmssima. E louca pra beijar na boca!
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       - Ficou com dor-de-cotovelo porque a Gabi ficou com o cara e s por isso vai sair beijando feito doida? E depois
diz que a Gabi que  vulgar... - alfinetou Ritinha.
       -                                                        Que palavra horrvel. Desnecessria, Manu. E ainda teve a
cara-de-pau de dizer que a gente acha isso dela, o que  uma mentira! Muito feio voc fazer isso! - completou Suzaninha,
indignada.
       - Vocs esto chatas.
       - Chatas no  bem a palavra. Sinceras seria mais adequado - ironizou a caula do grupo.
       - Ai, gente! T bem! T bem! Eu errei! Admito, errei! Mas como  que vocs queriam que eu reagisse? Como vocs
acham que foi ver a Gabi de mos dadas com o Ded? No foi fcil, no! Minha auto-estima foi para o p!
       - T bom, Manu, eu entendo o seu lado. No  a melhor situao do mundo ver o cara que a gente gosta com
outra, ainda mais quando a outra  sua amiga. Mas voc no precisava ter pegado to pesado com ela - opinou Ritinha.
       - Voc pegou pesadssimo. Disse coisas horrveis. Voc tem que pedir desculpas pra Gabi. Vocs se adoram, so
amigas h anos, no podem brigar por causa de um cara que voc mal conhecia, Manu! - bronqueou Suzaninha. -
Nenhum garoto pode botar em risco uma amizade. Ela agora deve estar derretendo de tanto chorar.
       - E o Andr deve estar se achando o rei da cocada preta. O cara mais gato do mundo.
       - Mas ele  o mais gato do mundo. O mais gato do mundo que se aproximou de mim e pediu o meu telefone.
Meu! Ele era meu!
       - Seu... seu... T boa, santa? - irritou-se Ritinha,
       - Desculpa interromper, mas no Carnaval ningum  de ningum... - deu pitaco o motorista.
       - Boa, moo! - concordou Suzaninha.
       - Conheo a Gabi, ela tem mania de se fazer de durona, mas por dentro  sensvel  bea. Deve estar triste de dar
d - disse Ritinha.
       - Ela jamais diria para voc as coisas que voc disse para ela - completou Suzaninha.
       - Pra, Su!
       - Mas  verdade. Olha, se tivesse sido comigo, na boa, Manu, acho que eu nunca mais olharia na sua cara -
arrematou Ritinha.
       - T ficando mal, gente, pra com isso!
       -  pra ficar mal, mesmo. Foi pssimo o que voc fez, Manu - afirmou a caula do grupo.
       - S faltou chamar a Gabi de cachorra - acrescentou Suzaninha.
       - Eu me descontrolei, gente! Eu sou humana! Eu erro! Foi horrvel ver que o nico cara que tinha se interessado
por mim em sculos preferiu a Gabi.
       - Eu sei, mas no precisava nada daquilo. Eu no precisava ver aquela cena, ouvir aquelas palavras... Eu no queria
estar na pele da Gabi. Tadinha... - lamentou a neta de dona Hemengarda.
       - Dizer que Resende inteira fala dela pelas costas? Que mentira! Que agresso gratuita, Manu! - bronqueou
Ritinha.
       - Ela no merecia isso... T sempre to feliz, sempre querendo botar a gente pra cima, sempre de bem com a vida...
- desabafou Suzaninha.
       - E te adora, Manuela. Te adora!
       Manu, enfim, botou a mo na conscincia:
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       - Tadinha! Eu magoei uma das pessoas que eu mais amo na vida.
       - Pois  - concordou a caula do grupo.
       - E ela sempre foi to legal comigo...
       - Sempre - endossou Suzaninha.
       - Amiga de todas as horas... J me deu tanto o ombro para eu chorar.
       - E eu no sei? - disse Ritinha.
       - Eu fui pssima!
       - Ps-si-ma! - repetiram em coro Suzaninha e Ritinha.
       - O que vocs esto fazendo aqui comigo?
       - Cuidando de voc pra voc no fazer nenhuma besteira.
       - Outra besteira, n, Suzaninha? - corrigiu Ritinha.
       - Ela no merecia ouvir o que eu disse por nada nesse mundo. Por que as palavras vieram com tanta fora na minha
boca? Por que eu machuquei tanto uma pessoa a quem eu s quero bem?
       - No sei tambm - respondeu Suzaninha.
       - Por que a gente fala sem pensar? Por que s vezes piramos e agredimos quem amamos? Por que a gente erra? Eu
achei que eu era legal, que era gente boa...
       - Mas voc  - incentivou a caula do grupo.
       - Ento por que eu fui to vaca com uma das minhas melhores amigas? - questionou Manu, chorando.
       - Porque ningum  gente boa o tempo inteiro. Isso s existe nas novelas. S l que as pessoas so boazinhas 24
horas ou ms da manh  noite. Na vida real, a gente erra, a gente acorda com o p esquerdo, a gente diz o que no
devia, a gente tem pensamentos esquisitos... - acalmou Suzaninha.
       - Vamos para o stio, gente. Eu preciso falar com a Gabi, olhar no olho dela, pedir desculpas.
       - Desculpas sinceras?
       - Claro, Ritinha! - Ah, bom!
       - Gente, a culpa que eu t sentindo no desejo nem para a pior pessoa do mundo. Chega a doer, de to pesada -
disse a loirinha, sem conter as lgrimas de arrependimento.
       Suzaninha pediu ao motorista que as levasse para a casa de sua av. Assim que chegaram, Manu subiu correndo a
escada para conversar com a amiga de infncia.
       - Vamos com ela, Su?
       - Melhor, no, Ritinha.  uma conversa entre as duas, sria, no acho que a gente tenha que se meter.
       Manu entrou no quarto sem bater e logo viu que a amiga estava aos prantos, com um rolo de papel higinico na
mesinha-de-cabeceira para assoar o nariz vermelho.
       Gabi olhou para Manu e no disse nada. Manu sentou-se na cama e, sem conseguir olhar nos olhos da amiga,
comeou a chorar.
       - Desculpa, Gabi! - pediu. - Me desculpa! Eu no devia ter dito nada que eu disse.
       - No mesmo - respondeu Gabi, com um fiapo de voz. -Voc me magoou muito, Manuela. Muito.
       - Eu sei, eu sei! E por causa daquele idiota! Eu sou uma burra, uma burra!
       - A gente deve pensar antes de falar, sabe? Voc me agrediu mais com suas palavras do que se eu tivesse levado
uma surra.
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       - Desculpa... Eu no quero perder sua amizade, desculpa...
       - Pedir desculpa  fcil, Manu - desabafou Gabi, ressentida. - Eu vou te desculpar, eu gosto de voc, mas preciso de
tempo para mastigar as coisas que voc disse.
       - Tudo besteira, no precisa mastigar nada, esquece!
       - Quem me dera conseguir esquecer. Esquecer que sou vulgar, que beijo qualquer um, que Resende inteira fala de
mim pelas costas.
       - Tudo mentira.
       - No  possvel, com certeza tem um fundo de verdade... - Juro que no, Gabi! Falei por falar.
       - Falou para magoar.
       Manu no controlou o choro, que agora veio em forma de enxurrada de lgrimas.
       - Foi, foi! Eu fiquei com raiva, eu quis te magoar, sim! Pronto, falei!
       - Por qu? Por qu?
       - Porque voc ficou com o cara que eu queria ter ficado!
       - Mas eu no sabia que ele era o seu cara! Se soubesse,  claro que no teria nem olhado para ele!
       - Eu sei!
       - Ento!
       - Ento que eu fiquei com raiva por voc ter beijado ele, por voc ter ficado com ele, e eu no. Por voc aparecer
com ele de mos dadas... Foi um choque pra mim ver voc com ele, me pegou desprevenida, desarmada... Eu no estava
esperando ver o Ded de mos dadas com outra garota. E, para piorar, a outra garota era voc!
       - Mas eu no tive culpa!
       - Claro que no! Mas  que... ah, Gabi... De verdade? Eu fiquei com inveja de voc - admitiu, constrangida.
       - Inveja? Por qu? - indignou-se a morena.
       - Porque voc fica com quem voc quer, sempre foi assim. Os garotos babam por voc. E voc no liga para o que
possam dizer ou pensar de voc, voc  a menina mais feliz e mais bem resolvida que eu conheo. O oposto de mim.
       - Mas voc sempre ficou com quem voc quis tambm.
       - Isso  passado... De uns meses pra c ningum mais olha para mim, no sei o que aconteceu, no sei se so as
espinhas, no sei se fiquei feia, no sei se passei a estudar mais e fiquei com fama de nerd, de CDF, no sei se parei de
gostar de mim e afastei os garotos... S sei que no fico com ningum h seis meses! Por isso foi to dolorido ver voc de
mos dadas com o Andr. O nico cara que se interessou por mim nos ltimos tempos estava com voc!
       Segundos de aflitivo silncio se seguiram.
       - Manu, voc no podia ter dito as coisas que disse pra mim. Voc me julgou. Pior, julgou e condenou, criticou
minha forma de ser, de agir. Voc me conhece h tanto tempo... Doeu saber que voc pensa tudo aquilo de mim e nunca
me disse nada, viu?
       - Eu sei... eu sei... - chorou Manu. - Eu te amo, s falei para agredir, j disse. Acredita em mim. Desculpa, por favor!
       - Voc disse que eu sou vulgar. Vulgar. Que palavra  essa? Vulgar, para mim, foi s uma palavra mais bonita que
voc arrumou para no me chamar de galinha.
       - , Gabi, o que eu preciso fazer para voc esquecer? -Esvaiu-se em lgrimas a loirinha.
       - Nada. E sabe por qu? Porque eu nunca vou esquecer. E pra te falar a verdade, acho que vai ser difcil no ficar
com o p atrs com voc a partir de agora.
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          - No fala isso, no fala isso! - chorou mais ainda Manu, com a culpa do tamanho da ponte Rio-Niteri pesando
sobre os ombros.
          - Voc que cavou. A gente colhe o que a gente planta. Agora eu no sei se vou conseguir mais acreditar em voc
como antes...
          Manu entrou em desespero. Gabi era uma de suas melhores amigas, amiga de infncia, amiga-irm. Chorava muito,
soluava, a maquiagem de princesa j tinha escorrido para um reino distante. Como ela queria voltar atrs e engolir as
palavras que dissera...
          - Quando voc joga na minha cara um monte de coisas, eu tendo a acreditar que essas coisas so verdades
entaladas na sua garganta que voc s conseguiu botar pra fora porque estava com raiva. E isso no  nada bom. Voc
me botou no cho, Manu. E, voc sabe, eu no merecia isso. A gente j passou por tantas coisas juntas, eu nunca imaginei
que sua cabea a meu respeito era to cheia de preconceitos.
          - No !
          - Eu fico, sim, com quem eu quero! Sou jovem, solteira, gosto de beijar... podem falar o que quiser de mim, mas eu
sou feliz, sou beijoqueira e no me acho vulgar por causa disso. No tenho vontade de namorar, no quero me ligar a
ningum seriamente agora. Quando isso acontecer, eu quero estar muito apaixonada. Antes disso acontecer, o que  que
tem eu ficar com vrios? Eu no acho isso errado.
          - Eu tambm no! J disse, eu fiquei com inveja de voc! Essa alegria e essa sua maneira leve de ver as coisas 
que me do inveja...
          -  muito feio ter inveja, Manu! Horrvel! Voc tem tudo,  linda, feliz, mora numa casa tima, seus pais tm grana,
no tem por que ter inveja de mim, nem de ningum.
          - Mas eu t me achando um coc.
          - S por que no fica com ningum h um tempo? Fala srio! Desde quando ficar com algum prova que voc 
melhor ou pior do que outra pessoa? Ficar sozinha  bom pra todo mundo, voc devia usar esse tempo para se conhecer
melhor e aprender a gostar mais da sua prpria companhia em vez de ficar reclamando.
          - No  s isso! A minha vida t uma porcaria, no sei o que fazer no vestibular, no sei se um dia vou amar e ser
amada, no converso nada com meus pais, a no ser futilidades... A minha vida est pssima. Pssima como um todo, no
s no campo sentimental. Eu t me sentindo pssima por ter ficado com inveja de voc. Quer sentimento pior do que
inveja?
          Gabi ficou com pena.
          - D para entender que o idiota do Andr levantou meu ego e quando te vi com ele meu ego foi para baixo do
cho, onde ele estava quando cheguei aqui?
          A morena dos cabelos ondulados estava magoada com a amiga, mas essa amiga, era claro, estava magoada com a
vida.
          Gabi fechou os olhos, baixou a cabea, engoliu em seco. Finalmente entendera por completo o drama de Manu.
Entendera que a loirinha era to adolescente quanto ela, que deve ter sido um golpe duro v-la com o cara que elevara
sua auto-estima. Percebera que a amiga tinha um bando de interrogaes na cabea, muito mais que ela. Questes sobre
vida, valores, amor, famlia, futuro... Do mesmo jeito que no gostara de ser julgada, no podia julg-la, no podia dizer
que aquilo era uma tempestade em copo d'gua... Nenhuma palavra a ajudaria naquele momento. S mesmo o que ela
decidiu fazer:
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       - Me d um abrao, vai - pediu.
       Manu pulou nos braos de Gabi e deu nela um abrao esmagado, cheio de choro, soluo e remorso.
       - Desculpa, Gabi! Desculpa! - era tudo o que conseguia dizer.
       Gabi tambm chorava. Muito. Manu era como uma irm para ela. No queria que aquela amizade linda ficasse
estremecida por causa de um idiota que queria pegar as duas e mais a torcida feminina do Flamengo. E do Vasco, do
Fluminense e do Corinthians.
       - Voc vai me desculpar? - J desculpei, sua anta!
       - Obaaaaa!!! - gritaram Suzaninha e Ritinha, que invadiram o quarto assim que ouviram a resposta de Gabi.
       - Vocs estavam ouvindo atrs da porta? - indignou-se Manu.
       - Claro! - respondeu Ritinha tranqilamente.
       - Que absurdo!
       - Ah, deixa de ser falsa, Manu, se fosse o contrrio a gente teria feito o mesmo - riu Gabi.
       -  verdade - concordou a loira.
       - E ento? Tudo resolvido? - quis saber Suzaninha.
       - Tudo - disseram as duas abraadinhas.
       - Eu estava achando que eu era a vtima dessa discusso, mas a Manu  que t mal, gente. Precisando de colo,
precisando que a gente mostre pra ela o quanto ela  especial, linda por dentro e por fora...
       - Claro, a gente est aqui para ajudar, mas isso no justifica a grosseria que ela fez com voc - opinou Suzaninha.
       - Claro que no. Mas ajuda a entender... - argumentou Gabi.
       - Vai passar. Eu sei que vai.  uma fase - disse Manu. - Deve ser por isso que dizem que adolescncia  chato.
Ando transformando tudo em problema, choro  toa, estou mais quieta do que o normal... Por isso quis tanto viajar com
vocs. Porque vocs so a minha famlia, a famlia que eu escolhi. E porque vocs me fazem sentir a melhor pessoa do
mundo.
       As trs a olharam com carinho, espantadas com o relato sincero da loirinha.
       - T precisando das minhas amigas. Muito... - fez dengo Manu.
       - Oba, ento vai ser uma noite pra levantar a auto-estima da Manuzita! - decidiu Suzaninha.
       - Maravilha! Vamos para o baile, ento? - perguntou Ritinha.
       - Que baile? - indagou Suzaninha.
       - Baile do Jquei, u!
       - Voc estava odiando esse negcio de Carnaval, o que foi que aconteceu? - intrigou-se Gabi,
       - Ah, gostei do clima na rua, achei as pessoas felizes, fiquei com vontade de ir para o baile danar..,
       - Voc deu alguma coisa para ela beber, Suzaninha? - perguntou Manu.
       - C t com febre,  isso? T delirando, tadinha! - ironizou Gabi.
       - Ai, como vocs so chatas! Vocs preferem mesmo  me ver resmungando, n? Quando eu decido ficar feliz,
vocs querem acabar com a minha alegria. Vai entender!
       - Ritinha, eu acho que no tem mais clima pra baile... - foi sincera Gabi. - No hoje.
       - Ah, por qu? Vamos! A noite  uma criana! - insistiu Ritinha.
       - Gente, acho que  srio, vamos levar a Ritinha pro hospital, ela no t nada bem - brincou Manu.
       - A Suzaninha tambm quer ir!
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      - Mas s se ns quatro formos. E vamos para ficar juntas, sem briga! - explicou Suzaninha.
      Manu e Gabi se entreolharam.
      - Eu topo! Vamos para comemorar nossa amizade! -empolgou-se Manu.
      - Srio? No sei... - quedou-se em dvida Gabi.
      - Vamos! A gente no vai sem voc - pediu Suzaninha.
      - P, gente, eu nem t mais de fantasia, rasguei meu iPod - contou Gabi.
      - Eu comprei anteninhas de abelha com paets num camel na Coronel Olavo. Voc pode ir com elas - disse
Suzaninha.
      Gabi pensou, pensou... Olhou para Manu...
      - No posso ir com essa cara inchada de choro. T parecendo uma sapa, no uma abelha.
      - Vai de sapa, ento! - sugeriu Ritinha. - Sobrou tinta verde no depsito.
      - D-! - fez Gabi.
      - S vou se voc for - fez chantagem Manu.
      - Hum... No sei...
      - Deixa de ser chata! Voc  a mais animada de todas, se voc no for a gente no se empolga, a noite fica sem
graa sem suas palhaadas - tentou Suzaninha.
      - E nosso Carnaval vai ser estragado por culpa sua! Nosso Carnaval merece ser legal! A gente  legal  bea!
      - Rita de Cssia! - bronqueou Manu.
      - Conheo a pea, se eu no fizer um drama desses ela no vai. N, Gabi?
      - Ai, como voc  mala, Ritinha! - chiou a morena dos cabelos compridos. - T bem! T bem! Eu vou pra esse baile!
Cad as antenas, Su?
      As quatro foram para o banheiro retocar a maquiagem. L, tagarelaram e se arrumaram com rapidez
impressionante. At Gabi, que mandara a tristeza embora mesmo. No era de guardar mgoas. Agora, ela e as amigas no
queriam perder mais nem um minuto do Carnaval de Porto das Rosas. Munidas de alegria e confete, que Suzaninha
tambm comprara num camel, foram acordar o coitado do Edmlson para lev-las ao clube. O clima estava timo, a
alegria reinando de novo entre as quatro, agora aquela viagem estava realmente comeando.
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                      passava de meia-noite quando o quarteto adentrou o salo do Jquei Clube de Porto das Rosas. No




         J
              palco, uma banda entremeava sambas-enredo conhecidos com marchinhas como Cabeleira do Zez, Linda
              morena, Allah-la-, Mame eu quero, ndio quer apito, Ta, Pierr apaixonado, Mulata i-i-i e outras prolas.
              Assim que entraram, a galera cantava a divertidssima Marcha da cueca, cujo refro diz: "Eu mato! Eu mato!
              Quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato!" Impossvel no sorrir com versos to... poticos,
              impossvel no se jogar no meio do povo, impossvel no botar o gog pra cantar, os braos pra cima a
              balanar, impossvel ficar parado. Em pouco tempo, as amigas estavam danando, quicando, rodando,
sacudindo os cabelos e cantando em altos brados. A alegria era to grande que dava at para peg-la, senti-la, bot-la na
mo.
         As folionas pularam que se acabaram, -lel pra c, -lal pra l, "ah-ah, uh-uh, o Carnaval  nosso!", tiraram o p
do cho, requebraram os quadris sem timidez, rebolaram at embaixo... E nesse molejo momesco esbarraram com
meninos e meninas de vrios estilos e com vrias intenes. Havia os com colares havaianos, os vestidos de mdico, as
com asas de fada, as cachorras, os cachorros, os que s queriam olhar, os que s queriam importunar, os que queriam
beijar, os que queriam beijar muuuuuito muitos...
         Abraadas com os braos enrolando suas cinturas, as quatro no se desgrudaram um s segundo e esquivaram-se
juntas de garotos que se aproximavam com cantadas baratas e do atropelo de meninas cujo abuso de lcool se fazia
notar.
         - Ai, acho horrvel menina beber desse jeito - opinou Ritinha.
         - Acho horrvel beber desse jeito. Menina ou menino. Velho ou jovem. Ou sabe beber ou no bebe - disse
Suzaninha, com cara de nojo, ao ver que uma das meninas no conseguira chegar at o banheiro e vomitara ali mesmo, na
varanda.
         - Eca! - exclamou Manu. - Por isso que eu no bebo. Imagina pagar um mico desses?
         - A minha me disse que  muito difcil adolescente saber beber. Por isso do vexame desse jeito - contou Gabi.
         - A gente no  mais adolescente, n, Gabi? - estrilou Suzaninha.
         - Claro que !
         - Eu no me acho adolescente. Tenho quase 17 anos, j me sinto uma mulher! - afirmou Suzaninha.
         - Eu tambm! - concordou Manu.
         - Voc acabou de dizer l no stio que era adolescente, Manu! - exclamou Gabi.
         - ? Ah, eu desdigo, ento.
         - Claro! Adolescente  pirralho de 13, 14 anos.
         - Voc tem 15, Rita de Cssia, alou! - bronqueou Gabi. - Eu me sinto adolescente e quero me sentir assim por
muito tempo. A gente vai ser adulta o resto da vida, quero aproveitar essa fase ao mximo!
         As trs se puseram a pensar e logo rebateram:
         - ... T certa. Eu tambm quero ser adolescente mais tempo - concordou Ritinha.
         - Eu tambm - disse Manu.
         - Eu tambm! - vibrou Suzaninha.
         - Ai, olha como adolescente  chato! , raa indecisa e sem opinio! - implicou a morena.
         Depois da pausa para o convers e para a gua, as quatro voltaram para a pista. L, se esbaldaram tanto, mas tanto
que...
                                        PDL  Projeto Democratizao da Leitura


        - Ops! Pera, gente! Perdi meu chinelo - disse Ritinha, j se abaixando para procurar.
        - Impossvel achar alguma coisa aqui, Ritinha, t muito cheio, voc pode at se machucar, algum pode pisar em
voc - disse Gabi, levantando a amiga.
        - Melhor ir ao departamento de achados e perdidos - sugeriu Suzaninha.
        - Tem isso aqui?
        - Deve ter. Vamos procurar.
        Foi quando comeou a tocar 0 que , o que , do Gonzaguinha.
        - Ah, no, gente! Vamos depois, essa  a minha msica! -empolgou-se Gabi, emendando a plenos pulmes: -
"Viveeeeer! E no ter a vergonha de ser feliiiiz!" - cantou.
        - Tambm adoro, vamos depois dessa, samba descala, Ritinha! - disse Manu, entrelaando as mos com as de
Gabi.
        - T louca!? No vou conseguir sambar descala, com meus ps limpssimos, nesse cho imundssimo.
        - Beleza, eu entendo. Vou com ela, vocs esperam aqui, t? - perguntou Suzaninha.
        - T! T! - respondeu Manu, afobada, para logo depois se pr a cantar com as vsceras: - "Eu seeeei que a vida
devia ser bem melhor e ser"! - entusiasmou-se, ignorando as amigas, que partiram rindo da empolgao das outras
duas, que cantavam com vontade, olhos fechados, braos para cima, numa espcie de transe carnavalesco que parecia ter
tomado conta de todo o baile. Viva Gonzaguinha!
        O chinelo de Ritinha no estava na seo de achados e perdidos.
        - P, Ritinha, que idia vir para o baile de chinelo! - estrilou Suzaninha.
        - Voc no queria que eu viesse de tnis, n? Tucano no usa tnis!
        - Nem chinelo, doida! Tucano anda descalo!
        - Ento, o chinelo era a melhor opo - justificou Ritinha, indo com Suzaninha ao encontro de Gabi e Manu.
        - E a? Nada?
        - Nada, Manu! - respondeu Ritinha. - Perdi o chinelo e a pacincia de ficar aqui. Como  que eu vou me divertir
com um p descalo?
        Nesse momento, Suzaninha avistou um menino vestido de bombeiro.
        - Nossa! Por um bombeiro desse eu me queimo toda! -exclamou, para riso das meninas.
        - Cuidado, Su! Voc j perguntou para a Manu se ela j tinha visto o bombeiro? - espetou Gabi. - Porque, voc
sabe, n, se ela tiver olhado para o cara ningum pode olhar, muito menos conversar, no  isso?
        - Gabriela! - bronqueou Ritinha.
        - U, a Manu  assim, no  Manu? - espetou mais uma vez Gabi.
        - Voc no me perdoou, n?
        - Perdoei, mas no  porque eu te perdoei que eu no posso te zoar, n?
        - T bom, Gabi, pode me zoar  vontade hoje.
        - Hoje? Hoje e mais 364 dias, n? T com crdito pra te zoar! - brincou a morena.
        - Eu entendo, voc est magoada ainda comigo e eu no te culpo. Pode provocar que eu no vou ligar - foi sincera
Manu.
        - T, mas e a? Se voc tiver olhado para o bombeiro, a Su pode dar mole para ele ou voc vai ficar chateada se
eles conversarem? - perguntou Ritinha.
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        - Rita de Cssia, a Gabi t alterada, o que  suuupercompreensvel. Vai fundo, Su, o bombeiro no faz o meu tipo -
disse Manu.
        - Ah, que fofa! O bofe no faz o tipo dela, ento qualquer uma de ns pode dar uns pegas nele! - ironizou Gabi.
        - Vocs vo comear de novo? T sem pacincia para imaturidade - irritou-se Ritinha. - Estou aqui preocupada
com o meu chinelo que sumiu! Eu quero meu chinelo! Meu chinelinho cti-cti! No sou ningum sem meu chineloooo!
Vou chorar! - berrou Ritinha.
        - Ah, desculpa. Chorar por causa de um chinelo, isso, sim,  maturidade - debochou Gabi, causando riso em Manu e
Suzaninha.
        O clima no estava mais to maravilhoso, mas elas conseguiram aproveitar mesmo assim. Gabi pediu desculpas a
Manu e no demorou a perceber que um garoto vestido de havaiano estava com os olhos grudados nela.
        - E a, Manu? Posso ficar com ele? - implicou mais uma vez. -Desculpa, no resisti - justificou-se, antes de dar um
beijo carinhoso na bochecha da loirinha e ir conversar com o tal "havaiano".
        Em pouco tempo, estavam aos beijos no meio do salo.
        - A Gabi no tem jeito, ela sempre fica antes de todo mundo. Nem aproveita a nossa companhia - resmungou
Manu.
        - Vai comear? - rebateu Ritinha.
        - No vo brigar de novo, pelamordeDeus! Vamos aproveitar o baile - pediu Suzaninha.
        - No posso aproveitar! Estou sem um chinelo.
        Nesse momento, como naqueles momentos mgicos de filmes romnticos, em que tudo em volta congela e s
existem os protagonistas, aproximou-se da caula das amigas um menino com uma fantasia improvisada de prncipe. Uma
graa de menino. Olhos verdes, rosto lisinho, nariz afilado, maxilar forte, furinho no queixo.
        Ajoelhou-se aos ps de Ritinha e, sem rodeios, revelou:
        - Achei minha Cinderela - disse, enquanto levantava a perna de Ritinha para botar em seu p o chinelo perdido. -
Procurei tanto tempo por voc e agora, enfim, te encontrei - completou, com pinta de prncipe de filmes de prncipe.
        Seria mentira afirmar que Ritinha no balanou com um prncipe to bonito e galanteador.
        - Voc t levando sua fantasia muito a srio, hein? - reagiu.
        - Que fantasia? Eu sou um prncipe de verdade, tu no reconheces um membro da realeza, , princesa?
        Ela riu.
        - Princesa? Eu sou uma ave, seu doido!
        - Ave? Mas  claro, agora que vi as asas, ave encantada. Que ave rara s tu?
        - Eu sou um tucano, p! No reconhece um tucano? Seu reino deve ser bem distante do Brasil, n?
        - Meu reino  muito, muito distante daqui. Viajei milhas e milhas s para conhecer essa festa profana chamada
Carnaval e encontrar minha princesa, que foi transformada em tucano pela bruxa m.
        - Ih... Olha o cara... Que viagem! D pra ver que voc gosta muito de histrias de princesas...
        - Eu gosto  de voc - retrucou, srio.
        - Ah, t - fez Ritinha, sem graa. - E do baile? T gostando? -perguntou, para logo depois culpar-se. "Eu estou
puxando papo com um desconhecido! Ritinha, sua louca! Pra com isso! D logo um corte nesse cara! Voc tem
namorado", recriminou-se.
        - Agora estou gostando muito mais - disse ele, olhando fundo nos olhos de Ritinha.
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         - Por qu? - perguntou, fazendo charme, como se no soubesse a resposta.
         "Rita de Cssia! Rita de Cssia, sua doida! Pra com isso! O que  que voc t fazendo? No tinha nada que
perguntar por qu! Por sua causa, idiota! Voc sabe disso! Pensa no Leandro! Pensa no Leandro!"
         - Porque agora eu finalmente achei minha princesa.
         Ponto para o prncipe! Esse negcio de princesa sempre mexeu com Ritinha. Seu sonho era ter um castelo cheio de
flores, que ela batizaria de Castelo das Flores, e um cavalo branco que se chamaria Cavalo Branco. , a imaginao de
Ritinha no era l muito frtil, isso para no mencionar sua falta de criatividade para nomes.
         Sem nada a dizer, ela apenas sorriu - mostrando muito mais dentes do que deveria.
         - Voc me daria o prazer desta contradana? - perguntou o Prncipe, romntico.
         Ela nem pensou duas vezes. Apenas estendeu o brao e foi para a pista com ele, sob os atentos e arregalados olhos
de Suzaninha e Manu.
         - Que , gente!? Vou s danar! Agora eu t com os dois chinelos! - explicou.
         As duas nada disseram para ela. Mas no deixaram de comentar entre si:
         - T boba! - disse Suzaninha.
         - E eu? Isso no  contra o regulamento do Pappoc? - perguntou Manu.
         - Totalmente! Se isso acontecesse com o Leandro, ele teria que ligar para ela na mesma hora para entender a
grandeza e a importncia do amor deles. Acho que ela teria que fazer o mesmo. Ai, droga, olha a gente julgando!
         - Ai, Suzaninha, no estamos julgando, estamos s comentando...
         Prncipe e tucano/princesa chegaram  pista bem na hora em que a banda comeou a tocar aquelas marchinhas
acalma-folio, bem mais lentas. Foi uma sucesso de canes lindas e inesquecveis: Bandeira branca, Mscara negra,
Pastorinhas e Carinhoso, aquela do Meu corao/ no sei por qu/, bate feliz quando te v, que os dois cantaram com os
olhos grudados um no outro, danando como os casais de antigamente. Algo estranho no ar, Ritinha queria se
desvencilhar do prncipe, mas no queria, queria danar com ele a noite inteira, mas no queria, queria beij-lo, mas... no
podia.
         O set de msicas lentinhas acabou e recomeou a pulao desenfreada e nada romntica. Afinal, Pirata da perna-
de-pau e tudo, menos romntica.
         - Valeu - disse ela, afastando-se de seu prncipe.
         - Valeu? No quer mais danar?
         - No, t na boa - disse.
         - No t certo isso... O que foi que aconteceu? Pisei no seu p?
         Droga! O prncipe tinha bom humor, um quesito importante para conquistar a mau-humorada Ritinha.
         - No! Voc dana muito bem! - respondeu. -  que no posso danar com voc.
         - Por qu?
         - Porque no  certo.
         - Por qu?
         - Porque eu tenho namorado - finalmente revelou, olhando para baixo, cheia de vergonha.
         Depois de um breve segundo de silncio, prncipe rebateu, na lata.
         - Eu no sou ciumento. Prncipe safadinho!
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       Ele no se importava se ela era ou no comprometida. Ele queria apenas ficar mais um pouco com ela... Ritinha
entrou em parafuso.
       - No posso, no insiste...
       - Espera a! Eu vou deixar voc ir, mas antes me tira uma dvida: se voc no tivesse namorado, eu teria alguma
chance?
       Prncipe insistente!, pensou ela. Mas no podia pensar muito, tinha que responder quela pergunta. Olhou para ele
e disse sinceramente.
       - Claro que teria.
       "Burra! Idiota! No precisava do 'claro'! Que coisa mais oferecida! Ai, se o Leandro soubesse disso!", culpou-se mais
que nunca.
       Suzaninha e Manu se aproximaram.
       - Seu celular acabou de tocar. Era o Leandro - sussurrou Manu ao seu ouvido.
       Os olhos de Ritinha quase pularam para fora de seu rosto.
       - O que voc disse?
       - Nada, no atendi.
       - Ufa! - respirou aliviada.
       - Ele no sabe que a gente t aqui, lembra? Voc s vai contar pra ele amanh. Se contar, n?
       - Ai, Manu, voc t me julgando!
       - No, t, no.
       - T, sim! T me achando de ltima!
       - Ritinha, eu no faria isso se estivesse namorando. Mas eu sou assim! - desabafou Manu.
       - Algum problema, princesa? - quis saber o prncipe.
       - Nenhum. Olha, foi bom te conhecer, mas eu tenho que ir. Tchau - despediu-se, dando um beijo na bochecha do
garoto. Ele bem que virou o rosto para tentar um selinho, mas Ritinha percebeu e o selinho no aconteceu. Apenas uma
bitoca carinhosa.
       Saiu em disparada rumo ao banheiro, seguida de perto por Suzaninha e Manu.
       - Gente! Eu no acredito! Eu quase fiquei com o garoto! Como assim? O que foi que aconteceu comigo? -
reclamou, chorando.
       - Ritinha! Essas coisas acontecem! - aliviou Manu.
       - O bom  voc ter se tocado a tempo! Mas no se recrimina tanto, vai! Voc  de carne e osso, ele era lindo,
relaxa! - acalmou a amiga Suzaninha.
       - Mas no podia, eu no podia ter feito isso, gente!  errado! Estou me sentindo a pior pessoa do mundo! -
exclamou Ritinha. - Imagina se o Leandro faz isso comigo l em Valena? Eu morro!
       - Por isso que  melhor voc no contar nada disso pra ele.
       - No conto de jeito nenhum! No sou louca! Amo muito meu namorado para perd-lo assim, por causa de um
prncipe no Carnaval.
       - Mas ele balanou voc - atiou Manu. -Voc viu a cara dele? As mos dele? As mos mais lindas que j vi em toda
a minha vida! - disse Ritinha.
       - Jura que voc reparou nas mos dele? - intrigou-se Suzaninha.
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        - A Ritinha ama mos masculinas - explicou Manu.
        - Srio? - estranhou Suzaninha.
        - A Ritinha  doida, voc ainda no percebeu, Su? - brincou Manu.
        - Gente, t pssima!
        - No fica! Qualquer um est sujeito a isso. Voc no fez nada demais.
        - Fiz, sim! Fui fraca, fui danar com o cara! Me deixei levar por ma conversa besta de prncipe fajuto. Teria que ter
ligado para o Leandro assim que ele chegou perto de mim! Eu que fiz o Pappoc e no cumpri.
        - Deixa essa Pappoc pra l! Vamos danar!
        -  esse Pappoc, Suzaninha! E no d pra danar, t me sentindo esquisita... Errada... Culpada.
        - Esquece essa culpa, no rolou nada. O seu amor pelo Leandro falou mais alto, voc percebeu que seu amor por
ele  imenso, olha que bacana! - ajudou Suzaninha.
        - , n? Eu amo muito o meu Lel! Muuuito! - gritou Ritinha.
        - Maravilha! Voc ama o Leandro, o Leandro te ama! Agora vamos danar, purfa? Essa msica  tudo! - pediu
Manu.
        As duas puxaram Ritinha do banheiro para o salo, cada uma segurando num brao. Animadas, cantaram "Eu fui s
touradas em Madri Pararatibum-bum-bum!" e, juntas, voltaram a danar abraadas.
        A harmonia foi quebrada por um grupo de lutadores, os chamados pitboys, que se aproximaram das trs sem
nenhuma delicadeza. Puxando o cabelo de Manu, o mais carrancudo do trio disse s meninas:
        - Vocs so muito, mas muito gostosas. No so daqui no, n?
        - Voc jura que precisava puxar meu cabelo para dizer isso? No sabe que garota ODEIA ter o cabelo puxado
numa balada? -irritou-se a loirinha.
        - Iiih, a! Achei uma bravinha! - ironizou para os amigos. - So as minhas preferidas.
        - Com licena, vocs esto atrapalhando a gente - pediu Suzaninha.
        - Quer que a gente v embora?
        - Claro. A gente t danando.
        - Olha aqui, , metidinha, todas essas vadias que esto aqui nesse baile queriam ficar com a gente, mas a gente
quer ficar com vocs. Como  que tu diz na minha cara que quer danar? T louca? - perguntou um outro forte, com
orelha em formato de couve-flor e uma tatuagem enorme no brao que segurava o de Suzaninha com mais fora que o
necessrio.
        - Vem c, vocs no entendem nada de mulher, n? A gente odeia quem chega junto usando a fora. E lutadores,
na boa, no fazem o nosso tipo - reagiu Ritinha.
        - Ih, ficou brava a baixinha, olha s! Vocs no entenderam o que eu disse? A gente t a fim de pegar vocs!
        - A gente no t! Vocs  que no entenderam! Quando um no quer, dois no se pegam! - respondeu Ritinha,
puxada, pelas asas de fil, pelo mais alto deles.
        - Deixa de frescura, garota! A gente s quer um beijo! - disse, atacando Ritinha, que deu um chute naquele lugar
bem frgil da anatomia masculina.
        - Garota maluca! - reagiu ele, empurrando Ritinha com fora.
        Que trogloditas!, pensou a caula do grupo.
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         Assustadas, as trs se desvencilharam, foram para o meio do salo e voltaram a aproveitar a paz. Paz que durou
pouco.
         Elas tinham despertado a ira dos lutadores. Agora parecia que os trogloditas estavam com mais vontade ainda de
ficar com elas.
         - Vocs de novo? - perguntou Ritinha.
         - Olha, chegamos na delicadeza, na paz, na tranqilidade, mas daqui a pouco, se vocs continuarem assim, vamo
ter que partir pra ingnorncia!
         - Ingnorncia? Fala srio! Ignorante  voc, animal! - rebateu Suzaninha.
         -Vem c, vocs se acham muito superiores, n? - perguntou o carrancudo que puxou o cabelo de Manu.
         - No, a gente s no t a fim de ficar com vocs - respondeu a loirinha.
         - Por qu? S um beijinho - disse o carrancudo, agarrando Manu.
         - No!
         - Por qu?
         - Porque eu no quero!
         - T louca?
         - No! Voc que t! Me solta! - gritou, tentando se esquivar dos braos enormes e daquela boca asquerosa que
tentava tocar a sua.
         - Quanto mais voc resiste, com mais vontade eu fico, sabia?
         - Doente!
         - Larga ela! - interveio Ritinha.
         - Eu vou chamar o segurana - alertou Suzaninha. -Vai, vai l chamar o segurana, vai - disse ele em tom
debochado.
         Ningum em volta percebeu que a cena estava acontecendo. Entre confetes e serpentinas, o clima pesou e
ningum viu, para desnimo das meninas.
         - Anda, loira, s um beijo, p! Qual ?
         - No quero!
         - Que ? Tem namorado?
         - No.
         - Ento  encalhada e ainda t me tratando mal?
         - Larga ela! Ela j disse que no quer! - tentou mais uma vez Ritinha, segurada pelo mais alto do trio.
         - Qual o problema de um beijo? S um beijinho quebrete!
         - Quebrete? - fez Manu.
         - Quebrete, de quebra-galho. S um, vai, loirinha! Me quebra esse galho, eu t com a boca seca.
         Dito isso, ele encostou a boca na de Manu, que no teve outra alternativa a no ser...
         - Ai! P! Tu me mordeu, garota? - indignou-se o carrancudo, com os beios inchados e a raiva no olhar. - Tu no
sabe com quem t se metendo!
         - Ai, que meda! - debochou Manu.
         - Pode ficar com medo, mesmo. Voc e essas suas amigas metidinhas me pagam.
         - Nossa, assim, falando grosso, voc consegue at enganar que  homem, sabia? - ironizou Ritinha.
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         - Vambora, Dudu! Vambora! Trs vadias encalhadas no merecem nosso esforo - decidiu o mais alto.
         - Tem razo, Janjo. Olha a, as trs so cadas, corpo ridculo, nem devem malhar... Vadias! Vadias! - gritou,
afastando-se delas e sumindo na multido.
         Enquanto isso, Suzaninha conversava com o segurana.
         - So trs garotos, um baixinho carrancudo, um...
         - J sei quem so, mas no vou poder fazer nada.
         - Por que no? Eles esto chateando a gente h um tempo!
         - O baixinho carrancudo  o Eduardo, filho do prefeito, e os outros so os amiguinhos dele. Se eu fizer alguma
coisa posso at perder meu emprego.
         - Voc t falando srio?
         - Serissimo.
         - Mas eles esto incomodando a mim e as minhas amigas.
         - Lamento, moa. Voc no  a primeira que vem fazer queixa deles. E no vai ser a ltima...
         - Mesmo assim voc no pode fazer nada?
         - Nada.
         Desapontada, Suzaninha voltou para onde estavam as amigas, que agora sambavam felizes, livres de atropelos dos
pitboys trogloditas. Mas foi s a neta de dona Hemengarda se juntar ao grupo novamente que os garotos se
reaproximaram para acabar com a alegria das folionas.
         Garotos sem noo. To sem noo que cada vez grudavam mais nas meninas, passaram um bom tempo
perseguindo-as. Como crianas insistentes, mimadas e desobedientes, tropeavam e caam de propsito em cima delas,
empurravam-nas, puxavam seus cabelos, beliscavam suas cinturas e suas pernas, diziam ofensas.
         Baixaria clssica.
         - Gente, vamos achar a Gabi para ir embora? No vou agentar esses caras por mais tempo.
         - Cad o segurana, Su? Vai l falar com ele de novo! - pediu Manu.
         No. Ele no vai poder fazer nada.
         - Como no? - reagiu Ritinha.
         - O palhao  filho do prefeito, acredita?
         - No! - exclamou Ritinha.
         Saram  cata de Gabi e logo a encontraram encostada num muro com o bonitinho que conhecera no comeo do
baile.
         - A gente t indo, Gabi.
         - Beleza, vou tambm. Tchau, Armando. - J? - perguntou ele.
         -J.
         - Me d seu telefone?
         - Pra qu, menino? No precisa pedir meu telefone, no, eu sei que voc no vai ligar.  Carnaval, no precisa ter
esse tipo de cena.
         - Srio? P, a, voc  irada! - elogiou, antes de sair em busca de mais uma menina disposta a beijos carnavalescos.
         - Que caras so essas? - indagou Gabi.
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       - Ah, uns idiotas esto atazanando a gente e no d mais para ficar aqui. Eles fizeram de tudo para acabar com a
nossa pacincia - esclareceu Ritinha.
       - O ideal seria ficarmos mais um pouco, mas eles passaram dos limites. Puxaram as asas da Ritinha, levantaram a
saia da Su e quase arrancaram meu cabelo. So da pior qualidade - contou Manu.
       - At me empurraram! - desabafou Ritinha.
       - Que absurdo! Vocs no reclamaram com o pessoal do clube?
       - Ai, Gabi, reclamei, mas no adiantou nada. No carro eu te conto tudo.
       Chegaram em casa, tiraram roupas e maquiagem, tomaram uma rpida chuveirada e deitaram-se. A insistncia dos
pitboys deixara as meninas desgastadas, arrasadas, com uma sensao ruim, com a energia no p. Estavam
impressionadas ao descobrir que, nos dias de hoje, ainda existem garotos que querem ganhar uma garota pela fora.
Empurres, apertos e puxes de cabelo enojam e enjoam qualquer menina com um pingo de dignidade.
       - Eles no devem conhecer aquele ditado: "Em mulher no se bate nem com uma flor" - comentou Ritinha.
       - Vamos esquecer esses garotos - opinou Suzaninha.
       - Violncia acaba com a gente, n? - disse Manu. - T pssima! Me senti como um brinquedo caro que o
mimadinho queria porque queria. Ainda bem que no fiquei com ele. Filho do prefeito... O prefeito  pssimo pai, vamos
combinar, n?
       - Violncia  u! Contra mulheres, ento! Nossa, no gosto nem de pensar no que esses caras podiam ter feito com
vocs. Vocs deviam ter me chamado!
       - Voc estava beijando, Gabi! - disse Ritinha.
       - Mas ele nem beijava to bem. Largaria o garoto fcil, fcil para defender minhas amigas. Ia dar um soco nesses
pitboys.
       - Ah, ia ajudar muito... Eles iam derrubar voc com um sopro - riu Manu.
       - Meninas, vamos dormir. T morta. E, , bola pra cima, hein? Apesar de tudo, a noite foi bem legal.
       - Isso mesmo, Su! No vamos deixar que esses caras idiotas acabem com nosso Carnaval. Amanh  um novo dia e
eles vo estar no passado, A gente tem  que pensar que foi muito bom no ter cedido  presso deles - desabafou
Ritinha.
       - Eles no devem estar acostumados a levar um "no" na cara. E levaram trs - comentou Manu.
       - Boa-noite, meninas. Amanh tem mais. Quem acordar primeiro acorda a outra? - sugeriu Su.
       - Show de bola! Podem me acordar, prometo que no fico de mau humor. Estou louca para conhecer a cachoeira
que tem perto daqui - empolgou-se Ritinha.
       -  linda. No podemos esquecer as mquinas fotogrficas.
       - Claro que no, Suzaninha! Oba! Amanh o domingo promete! - comemorou Gabi, antes de apagar no travesseiro.
       No dia seguinte, as quatro amigas acordaram com os berros de Edmlson.
       - Dona Hemengarda! Dona Hemengarda! Vem ver o que fizeram!
       As meninas pularam da cama e foram correndo ver o que tinha acontecido.
       - No acredito nisso! - lamentou dona Hemengarda. - Que vandalismo! Que violncia! Que maldade, meu Deus do
cu!
       As meninas ficaram arrasadas. O muro que tinha dado o maior trabalho para pintar no dia anterior, o muro que
dera nova cara ao stio da av mais fofa de Porto das Rosas, estava agora todo pichado, coberto por palavres e quase
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palavres que exalavam dio e rancor. Entre outras coisas impublicveis, os vndalos escreveram mensagens raivosas,
como:


        AQUI S TEM VADIA, VADIA IN CALHADA!!!! TODAS BARANGAS! BARANGAS QUE SI ACHAM, MAIS NO SERVEM
NEM PRA QUEBRETE!


        - Quebrete? O que  quebrete? - quis saber Gabi.
        - Quebra-galho - respondeu Manu, antes de dar um suspiro e revelar: - Foi o filho do prefeito que fez isso -
afirmou.
        - Como  que voc sabe?
        - Porque ele disse pra mim ontem que s queria um beijo quebrete, Suzaninha.
        - Que ridculo! -Tambm acho.
        - E "encalhada" e "se" com "i"? E "mas" com "i"?! Que  isso? Alm de vndalo, ele  burro? - quis saber Gabi.
        - Pra voc ter uma idia, um amigo dele disse que ia partir pra "ingnorncia" - respondeu Suzaninha.
        - Ui! - reagiu Gabi.
        - Entendi tudo. O mimadinho, filhinho de papai, ficou pau da vida porque nenhuma de ns quis ficar com ele e os
amiguinhos, e seguiu a gente at aqui para se vingar. Que covarde! - exaltou-se a neta de dona Hemengarda. - E agora?
        - Agora a gente tem que denunciar esse cara, Ritinha! - respondeu Manu.
        - Como? Nada vai acontecer com ele. Ele  filho do prefeito! O segurana do baile no fez nada, a polcia no vai
fazer nada. Vo fingir que nem  com eles - desabafou Suzaninha.
        - E, pior, a gente no tem prova contra o cara! - concluiu Ritinha.
        - Quer prova maior do que quebrete? - irritou-se Gabi. Minuto de silncio. No havia outra concluso, a no ser a
tomada por uma desolada Manu.
        - Vai ser a nossa palavra contra a dele - resignou-se.
        - Se foi o Eduardo, desistam, meninas. Ele  o maior arruaceiro de Porto das Rosas e ningum nunca faz nada. O
garoto  intocvel, se acha acima do bem e do mal - disse dona Hemengarda.
        - Mas no podia ser assim! - indignou-se Gabi.
        - Mas . Ele rouba goiaba do stio das pessoas, rouba galinha, trata mal todo mundo, faz pega com os amigos nas
ruas mais pacatas, fica bbado e faz um monte de besteira, sai gritando pelas ruas quebrando garrafas para assustar e
acordar as pessoas... Esse menino no  do bem, no. Aqui j est todo mundo acostumado.
        - Mas o prefeito tinha que dar o exemplo...
        - O prefeito no sabe que tem um filho peste, Manu. Ele deve enganar bem dentro de casa. Quantos jovens so
diferentes na frente dos pais e tm outra personalidade na rua, com os amigos? Ele deve ser um desses - suspirou dona
Hemengarda.
        - A gente tem que fazer alguma coisa, esse cara precisa pagar! Ele no pode sair por a fazendo o que bem
entende s porque acha que tem imunidade por ser filho do prefeito - comentou Suzaninha.
        - A gente precisa provar que foi ele que fez isso. Vamos desmascarar esse idiota - sugeriu Gabi.
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       - Bota idiota nisso. Para ele, mulher  um objeto, um rob que tem que fazer tudo o que ele quer - reclamou
Suzaninha. -Pichar o muro da minha av, que no tem nada a ver com essa histria... Que cara sem noo... Ai, v,
desculpa... - pediu, triste de dar d.
       - Imagina, minha filha. Fico com pena de vocs, que trabalharam o dia inteiro nesse muro para agora v-lo assim,
desse jeito.
       - Eu quero me vingar dele e de todas as ofensas que ele fez a mim e a vocs.
       - Eu tambm, Manu. Mas como? - perguntou Ritinha.
       A loirinha ficou sem resposta. As quatro estavam sem resposta, estarrecidas com o acontecido, em estado de
choque, com um enorme sentimento de impotncia invadindo o peito. At que Gabi teve uma idia:
       - Manu, eu sei de uma pessoa que pode ajudar a gente nessa histria.
       - Voc no est pensando na...
       - Na Babete? Claro que estou!
       - Show! A Babete  tima resolvedora de problemas! -comemorou Ritinha.
       - Quem  Babete? - quis saber Suzaninha.
       - A minha prima, voc a conheceu na gincana da Vida d'Ouro, lembra?
       - Aquela doidinha?
       - Essa mesmo, Su! - riu Ritinha.
       - Ela  doida mas tem timas idias, tenho certeza de que vai ajudar a gente a desmascarar esse vndalo
mauricinho - completou Gabi.
       Enquanto Edmlson e dona Hemengarda miravam, desolados, o enorme muro tomado por pichao e dio, as
quatro correram para dentro da casa. Era preciso pedir ajuda. Era preciso acionar o quanto antes Babete Labareda, a
maluquete mais querida de Manu, Gabi, Ritinha e, futuramente, de Suzaninha.
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         M
                                 anu primeiro tentou a casa de Babete. Chamou e ningum atendeu. Tentou mais uma vez,
                          nada. Ligou para o celular e ouviu: "Esse nmero  inexistente." A loirinha no tinha outra sada a no
                          ser telefonar para a me para pegar o novo nmero da prima.
                                 - O que  que voc quer com a Babete, minha filha? Sua prima tem um parafuso a menos, at
                          parece que no sabe!
                                 - No fala assim, me! A gente precisa muito da ajuda dela.
                                 - Esquece a Babete, mame te ajuda. Mame  centrada, focada, tem uma cabea maravilhosa,
idias sensacionais,  tima para dar conselhos, para resolver problemas, para... No me diz que voc se apaixonou por um
mineirinho safado e sem-vergonha e no est com coragem de me dizer! Ai, meu Deus! Vou ficar sem a minha filhinha,
minha filhinha que eu amo tanto vai me abandonar para morar numa cabaninha nos cafunds de Minas!!! O que eu fiz
para merecer isso!? - surtou Macl.
         - Manh! Que cabaninha? Pirou? Voc  a mesma pessoa que comeou o discurso dizendo que era centrada?
Nossa, percebe-se como voc  centrada! - ironizou Manu.
         - No debocha, Manuela! Que problema  esse?  com garoto?
         - .
         - T apaixonada?
         - No, me.
         - timo. T grvida?
         - Claro que no, me!
         - Alguma das meninas est grvida? Bom, melhor elas do que voc!
         - Me, no  nada disso! Deixa de dizer besteira! Voc tem o novo celular da Babete?
         - Pra qu?
         - Eu preciso falar com ela!
         - Sobre o qu? Se  sobre garoto eu quero saber. - Ai, me, pra com isso...
         - Levou outro p na bunda de algum imbecil que no viu sua beleza interior?
         Manu pensou, pensou... E resolveu dizer:
         - Isso! Levei um p na bunda ontem e estou arrasada! - mentiu descaradamente. - A Babete  a melhor pessoa
para me dar conselhos.
         - Ela  louca!
         - Ela no  louca! Ela  sincera!
         - Eu tambm sou. Deixa eu ver... Como  que eu posso te ajudar... J sei! Fica com outro na frente dele!
         - T bom, me! Agradeo a sua ajuda, mas continuo querendo falar com a Babete.
         - Por qu?
         - Porque ela  mais nova que voc. Segundos de silncio.
         - Voc est me chamando de velha, Manuela? Velha  a sua me! Quer dizer, a sua av! Me do seu pai, que fique
claro!
         - No  isso, me,  que voc  de outra gerao, no entende tanto a nossa cabea quanto a Babete, que tinha a
minha idade outro dia. Entendeu?
         - Hum...
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       - Me, libera logo o telefone dela!
       - Espera a que vou pegar na agenda. Ih, o que eu tenho  o mesmo que voc. Vou ligar pra Maria Hermnia e j te
ligo de volta.
       Que dificuldade para conseguir um nmero de telefone!
       - Conseguiu? - quis saber Gabi.
       - Nada! Vai ligar para a me da Babete para pegar o nmero novo.
       - Se sua me no tinha o nmero da Babete, por que a conversa demorou esse tempo todo?
       - Porque ela resolveu me encher o saco, fazer mil perguntas... Deu uma de me amiga, me que gosta de ajudar
nos problemas da filha, sabe?
       - Hummm... Sei! Odeio quando minha me ataca de me amiga. Ela fica chata, faz um monte de perguntas nada a
ver... Me  muito sem noo s vezes - reclamou Suzaninha.
       - A minha  muito maneira. Amo a minha me, ela  minha melhor amiga - disse Gabi.
       - Sorte sua. Ningum merece me que pega no p e se mostra interessada na vida da gente - resmungou Ritinha.
- A minha ainda fica revoltada quando eu respondo com uma palavra s.
       - Ah, ! Uma palavra s  ofensa,  sinal de que a gente no quer se abrir, no quer mais conversar com elas...
Como foi a festa? Legal, eu digo. E ela: Legal? S legal? No pode ser! Que mais alm de legal? A eu respondo: "Legal. S
legal." Pronto! Basta isso para ela ficar ofendidssima! - contou a neta de dona Hemengarda.
       As trs rolaram de rir e concordaram, unnimes, que respostas de uma palavra s deviam ser consideradas faltas
gravssimas Por todas as mes do mundo.
       - E quando elas inventam de conversar seriamente? Me adora conversar, se meter em tudo... - disse Manu.
       - Ah, vocs esto sendo muito cruis! Elas so mes, elas se preocupam com a gente! - defendeu Gabi.
       - Mas tem horas em que elas precisam se tocar de que passaram dos limites - manifestou-se Ritinha.
       - A minha me, depois que eu continuo respondendo com uma palavra s, termina sempre dizendo: "O que  que
est acontecendo? Conta para a mame, abre seu coraozinho, querida... Mame  sua amiga e s quer seu bem" -
ilustrou Suzaninha.
       As amigas riram mais ainda. A menina era boa contadora de histria e tima imitadora de mes.
       O telefone tocou. Manu correu para atender. - Oi, me! Arrumou? Fala. Beleza, brigada!
       - Voc levou agasalho, Manuela?
       - Trouxe, me.
       - Meia, toalha...
       - Claro. Me, eu fiz a mala com voc.
       - Cotonete, papel higinico, lenol, travesseiro...
       - Cotonete? Claro que no. Papel higinico? Tambm no. Lenol a Suzaninha disse que no precisava.
       - Minha filha, mas que absurdo! Onde j se viu viajar sem seu prprio papel higinico? Sem saber que tipo de
papel vai encontrar pela frente! Imagina se fosse um daqueles speros, que machucam o bumbum. Bumbum de Manu 
muito xenxvel. Bumbum de Manu se machuca  toa... Bumbum de Manu Semp...
       - No pira, me! Deixa minha bunda em paz, me! Um beijo, me!
       - Ah, no, vamos conversar! O que vocs tm feito a?
       - Me, agora no d! Eu tenho um problema pra resolver!
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        - Nossa! Como voc  chata, Manuela! Cheia de mistrio... Se voc se abrisse comigo, aposto que esse problema j
estaria solucionado.
        -T bom, mezinha. Tchau, mezinha.
        - Ah! V se no fica de tagarelice com sua prima. Ela agora est trabalhando, no  bom falar muito tempo ao
telefone no trabalho.
        - O qu?! - espantou-se a loirinha. - Babete trabalhando? Num domingo de Carnaval? Tem certeza?
        - Sim, senhora. E  trabalho num escritrio, no no circo engolindo fogo, nem num retiro de ioga no meio do mato
bebendo luz e clorofila e se alimentando de flor.
        - T bem, vou tentar falar rpido com ela. Tchau, me. Beijo! Finalmente desligou e boquiaberta ficou.
        - Caraca!
        - O que foi? Voc t branca! - exclamou Gabi. Manu sentou-se, respirou fundo...
        -A Babete est trabalhando. Num escritrio!!!
        - Mentira! - duvidou Ritinha.
        - Qual  a maluquice dessa vez? Porque maluquice  com ela mesmo, n? No esqueo as fotos do desfile em
Milo... - riu Gabi.
        -A Babete  modelo? No sabia que ela desfilava...
        - Ela no desfilou. Ela invadiu o desfile - explicou Manu.
        - Pelada! - acrescentou Ritinha.
        - Como assim? - espantou-se Suzaninha.
        - Na poca ela trabalhava como voluntria do PETA, um rgo que t sempre protestando contra o uso de peles
de animais no mundo da moda. Eles brigam com todo mundo; quem produz roupas e acessrios sacrificando os bichos, e
tambm quem usa - detalhou Manu.
        - Ento ela achou mais que justo aparecer pelada com cartazes de protesto e cara de indignao. Primeira pgina
de vrios jornais do mundo - completou Gabi.
        - Que louca! - reagiu Suzaninha.
        - Bota louca nisso! Louca maravilhosa! - comentou a morena.
        - Gente, dessa vez no  maluquice.  um escritrio! A Babete nunca trabalhou em escritrio. E contra acordar
cedo,  contra chefes,  contra rotina,  contra ter horrios,  contra papel, caneta e computador! Ela gosta de "mentalizar,
de transcender, de fazer telepatia".
        - Bom, melhor ligar logo pra ela pra matar nossa curiosidade - opinou Ritinha.
        Manu ligou. Depois de trs toques:
        - No vou, j disse, no insiste! - disse a voz cheia de gs que atendeu do outro lado. - No vou conversar com a
planta de ningum! No posso! Isso  um absurdo! Onde j se viu pedir um negcio desses? Cada pessoa conversa com
suas prprias plantas! Se ela est murcha o dono  que tem que conversar com ela, abra-la e tentar descobrir o que
aconteceu, no uma estranha! Eu nem conheo a planta dele! Planta no se abre com qualquer um, no! S com o dono!
        Chocada com a prima, que parecia a Babete de sempre, mesmo trabalhando num escritrio, Manu tentou se
recuperar do susto de ouvir o discurso botnico e encontrar palavras para cumprimentar a maluquete.
        - O-oi... Babete.
        - Manu? E voc?
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       - Isso.
       - Ai, graas aos meus sempre fofinhos duendinhos aquele mala parou de me alugar. Ele ligou oito vezes hoje para
pedir para eu falar com a planta desse bendito vizinho, que no consegue conversar com a coitada, que t murcha,
murcha.  um abuso pedir isso, no ?
       - ... Acho que ...
       Manu resolveu concordar. Nessas horas era melhor no contrariar. Sabia que a prima vivia num universo paralelo e
esquisito que ela nunca conseguira entender direito.
       - E a? Quais so as novis?
       - Preciso da sua ajuda, Babete!
       - Tamos a! S no posso ficar muito tempo no telefone. Estou numa misso importantssima.
       - Misso?! Sua me falou pra minha que voc estava trabalhando num escritrio.
       - E estou, mesmo. Numa misso indita, espetacular, nica, que pretende revolucionar completamente o modo de
viver das girafas.
       Essa era a Babete!
       - Como  que ?
       - Uns cientistas que fazem pesquisas para a ONG em que eu trabalho descobriram que as girafas choram! E que
suas lgrimas tm um poder curativo incrvel. Bota aquilo em cima de uma ferida, pronto!, a ferida t curada!  mais
poderoso que mertiolate,  melhor que mercurocromo. Imagina a felicidade das mes girafas, que com uma aplicao
apenas podero melhorar a dor de contuses, picadas e arranhes em seus filhotinhos? No  o mximo?
       Como responder a isso? Como? Como?
       - ...  o mximo... Mas... tanta empolgao com essas lgrimas  sinal de que elas vo curar os ferimentos dos
seres humanos tambm, n?
       - Que nada! No funciona em gente. S nas girafas.  um negcio de girafa para girafa.  uma coisa s delas. 
uma beleza a natureza.
       - Nossa, uma beleza a natureza... ... - disse Manu, observada pelas caras de espanto das amigas, que no estavam
entendendo nada. - Mas voc no podia tirar folga no domingo de Carnaval?
       - Se a natureza no tira folga, quem trabalha com ela no pode tirar tambm, n, Manu?
       - ... arr...
       - Ento me diz, Manuzete! Em que eu posso ajudar?
       Manu contou a histria toda dos pitboys pichadores que no sabiam levar um no na cara e se vingaram na casa
de uma inocente.
       - O que a gente faz? - quis saber Manu.
       - Vai  casa do prefeito de madrugada e picha o muro dele, u!
       - T doida? Vou fazer a mesma coisa que o filho dele fez e que ns odiamos? Perdeu a noo?
       - Ai, Manu! No briga, vai! - reclamou Babete. - T bom, voc tem razo. Que coisa horrvel eu sugeri, foi no
impulso, apaga, apaga.
       - J apaguei. Mas e ento? O que voc sugere?
       - Deixa eu ver, deixa eu ver... Por que voc no se vinga deles?
       -  isso que eu quero fazer, lesa! S no sei como fazer!
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         - Ah, t! Entendi, entendi. Vingana, queremos vingana... Hum... Hum...
         Enquanto Babete pensava, Manu desanimava. Fazendo que no com a cabea, dava s amigas o recado de que a
prima no estava num bom dia.
         - J sei! Que tal vocs irem ao baile de novo e pagar uns fortes para darem umas bolachas neles na sada? No,
no  uma boa idia, n? Violncia gera violncia... Violncia  pssimo.
         - Violncia  u! Pssima idia! Pssima idia!
         - Pra tudo! J sei! Por que vocs no vo ao baile no ltimo dia de Carnaval, baixam as bermudas deles e os
deixam de bunda de fora no meio do salo?
         - Babete!
         - Tambm no, n?
         - Claro que no! - respondeu Manu.
         - Deixa eu pensar mais... Hum... Hum... Por que vocs no vo  casa do prefeito para conversar, olhando no olho
dele? Assim ele vai entender o filho que tem.
         - Ah, claro, deve ser suuuuperfcil entrar na casa do prefeito - debochou Manu.
         - Falar com a polcia no adianta...
         - No. No temos provas.
         - Mas denunciar com provas...
         - J disse, a gente no tem como provar...
         - Vocs estavam todas juntas na hora do assdio dos caras?
         - S a Gabi no estava com a gente. Ficou com um garoto logo no comeo do baile e estava l pra dentro do
clube.
         - Maravilha!
         - O que  maravilha, Babete? - perguntou Manu, j sem Pacincia.
         - A Gabi  uma maravilha!
         - Ai, menos, por favor! Depois voc elogia a Gabi, agora pensa numa soluo, por favor!
         - Garota, presta ateno! A Gabi  a pea-chave para a soluo desse problema.
         - A Gabi?!
         - O que tem eu? - indagou a morena curiosa.
         Babete explicou seu plano tintim por tintim. E era simplesmente... PER-FEI-TO!
         No tinha como dar errado. Gabi, Babete bem dissera, era a pessoa certa para a misso de vingar as folionas e toda
a ala feminina daquele baile. Desinibida, sedutora, boa conversa...
         Manu ouviu tudo calada, concordando com cada palavra dita pela prima.
         Desligou o telefone, olhou para as amigas e, sria, comunicou:
         - A gente j ganhou essa.
         - Jura? - empolgou-se Suzaninha.
         - S precisamos ir a uma loja de eletrnicos para poder executar o plano. Tem alguma aqui perto?
         As meninas acharam a pergunta uma sandice.
         - Loja de eletrnicos? A Babete pirou de vez,  Carnaval, tudo vai estar fechado! - resmungou Ritinha.
         - Tambm acho! Mas pra que a gente precisa de uma loja dessas? - quis saber Suzaninha.
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      Quando Manu explicou, todas entenderam. E adoraram. , a prima maluquete de Manu tinha acertado na mosca,
no podia dar errado.
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                        noite, partiram para a Coronel Olavo, a rua do bochicho, onde a galera se reunia com os amigos
               antes de ir para o baile do Jquei. Mais linda do que nunca, com rmel que aumentava os clios deixando
               seu olhar ainda mais sedutor e um gloss que evidenciava sua boca grossa, Gabi estava pronta para sua
               misso. Vestida com uma minissaia de tirar o flego e uma camiseta justinha vermelha que realava sua
               morenice brejeira, ela andava com as amigas pela Coronel Olavo com os olhos atentos, procurando de bar
               em bar suas vtimas.
       - Droga! Eles ainda no chegaram! - desiludiu-se Manu.
       - Calma, ainda faltam muitos bares - disse Gabi.
       - Mas a gente j foi nos mais badalados... Ser que eles viajaram?
       - Calma, Suzaninha. Eles esto aqui, tenho certeza. Vocs olharam direito? Ser que passamos por eles e vocs no
reconheceram os caras?
       - Reconheo aqueles trogloditas at no meio de um blecaute - admitiu Manu.
       - Ento vamos procurar mais. Eles podem no ter chegado ainda - cogitou Suzaninha.
       - No sei por que a gente veio pra c. A gente conheceu os caras no baile, por que eles estariam aqui? Quem disse
que eles estariam aqui? - resmungou Ritinha.
       - Meu sexto sentido disse, Rita de Cssia. Todo mundo nessa cidade vem pra c no Carnaval! - respondeu Manu.
       - Sexto sentido, sexto sentido... Alm de aturar os duendes da Gabi, agora vou ter que aturar o sexto sentido da
Manu.  mole, Suzaninha? Haja pacincia!
       - Ritinha! - estrilou a neta de dona Hemengarda.
       Procura daqui, procura dali, nada de encontrar Eduardo, o filho do prefeito, e seus amiguinhos nada educados.
       - Calma, gente, no vamos desistir - incentivou Suzaninha.
       - De jeito nenhum! Vamos conferir de novo se o plano est todo na cabea? - sugeriu Manu.
       - Est todo na cabea! Que saco, a gente j ensaiou mil vezes! - reclamou Ritinha.
       - Ela tem razo. Sei direitinho o que fazer, pode ficar tranqila, Manu. Se ensaiar mais posso ficar nervosa e acabar
errando na hora.
       - Mas... - tentou, mais uma vez, Manu.
       - Olha l! - cortou Suzaninha. - So eles entrando naquele bar! So eles! - comemorou.
       - Maravilha! - empolgou-se Ritinha. - Agora esses palhaos vo ver o poder do sexo feminino.
       - Vai l, Gabi! E arrebenta! O Eduardo  o mais baixo, com cara de mau. A gente vai ficar no carro te esperando -
incentivou Manu.
       - Beleza! Ai... Que medo! - brincou a morena dos cabelos compridos. - Me desejem boa sorte! - pediu, com um
indisfarvel frio na barriga.
       - Boa sorte, Gabi! - disseram as trs em coro. Apreensiva porm confiante, a morena se empinou, jogou os cabelos
para trs, respirou fundo, trouxe  tona toda a sua autoconfiana e caminhou rumo ao Eltrico, o tal bar, determinada a
fazer justia, Quase l, estacou. No, no tinha desistido de sua misso. Apenas lembrara-se de um detalhe muito
importante: ligar o gravadorzinho que levava na bolsa.
       Ao pisar no estabelecimento sentiu calafrios ao ver o garoto que, por se achar imune a castigos e punies, tratou
suas melhores amigas com hostilidade e, vndalo, pichou o muro da casa de uma senhora que nada tinha a ver com o
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"no" que levara de Manu, Ritinha e Suzaninha. Cabia a ela mudar o rumo da histria e fazer o delinqente pagar pelo que
fez.
       Sabendo ser dona de um charme irresistvel, Gabi acreditava que conseguiria dobrar o palhao, mas, claro, estava
com medo. Quando percebeu, estava suando frio, mas secou o rosto com o guardanapo de uma mesa vazia e se
aproximou do grupo de trogloditas que falava alto e bebia rapidssimo copos transbordantes de cerveja.
       - Voc sabe onde fica o banheiro? - perguntou a morena a Eduardo.
       - Oi, riqueza. Fica ali no fundo  direita. Quer que eu te leve at l?
       Ela riu, sedutora.
       - , que fofo! No precisa, mas eu agradeo mesmo assim - disse, e andou at o banheiro.
       Ligou para as amigas:
       - Ele gostou de mim! - sussurrou ao celular para Manu.
       - Maravilha, Gabi! Agora vai l e arrebenta! - incentivou a amiga.
       Gabi deu uma subida na saia antes de voltar ao bar. Ao se aproximar da mesa...
       - Quase no achei, sabia? Se voc tivesse ido comigo talvez eu tivesse encontrado o banheiro mais rpido...
       - , morena, no fala assim, que eu derreto... E a? T sozinha?
       - T esperando umas amigas, elas devem estar atrasadas, a gente vai para o baile do Jquei mais tarde.
       - Olha, que coincidncia. Ns tambm vamos - revelou Eduardo. - Ento senta a e espera aqui com a gente.
       Gabi sentou-se e, para no deixar o papo morrer, logo puxou conversa:
       - Espero que vocs no vo de carro, esto bebendo, melhor no dirigir, n?
       - Que nada. A gente vai de motorista - um amigo se meteu na conversa. - No conta pra ningum, no, mas o
Eduardo aqui  filho do prefeito. Ele pode tudo nessa cidade, at andar de carro oficial sem ser poltico.
       Eduardo riu, metido, e no demorou muito para os trs carem na gargalhada. Mesmo enojada, Gabi, que j tinha
feito curso de teatro, riu tambm, fingindo achar aquilo muito engraado.
       - Olha s... filho do prefeito? Deve ser bom ser filho de prefeito de cidade pequena, n? - perguntou, cheia de
malcia.
       - Bom?  irado! - exclamou um amigo.
       -  a melhor coisa do mundo! Posso fazer tudo o que eu quiser - completou, orgulhoso.
       - Tudo?!
       - Tudo - disse Eduardo, convencido, peito empinado.
       - No acredito, sentei na mesa certa. Vocs no querem pedir mais uma cerveja? T to bom o papo...
       Gabi no era boba. Sabia que o lcool deixa as pessoas mais leves, mais falantes... Ainda mais eles, que estavam
fazendo a ridcula brincadeira de virar todo o contedo do copo de uma golada s. Eduardo mandou vir mais cerveja.
       - E a? - recomeou o papo. - Me conta exatamente tudo o que voc faz.
       - Tudo, morena? Ah, tudo  muita coisa, muuuita coisa - gabou-se. - Mas deixa eu pensar numa coisa boa para te
contar. J sei! Sabe carro? Carro? Aquela coisa com quatro rodas que faz vrrruuummmm? Claro que sei, idiota! Que
pergunta  essa?, cogitou responder. Mas optou por uma resposta fofa. Fofa ao estilo de Eduardo, que fique bem
entendido.
       - Sei, claro. Adoro carros. O seu com certeza  importado...
       - Meu, no. Do meu vio.
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       - U,  seu tambm.
       - , t certa... - concordou.
       - Mas e ento? O que  que tem o seu carro? O que voc j fez com ele?


       - J disputei altos pegas. Sabe pega? Voc acha que eu sou burra?, quis retrucar.
       - Eu aaaamo pega. Voc faz pega? - fingiu interesse. - Xiii... direto! Adoro velocidade, adoro desafiar o perigo...
       - Pra! Assim eu me apaixono... - disse ela, baixando os olhos e j feliz com uma revelao e tanto. - Deve ser muito
bom Poder fazer tudo o que a gente tem vontade e no ser punido, n? Posso imaginar, as pessoas devem morrer de
medo de fazer algo contra o filho do prefeito...
       - As pessoas se borram de medo do meu pai - encheu a boca dizer.
       - O que mais de... ilegal voc faz? - indagou, sedutora at a raiz dos cabelos, com nfase no "ilegal", como se
admirasse a tal ilegalidade.
       - Fao qualquer coisa! - encheu a boca para responder.
       - Qualquer coisa?
       - Qualquer coisa. Qualquer zoeira, qualquer parada. Tudo  permitido para mim nessa cidade, sacou? - orgulhou-
se Eduardo.
       - Srio? Quer dizer que nada aconteceria se voc puxasse uma briga aqui nesse bar e quebrasse tudo?
       - Nada, nada, nada! E, se bobear, eu ainda diria  polcia que fui a vtima da histria.
       - Ah, t - fez que no acreditou. - At parece que os policiais iam acreditar em voc. Se o dono do bar te acusasse,
como  que voc ia escapar?
       - Riqueza, a polcia no tem coragem de fazer nada comigo. Ningum, eu disse nin-gum em Porto das Rosas faz
nada contra mim. Nada! - riu Eduardo.
       Gabi gargalhou. Era boa de gargalhadas falsas.
       - J que falou em briga, voc... voc costuma brigar?
       - Fala srio! Sou faixa roxa de jiu-jtsu. Puxo briga direto. Em show, em festa, na faculdade... No dou mole pra
man, no! Caio na briga, mesmo.
       - Adoro quem no foge de briga. Acho valente. No suporto caras covardes - disse, alisando o brao do filho do
prefeito. -Nossa, que bceps forte  esse?  um msculo ou  uma pedra?
       - A gente faz o que pode, riqueza... - empolou-se Eduardo, enrijecendo o brao para exibir mais ainda os msculos
cultivados com horas dirias de academia.
       - Caramba! A gente entrou num papo to bom que nem me apresentei. Meu nome  Gabriela.
       - Eu sou o Eduardo. Dudu pra voc... Esse aqui  o Beto e esse o Janjo.
       - Tudo bem? - cumprimentou. - Vem c, qual  a do baile do Jquei, hein? Deve rolar a maior pegao, n?
       - Pegao geral! Voc e suas amigas podem ir com a gente, se quiserem...
       - Ah, vou chegar ao baile com o garoto que toda menina quer ficar? Fala srio! Conheo mulher muito bem, as
gurias devem pular em cima de voc. Tambm... Lindo, fofo e filho do prefeito...
       - Modstia  parte, eu fao sucesso com a mulherada, sim...
       - , mas ontem foi ridculo - entregou Beto.
       - Srio? Por qu? - empolgou-se Gabi.
                                       PDL  Projeto Democratizao da Leitura


        - Porque umas garotas resolveram fazer jogo duro com a gente... - contou Janjo.
        - Como assim? Elas estavam acompanhadas?
        - Que nada! Resolveram fazer jogo duro, mesmo. Sabe vadia que de vez em quando gosta de fingir que no 
vadia? - explicou Eduardo.
        O sangue de Gabi ferveu. As vadias eram as suas amigas! Que animal! Que machista! Que palhao!, pensou com
muita, muita raiva.
        - Sei... claro que sei. No suporto esse tipo.
        - E eu? P, garotas cheias de marra, no tenho pacincia! -chiou o filho do prefeito.
        - Aposto que nem bonitas elas eram...
        - Pra falar a verdade at que eram bonitinhas. Mas no eram isso tudo, sabe?
        - Sei, claro... Mas voc... quer dizer... vocs... no fizeram nada? Levaram um fora e ficou por isso mesmo? No 
possvel...
        Isso no combina com voc. Voc no  homem de levar "no" pra casa...
        Eduardo parecia um pavo. Nem acreditava que uma menina bonita daquelas estava se derretendo por ele. E,
melhor!, na frente de seus amigos! Era melhor do que ganhar na loteria.
        - No sou, mesmo, Gabi. No gosto de deixar nada barato. Impressionante, riqueza... Em pouco tempo tu j me
conhece melhor do que muita gente...
        - Basta olhar no fundo dos seus olhos para saber quem voc ... Mas conta... o que voc fez com as otrias?
        - Ah, a gente perturbou as trs at no poder mais! Enchemos o saco, puxamos pelo cabelo, pela roupa, dissemos
um monte de baixaria no ouvido delas... No vou falar agora porque voc  uma princesa que no merece ouvir baixaria
nenhuma, s elogio...
        - Que lindo! Alm de tudo  um cavalheiro. Voc existe mesmo? Ele  de verdade, gente? - quis saber Gabi dos
amigos de Eduardo.
        - Ele  assim mesmo. Nosso Dudu  O cara! - respondeu Janjo.
        - T vendo! - concordou Gabi. - Mas e as garotas? Vocs s ficaram atazanando as gurias? Essas meninas
mereciam muito mais! Se eu fosse homem, no ia deixar em paz uma mulher que fizesse jogo duro comigo.
        - E quem disse que a gente deixou as garotas em paz?
        - Dudu, melhor no... - alertou Beto.
        - Olha a boca, Du... - avisou Janjo.
        - Que foi, gente? - fez-se de sonsa Gabi.
        - Eles esto com medo de voc bater com a lngua nos dentes - explicou o filho do prefeito.
        - Imagina! Eu entendo a preocupao, mas podem confiar em mim. Eu j me considero amiga de vocs. Eu sou sua
amiga, no sou, Dudu? - perguntou, dengosa.
        - Se tu quiser, tu vai ser muito mais que amiga - respondeu, passando levemente a mo em sua perna.
        Ela quase teve nsia de vmito.
        - Na boa, Gabi,  que a gente acabou de te conhecer - soltou Janjo.
        - E mulher  fogo, vocs fofocam mesmo - completou Beto.
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       - Caramba, gente! Vocs podem contar o que quiser, eu vou embora na quarta-feira de Cinzas e antes de ir com
certeza j vou ter esquecido! Alm disso, eu no conheo ningum nessa cidade... Com quem eu vou fofocar? Pra quem eu
vou falar o que vocs me contarem?
       Eduardo e os amigos ouviram com ateno as palavras de Gabi. Janjo e Beto continuavam cabreiros, mas Eduardo
estava encantado. O encantamento  primo da paixo. E garotos encantados por garotas so capazes das maiores
burrices. Viva o encantamento!
       - Ela  das nossas! No tem problema contar - decidiu Eduardo.
       - Ai, t curiosa!
       - A gente seguiu as trs at o stio onde elas passaram a noite. - Pausou para respirar...
       - Hum... J estou gostando... Que mais? J sei! Deram uma surra nelas!
       - Que nada! Nem sou contra bater em mulher, no, acho que muitas merecem, mas a gente fez muito melhor! -
entregou Eduardo, j com olhos de bbado.
       - Conta! Conta! - fingiu-se de intrigada Gabi.
       - A gente pichou o muro inteiro da casa onde as vadias esto.
       - Pra! Que irado! - exclamou Gabi, indisfaravelmente feliz por ver que sua misso estava cumprida. Com louvor,
diga-se de passagem.
       - Irado? Foi sensacional! Mas quer saber o melhor dessa histria, riqueza?
       - Claro!
       - O muro estava cheirando a tinta, deviam ter pintado h pouco tempo - contou.
       Gabi riu, se escangalhou de rir. Era um misto de vitria e alegria por ter desmascarado o vilozinho.
       - Lavei a alma! - comemorou Eduardo.
       - Lavamos, n? Aquelas cachorras mereciam uma punio - corrigiu Janjo.
       - Fico imaginando a cara delas quando viram o muro. Dava tudo para ser uma mosquinha s para ver a reao
daquela loira metida - disse Beto.
       - E da baixinha e da magrela do cabelo liso tambm. Todas nojentas, todas com o rei na barriga. No suporto
gente arrogante. P, vai fazer jogo duro no Carnaval? Ento por que vai pro baile? Baile de Carnaval  pra beijar na boca! E
outras coisinhas... N, no? N, no? - fez Eduardo para os amigos.
       Os outros dois riam muito, como se tivessem ganhado uma bolada em dinheiro, ou um prmio importante, ou um
dia com a garota mais linda do mundo. Mas o que os fazia rir era a maldade. A mais pura maldade. E vingana. Eles
picharam o muro por vingana. Mas ela estava l por esse mesmo motivo.
       - Ai, meninos, essa foi tima! Mandaram muito bem! -comentou Gabi.
       - Eu no sei quem vai pintar aquilo, mas que vai ter trabalho, ah, isso vai! Pintar muro embaixo desse sol de rachar
no  mole, no - disse Janjo.
       - Eu no queria estar na pele de quem for pintar o muro - completou Eduardo.
       Gabi achou que era hora de sair de cena. Seu show tinha acabado. Melhor no se arriscar mais.
       - Que horas so?
       - Faltam vinte pra meia-noite - respondeu Eduardo.
       - Nossa! A conversa est to boa que nem vi o tempo passar. Estou preocupada, minhas amigas no ligaram at
agora. Vou ver se aconteceu alguma coisa - avisou, sacando o celular do bolsinho externo da bolsa.
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         Ligou para Manu e foi logo dizendo:
         - Oi, Jubinha! Cad vocs? ? Ah, fala srio que vocs j foram pro baile! A gente no ficou de se encontrar no bar?
T, t aqui h um tempo. No, no t chateada com vocs, t timo aqui... T, t bem... Eu encontro vocs l, t indo.
Beijo!
         Do outro lado, Manu ficou muda, feliz pelo sinal de que a amiga tinha botado o plano em prtica.
         Como Gabi fingia bem! Uma atriz e tanto.
         - Vou ter que ir, gente, Elas esto quase chegando ao Jquei e querem me esperar dentro do txi, para que eu d
uma maquiada nelas antes de entrar no baile.
         - Espera a, mais meia horinha a gente vai e te leva - sugeriu Eduardo.
         - No d, seno elas vo pagar uma grana de txi.
         - Diz para elas sarem do txi e te esperarem na porta - opinou Beto.
         - No, conheo as meninas, elas no vo querer ficar na porta sozinhas, em p, Vo achar perigoso... Melhor a
gente se encontrar no baile, Dudu.
         - No quer que eu te leve?
         - De jeito nenhum. Vou de txi mesmo. Fica, toma mais umas com seus amigos, daqui a pouco a gente se v.
         - Olha l, hein? Vou ficar aqui s mais um pouquinho e depois vou pra l. Preciso te ver de novo, riqueza... Me d
seu telefone - pediu, j pegando seu celular, para registrar o nmero da... riqueza.

         - No, no, no - fez, dengosa. - Me d voc o seu.
         - Srio?
         - Srio. Eu adoro tomar a iniciativa, no sou dessas garotas que se fazem de donzelas. Quando eu t a fim, eu t a
fim. Pode esperar que vou te ligar.
         Eduardo anotou seu telefone num guardanapo e deu a Gabi. Aproveitou e anotou o dos amigos tambm.
         - Pronto. Pra voc no me perder de vista. Liga mesmo, t? No vai fugir de mim...
         - Voc acha que eu sou doida de deixar voc zanzando sozinho pelo salo? Hoje voc  meu, Dudu... Meu!
         Os amigos estavam chocados. Bonita, desinibida, decidida, dada... Aquilo parecia um sonho.
         - T esperando, hein, Gabi? - disse, sorrindo, inflado.
         - Pode esperar... - sussurrou em seu ouvido a morena. - At daqui a pouco.
         Gabi despediu-se do trio de trogloditas e saiu do bar sem esconder o sorriso. Andou na direo do carro onde
estavam as meninas, entrou e foi logo avisando:
         - Foi to, to, to, to, to, mas to legal! Vocs esto me devendo uma, hein?
         As trs comearam a pular no banco detrs do fusquinha 69 de dona Hemengarda como se fossem pipocas.
         - Ele, ele, ele, Gabi salvou a nossa pele! - cantarolou Ritinha.
         - Oco, oco, oco, e deixou o cara louco! - inventou Manu.
         - A-ba-ca-xi! Ns amamos a Gabi! - tentou Suzaninha.
         As trs se entreolharam. Gabi foi a primeira a se manifestar:
         - No, Su. Pssimo, Su! - brincou a "atriz" do grupo.
         - A gente vai ter que te dar uma aula de como fazer corinhos - implicou Ritinha.
         - Abacaxi? De onde voc tirou isso, mul? - perguntou Manu, rindo de orelha a orelha.
         As quatro riram como h muito tempo no riram. Riso de vitria, de dever cumprido, de alma lavada.
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        - Vamos dar trs vivas para a Suzaninha! Foi o gravador dela que ajudou a gente! E nem precisamos sair feito
loucas no feriado procurando uma loja de eletrnicos aberta! - sugeriu Ritinha.
        - Viva! Viva! Viva! - fizeram ela, Gabi e Manu.
        - Inha, inha, inha, viva o gravadorzinho da Suzaninha! - cantou a caula do grupo.
        - No, Rita de Cssia! Menos, Rita de Cssia! Acabaram os corinhos, Rita de Cssia! "Gravadorzinho da Suzaninha"
 ridculo, Rita de Cssia! - perturbou Gabi.
        - Adorei descobrir que tenho uma amiga que escreve, e grava, poesia. Nunca vi o que voc escreve, mas vi e
peguei no gravador que registra os versos que voc cria - disse Manu.
        - Eu quero ler suas poesias, Su! - pediu Ritinha.
        - No sei... quem sabe um dia? No tenho coragem de mostrar para ningum. Nem para a minha famlia...  uma
coisa muito minha...
        - Eu entendo. Tambm teria vergonha de mostrar uma coisa to minha pra todo mundo - comentou Gabi.
        - - Eu adorei a idia do gravador! - exclamou Manu.
        - Eu tambm! Gravar os versos que vm na sua cabea num momento de inspirao... tima essa idia! - exclamou
Gabi.
        - Cheguei a ela depois de esquecer muitas idias legais por no ter papel e caneta  mo. A inspirao muitas
vezes bate quando no tenho nem papel, nem computador por perto, quando estou no carro com a minha me, ou no
supermercado, ou no elevador, ou numa festa... Por isso aprendi: melhor gravar a idia e assim que puder passar pro
computador.
        - Que irado, Su! Quero muito ler suas poesias, mas s quando voc se sentir  vontade pra isso, no vou insistir,
prometo. O dia em que voc quiser mostrar, vou adorar! - disse Manu.
        - Eu tambm! - completaram Gabi e Ritinha.
        Por causa do gravador de Suzaninha, estava tudo arrematado. S faltava uma coisa: ir  redao do jornal da
oposio, como sugerira mais cedo dona Hemengarda. L, contariam tudo, entregariam a fita ao editor-chefe e leriam na
tera-feira a matria sobre o filho do prefeito confessando a pichao e outros delitos. A, sim, a vingana estaria
completa.
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       A
                          s quatro acordaram cedo, ansiosas para botar o resto do plano em ao. Dona Hemengarda
                  estava pronta desde as cinco e meia da manh, fazia questo de lev-las ao jornal para falar com o editor-
                  chefe. Podiam desconfiar da seriedade de um grupo de meninas, mas nunca de uma senhorinha como
                  ela, com coque bem-feito, vestidinho azul-marinho acima de qualquer suspeita e uma bolsinha que tinha
                  desde seus vinte e poucos anos.
                          O caf-da-manh estava divino, como no dia anterior. Broas, bolos, pes de todo tipo, biscoitos,
                  queijos, sucos, caf com leite, uma fartura. Encheram a pana e logo depois se aboletaram, com
gravadorzinho e a fita com a confisso de Eduardo gravada, no fusquinha 69 da av mais linda de Minas Gerais. Ela sabia
direitinho onde ficava a redao da Gazeta do Porto, o jornal que fazia oposio ao prefeito. Quando jovem, namorara um
reprter do jornal e vira-e-mexe passeava pela redao. E adorava participar, sugerir matrias, denunciar delitos... Sabia
que, em tempos de democracia, a justia anda mais rpido quando o povo bota a boca no trombone ou quando a
imprensa resolve desentortar o que est torto.
       - Ser que vai ter gente trabalhando l hoje, v?
       - Claro que vai, querida. Menos gente do que nos dias normais, mas sempre tem gente em redao, jornal no
pode parar nunca - respondeu dona Hemengarda.
       Ao chegarem ao prdio de trs andares que abrigava a redao, a av de Suzaninha tomou a frente do grupo,
decidida a desmascarar aquele delinqente que atendia pelo nome de Eduardo.
       - Viemos falar com o Marco Magalhes, o editor-chefe - disse a senhora  secretria que as recebeu.
       -  sobre o qu?
       -  uma denncia.
       - Denncia no  com o Marco,  com o...
       - Minha filha,  muito importante, ns temos que falar com o Marco, no com um estagirio.
       -  sobre o qu?
       - Sobre o Eduardo, o filho do prefeito. A secretria ligou para o chefe.
       - Marco, tem uma senhora aqui querendo fazer uma denncia sobre o Eduardo, o fil... J falei, mas ela insiste em
falar com voc... Eu sei... T bem, arr, t certo, eu digo.
       - O que foi? - indagou dona Hemengarda.
       - Ele pediu para a senhora fazer a denncia ao Otaclio, mas ele no est de planto, s volta a trabalhar na
quarta-feira. A senhora deixa seu nome e telefone que eu peo para ele entrar em contato.
       - Quarta-feira? Quarta-feira? No pode! A matria tem que sair no jornal de tera! E eu no quero falar com
nenhum estagirio, quero falar com o Marco Magalhes!  muito importante!
       - Ele no pode atender a senhora agora...
       - Por que no? Viemos cedo justamente porque quase nada acontece pela manh num jornal. Anda mais hoje,
segunda-feira de Carnaval. Essa redao deve estar um marasmo! Sou velha mas no sou burra! Cad o Marco? - foi
enrgica dona Hemengarda.
       - Est... est... numa reunio e...
       - Balela! Ele no quer  me receber! Cad o esprito jornalstico do seu chefe?
       - Minha senhora, entenda, ele recebe muitas queixas do Eduardo por dia, mas nenhuma rende matria...
       - Por que no? No vai me dizer que vocs esto com medo de publicar algo relacionado ao Eduardo temendo
que o prefeito feche o jornal! Estamos no sculo XXI! Vivemos numa democracia, a ditadura acabou faz tempo, graas a
Deus! - reagiu a av de Suzaninha.
       - No  isso,  que nenhuma das denncias que recebemos tinha prova...
       - Pois diga a ele que ns temos.
       - timo. A senhora mesmo pode dizer isso ao Otaclio na quarta, quando ele volta da folga. Tenha certeza de que
se ele se interessar e achar que o assunto rende uma matria, o Marco vai ligar para a senhora.
       - Minha filha, voc no est entendendo, as meninas precisam que essa matria saia ainda no feriado! Elas
precisam estar aqui na cidade para ler, entende?
       - Entendo, claro, mas  que...
       Dona Hemengarda acorcundou-se apoiando uma das mos na mesa da secretria e com a outra no peito.
       - O que foi? A senhora no est passando bem?
       - No, minha filha! Sou uma velha e meu corao resolveu doer justo agora!
       As meninas ficaram brancas. Suzaninha desesperou-se.
       - Calma, v! Senta aqui, senta! - disse, puxando uma cadeira.
       - Obrigada, querida. E voc? O que voc est fazendo a parada me olhando? Pega um copo d'gua pra mim, por
favor, moa! No, melhor! Vai ao posto mdico aqui da esquina procurar socorro - pediu a senhora  secretria...
       - Mas eu... eu no posso deixar a recepo sem ningum, preciso botar uma pessoa no meu lugar.
       - Minha filha, pode no dar tempo... As meninas ficam aqui tomando conta da recepo e de mim...
       -Mas...
       - Enquanto voc pensa, eu posso morrer! Voc quer que eu morra por sua causa?
       - No, de jeito nenhum! Est bem, j volto! Fique calma, fique calma! - respondeu a secretria, nervosa, antes de
partir  cata de ajuda.
       - V! - chorou Suzaninha. - Fala comigo! Fala comigo! No vai acontecer nada! No vai ac...
       - Claro que no vai acontecer nada, Suzaninha! Eu no tenho nada, querida. Foi s para enrolar a mulher!
       - V! Isso no se faz!!! - estrilou Suzaninha.
       - Eu sei, mentir  horrvel, mas agora t feito. Foi uma mentira para o bem, depois eu peo desculpas. Mas agora a
gente precisa desmascarar esse idiota. Imagina, na quarta-feira de Cinzas vocs vo embora! Seria uma injustia vocs
terem esse trabalho todo e no ver a repercusso dele. Depois que sair no jornal, vocs vo ser conhecidas como as
meninas corajosas que desmascararam o Eduardo. Vocs merecem isso!
       - , dona Hemengarda... Muito obrigada... - suspirou Manu, emocionada.
       - Agora no  hora de choro! Subam logo antes que a mulher chegue.
       A redao  no segundo andar. O Marco Magalhes fica numa sala de vidro, separado do resto da redao, no
tem como vocs errarem.
       As quatro obedeceram prontamente e voaram pelas escadas. Assim que chegaram ao segundo andar avistaram o
que os jornalistas costumam chamar de "aqurio", que  uma sala envidraada que separa colunistas importantes e
editores dos reprteres. Era o comeo do dia, muitos jornalistas ainda no tinham chegado  redao, outros nem iriam,
porque ganharam folga no Carnaval, portanto ningum notou a presena de quatro adolescentes. Marco estava ao
telefone quando as quatro invadiram sua sala.
       - No vamos demorar nada, por favor, no se preocupe ou chame a segurana. S queremos que o senhor escute
uma coisa - avisou Suzaninha, apertando o "play" do seu gravadorzinho:
       - Fao qualquer coisa!
       - Qualquer coisa?
       - Qualquer coisa. Qualquer zoeira, qualquer parada. Tudo  permitido para mim nessa cidade, sacou?
       - Srio? Quer dizer que nada aconteceria se voc puxasse uma briga aqui nesse bar e quebrasse tudo?
       - Nada, nada, nada! E, se bobear, eu ainda diria  polcia que fui a vtima da histria.
       - Ah, t. At parece que os policiais iam acreditar em voc. Se o dono do bar te acusasse, como  que voc ia
escapar?
       - Riqueza, a polcia no tem coragem de fazer nada comigo. Ningum, eu disse nin-gum em Porto das Rosas faz
nada contra mim. Nada!
       - J que falou em briga, voc... voc costuma brigar?
       - Fala srio! Sou faixa roxa de jiu-jtsu. Puxo briga direto. Em show, em festa, na faculdade... No dou mole pra man,
no! Meto a porrada, mesmo.
       Marco desligou o telefone na hora.
       -  o Eduardo? O filho do prefeito? - perguntou, estupefato.
       - Ele mesmo. E  s o comeo da fita. T bom ou o senhor quer ouvir o resto?
       - Quero, claro! O que mais ele diz?
       - Ele confessa que pichou o muro do stio da minha av e ainda admite que faz pegas. Isso que eu me lembre.
       O editor estava abobado.
       - Quando essa fita foi gravada?
       - Ontem, no Eltrico - respondeu Gabi.
       - Sentem-se, sentem-se. Querem gua, caf?
       - No, obrigada. Queremos apenas fazer justia - falou bonito Suzaninha.
       - Desculpem por no ter atendido vocs,  que  tanta gente que quer denunciar esse menino, mas sem provas eu
no posso fazer nada. Isso que vocs tm  uma prova e tanto - interessou-se.
       - Posso apertar o play para o senhor ouvir tudo?
       - Por favor!
       Enquanto Marco Magalhes escutava atenciosamente cada palavra dita pelo filho do prefeito, dois seguranas
entraram na sala.
       - Que  isso? - perguntou, irritado.
       - Recebemos ordem para vir tirar essas meninas daqui, seu Marco - disse um brucutu.
       - Que nada! No vo tirar ningum daqui! Essas meninas corajosas e determinadas acabaram de trazer a principal
manchete do jornal de amanh. E ainda acabaram com o marasmo da redao. Elas so nossas heronas!
       As quatro entreolharam-se, orgulhosas. Heronas! Isso  que  elogio, hein?
       - Eu no disse que tinha que ser com ele? - disse dona Hemengarda para a secretria, que tinha subido com os
seguranas.
       - Marco, me desculpe, essa senhora teve o descaramento de mentir sobre seu estado de sade...
       - Ah, deixa de ser fresca, voc tambm mentiu pra mim dizendo que ele estava em reunio... - reagiu a av mais
engajada de Porto das Rosas.
       - A senhora no podi...
       - Madeleine, est tudo certo! Essa senhora  uma brava guerreira, que usou de todas as suas armas para conseguir
o que queria - defendeu Marco.
       - Mas ela...
       - Ela  determinada! Ainda bem que ela te enganou, Ia ter um treco se elas fossem para o concorrente e dessem a
matria pra eles. Eu me culparia para sempre por no ter recebido vocs. Minha senhora, meus parabns. Atitude invejvel.
Sua, da sua neta e das amigas dela.
       - Obrigada, mas vamos deixar de blablabl. Vocs vo peitar contar no jornal tudo o que tem a nessa fita? -
instigou a av de Suzaninha.
       - Por que no? H muito tempo quero dar uma matria que faa aquele mauricinho cair do cavalo - respondeu
Marco. - Vamos lavar a alma da senhora, das meninas e dessa cidade inteira. Esse cara vai ter que pagar por tudo de ruim
que ele fez.
       Imediatamente pegou o telefone e comeou a dar ordens:
       - Monica, liga para o delegado Jacinto e marca uma hora pra conversar com ele na delegacia. Diz para o Gustavo
telefonar para o dono do Eltrico, o bar em que o Eduardo estava ontem, e pede ao Carlitos para tentar falar com o
prefeito, arrancar umas aspas dele - disse, determinado, olhos brilhando. - Meninas, vocs esto prontas para dar
entrevista e contar tudo o que sabem? Isso vai ser uma megaexposio, vocs tm noo disso, n?
       - Esquenta, no, seu editor... A gente est acostumada a sair na mdia... - riu Ritinha, piscando o olho para as
amigas.
       - Vamos contar tudo o que o Eduardo fez no baile e como a gente conseguiu desmascar-lo - completou Manu.
       - Maravilha! Edio histrica vamos ter amanh, meu povo! - vibrou Marco Magalhes.
       A apurao comeou naquela hora e s acabou no fim da tarde. Vrios reprteres foram mobilizados. Muitas
pessoas, lesadas por Eduardo nos ltimos anos, foram entrevistadas. Romildo Raposo, o prefeito, fez o possvel e o
impossvel para que a matria no sasse, usou de todos os seus conhecimentos na imprensa local, evocou sua trajetria
poltica e a repercusso que uma matria dessas teria em sua carreira, passou mais de hora na sala de Marco Magalhes
tentando convenc-lo de no publicar a matria, que ela abalaria seriamente sua credibilidade e poderia atrapalhar futuras
eleies... Chegou a dizer que gostaria mesmo de impedir que as mquinas rodassem, mas...
       - Democracia  isso, doutor Romildo. No posso fazer nada. O papel da imprensa  denunciar, alertar a sociedade.
E, o senhor sabe, o Eduardo no anda se comportando bem ultimamente, e ele, mais do que o jornal, pode botar em risco
sua carreira, j que o senhor no se manifesta em relao ao seu filho, finge que no v.
       O prefeito baixou os olhos... E a ira deu lugar a um sentimento de derrota.
       - Voc est certo, Marco. Esse menino... eu no sei onde errei com ele.  cheio de vontades, de caprichos, filho
nico, sempre teve tudo o que quis... Eu no queria acreditar nas coisas que me contavam. Ele em casa  to diferente... 
o meu Dudu, muito diferente desse arruaceiro que dizem que ele vira quando est na rua com os amigos - desabafou.
       - Pois , prefeito. At pegas de carros ele promove, e isso  crime, o senhor sabe.
       - Sei, sei, claro. Mas sobre isso ningum tem provas, n? -indagou, visivelmente assustado com a possibilidade.
       - Olha, o seu filho contou na mesma fita sua paixo por velocidade...
       - No pode ser!
       - Mas sabemos por fontes seguras que ele tenta se proteger, que dirige com uma meia que cobre o rosto nessas
ocasies.
       - Valha-me Deus! Igual a um bandido! Como  que eu criei esse monstro e nem percebi? Que desgosto... -
lamentou doutor Romildo.
       O editor, pai de um garoto de nove anos e de uma menina de sete, compreendeu e solidarizou-se com a angstia
do prefeito. E tentou amenizar a situao.
       - Melhor a matria sair logo, antes que acontea algo pior.
       - Voc tem razo, Marco, voc tem razo... Ele precisa ser punido. Ele tem que dar o exemplo, no pode se achar
acima do bem e do mal s porque  meu filho. Que vergonha, meu Deus!
       O prefeito ps as duas mos sobre o rosto para tentar esconder algumas tmidas lgrimas que escorreram.
Lgrimas de pai, no de poltico cuja carreira corria perigo, no de prefeito apreensivo com a rejeio dos eleitores.
       - Posso dar um conselho? Eu, se fosse o senhor, daria uma declarao que a sociedade aprove, a declarao que
seus eleitores esto esperando h muito tempo.
       - Mesmo que eu agrade ao povo, vou transformar o meu filho em vilo.
       - Desculpe, prefeito, mas o Eduardo j  o vilo de Porto das Rosas.
       - Como  que o Dudu vai lidar com a rejeio das pessoas? Com as piadas, com a humilhao?
       - Ele precisa ser punido! O senhor no concorda?
       - Claro que sim, S no sei como puni-lo... Ele  meu filho, Marco. Com todos os defeitos do mundo, o Eduardo 
meu filho... Mas, voc est certssimo, como homem pblico, como prefeito, eu devo uma explicao ao povo, eu preciso
dar a declarao que as pessoas querem ouvir de mim.
       - Assim que se fala, doutor Romildo! E, olha, pode ter certeza de que essa matria vai acabar ajudando o senhor a
se reeleger, como o senhor tanto almeja.
       - Tem razo. Voc  bom nisso, hein, rapaz? Vim aqui para tentar te fazer mudar de idia e foi voc quem me deu
uma aula de cidadania. Est certssimo, a imprensa precisa mostrar e as pessoas precisam saber que eu condeno as
atitudes do Eduardo.
       O prefeito pensou, pensou, respirou fundo para tomar flego, deu um gole grande no copo d'gua, que pousava
intocado na sua frente, e comeou:
       - Pode botar na matria que eu lamento muitssimo o ocorrido, como prefeito e como pai - disse, enquanto Marco
escrevia cada palavra em seu bloco de anotaes. - Estou surpreso e decepcionado com a conduta do Eduardo, j que no
foi essa a criao que ele teve. Pichao , alm de poluio visual, um desrespeito ao patrimnio alheio, um vandalismo
gratuito. Garanto que pensarei numa punio justa. Por isso e por tudo que ele fez de errado. No  porque  meu filho
que no vai pagar. Pelo contrrio, vai pagar, e caro. Como filho e como cidado.
       - Boa, prefeito! - exclamou a faxineira da redao, que passava por perto com uma vassoura e esticou o ouvido
para escutar a entrevista.
       Ao sair do jornal, doutor Romildo estava mais leve, embora ainda arrasado com a constatao de que seu filho era
praticamente um marginal, malvisto por todos. Ele precisava arquitetar muito bem a punio de Eduardo. Seria duro
penalizar o prprio filho, mas era necessrio.
         Em casa, antes de deitar-se, foi para o computador e, na Internet, encontrou vrios artigos sobre pichao. Um
deles chamou a sua ateno:
         "Juridicamente pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificao ou monumento urbano  crime ambiental
nos termos do art. 65, da Lei 9.605/98, com pena de deteno de trs meses a um ano e multa. Se o ato for realizado em
monumento ou coisa tombada por seu valor artstico, arqueolgico ou histrico, a pena passa a ser de seis meses a um
ano e multa."
         Preferiu no falar com o filho, achou melhor que ele soubesse pelos jornais que seu futuro j estava traado. No
foi difcil chegar  concluso de que trs meses de deteno seria pouca pena para tantos delitos cometidos por Eduardo.
Ele precisaria de muito mais para aprender que errou, e errou feio, repetidas vezes. Por isso, o prefeito pensou numa coisa
que no estava prevista em nenhuma lei. Ele precisava ser desmoralizado. Em praa pblica, isso, sim, seria muito mais
duro para ele, que sempre fora vaidoso, do que dias na cadeia.
         Na tera-feira, a Gazeta do Porto trazia a manchete que todos na cidade queriam ler h tempos:


         FILHO DE PREFEITO ASSUME CRIME
         Em fita gravada por adolescente, Eduardo Raposo admite ter promovido pegas e pichado stio de idosa.


         Na matria que se estendia por duas pginas inteiras, depoimentos, o histrico da vida de arruaceiro do jovem, que
tinha apenas 21 anos, e destaque para uma foto especial: as quatro meninas que, decididas a se vingar da pichao e dos
maus-tratos sofridos no baile de Carnaval, resolveram denunci-lo.


         O que o jornal no contou foi a pena que Eduardo teria. Seu pai lhe deu um servicinho especial: pintar o muro de
dona Hemengarda. Para isso, foi  principal tev local para chamar o povo para assistir  desmoralizao. A reprter, ele
disse:
         - Preciso dar o exemplo. E usar meu filho para mostrar que aqui se faz, aqui se paga  a melhor maneira de ensinar
aos jovens que delinqncia nunca leva a um final feliz.


         Quando Eduardo chegou ao local, levado pelo prefeito, bem que tentou esconder a vergonha sob a cara amarrada
de sempre. Ao ver a pequena multido de curiosos, fotgrafos e cinegrafistas, que se aglomeravam em volta do stio, a
vergonha aumentou e ele bem que tentou mudar a cabea do pai:
         - P, pai, no faz isso! Todas as emissoras esto aqui. Isso  muita humilhao.
         -  isso que voc precisa para aprender. Quantas pessoas voc humilhou?
         - Eu j aprendi! Nunca mais fao isso na vida, nunca mais vou fazer nada achando que no serei punido. Poxa, pai,
voc no me ama, no?
         - Justamente porque eu te amo que eu estou fazendo isso. Estou tentando te transformar num homem digno,
num homem melhor. Um dia voc vai entender minha atitude.
         - Nunca vou entender. Nunca! - resmungou Eduardo, saindo do carro e sendo imediatamente vaiado pelas
pessoas que o aguardavam,
         Um reprter veio logo perguntar:
         - Como  que voc est se sentindo com essa punio, Eduardo?
       - Ah, fala srio! Como  que voc acha que eu estou me sentindo? T pssimo! Pssimo! Isso  injustia!
       - Injustia  tudo o que voc aprontou nessa cidade! Isso a  pouco para voc! - gritou um homem exaltado.
       Ritinha, Manu, Gabi e Suzaninha estavam sorridentes. Deram vrias entrevistas, at para o Jornal Nacional, que
achara curiosa a pena aplicada pelo prefeito da pequena cidade a seu filho e resolvera divulgar o acontecido para o Brasil
inteiro. Apesar do sucesso e do reconhecimento pelo feito, as meninas ainda no estavam 100% satisfeitas. Faltava alguma
coisa para a vingana ficar completa. Resolveram botar as garras de fora e se vingar de todas as grosserias que ouviram
dos trogloditas no baile de Carnaval.
       - Oi... Dudu! - saudou Gabi, cnica.
       - Sua f...
       - Olha a boca, Duduzinho delinqentezinho! No vai falar nome feio na frente de todas essas pessoas, n? -
debochou Manu. - Seu filme j t queimado o suficiente, no precisa se esforar para queimar mais.
       - Olha, Duduzinho-que-no-entende-nada-de-mulher, aqui esto os gales de tinta que seu pai comprou. Seus
amigos tambm j esto ali, prontinhos para botar a mo na massa. Quer dizer, no pincel - ironizou Suzaninha.
       - Como fomos ns que pintamos o muro, queremos que fique i-dn-ti-co ao que a gente tinha feito. Ento, pra
isso acontecer, vamos ficar aqui monitorando o trabalho. Vocs s saem daqui quando a gente deixar, ok? - avisou Ritinha.
       - Boa, baixinha! - gritou uma senhora de cabelo azul com um poodle no colo.
       - Vamos comear, ento? Espero que o muro esteja pronto antes da minha novela - debochou dona Hemengarda.
- Vamos l dentro tomar um caf, prefeito? Acabei de passar, t fresquinho.
       - Vamos, claro. Mas antes me deixe dar um recado ao meu filho. Obedea a essas meninas. Elas que mandam hoje.
No quero saber de reclamao, Eduardo. Faa a coisa certa pelo menos uma vez na vida. Entendido?
       - Arr - respondeu baixinho Eduardo, pau da vida.
       - O qu? No escutei. Entendido?
       - Entendido - disse, mais alto, com a vergonha estampada no rosto.
       O garoto baixou os olhos e, com a cara amarrada, ps-se a trabalhar com os amigos sob o olhar inclemente do
povo, das cmeras de tev e das lentes dos fotgrafos.
       - Ei, ei, ei! Que caras so essas? Cad o sorriso, Duduzinho-mimadinho-emburradinho? A gente quer que vocs se
divirtam trabalhando, como a gente se divertiu - espetou Ritinha.
       - Sorriso? , garota, escuta aqui...
       - No quero escutar nada de voc, a no ser o barulho do pincel passeando pelo muro. Vamos l? Sorriso! Todo
mundo sorrindo!
       - Vocs no querem aparecer feios na televiso, n? - brincou Suzaninha.
       Duas horas e meia depois, sob o sol escaldante de meio-dia...
       - Gente, no t gostando muito do resultado, vocs esto? -implicou Manu.
       - No, t muito sem vida. D pra botar outra cor aqui nessa parte? - sugeriu Gabi.
       - No, no d. No t vendo que a gente t derretendo? -resmungou Eduardo. - No d pra ficar perfeito, no.
       - Ah, no diga isso, Duduzinho-que-se-achava-invencvel-mas-que-se-ferrou-bonito! Tem que ficar perfeito. No 
um pedido,  uma imposio. Deixa eu te explicar, fofinho: esse muro tem que ficar do jeito que a gente quer. E a gente
quer que voc pinte essa parte toda de novo - reagiu Manu.
       - No mesmo!
       - Ah, no? Vou ter que ir l dentro chamar o prefeito para ele te dizer de novo que voc tem que obedecer 
gente? - peitou Manu.
       Eduardo baixou a cabea, limpou o suor da testa e resmungou algum xingamento impublicvel antes de seguir as
ordens das meninas mais corajosas que j tinham passado o Carnaval em Porto das Rosas.


       Eram seis da tarde e o servio ainda no tinha terminado. s sete, depois que consideraram pronta a base do muro,
as meninas pediram a eles que desenhassem coraes de vrias cores, arco-ris, estrelinhas, sorrisinhos... Eles nem
discutiram. Mesmo exaustos e irritados, obedeceram. Trabalhar sem sol na moleira era bem melhor. O problema eram as
piadinhas que eles ouviam da multido que no arredou o p de l at ver o muro finalizado.
       - A! Voc  bom de desenhar corao, hein, Eduardo? -implicou uma adolescente.
       - Deve ter uma agenda lotada de coraezinhos. , que fofo! - completou a que estava ao lado.
       Os flashes espocavam de tudo quanto  lado. As pessoas fizeram questo de registrar aquele momento com suas
mquinas e celulares.
       - Vocs vo ficar lindos retocando desenhinhos fofinhos a mando das meninas. Essa, se bobear, vai para a primeira
pgina do meu jornal - implicou uma fotgrafa.
       Estava claro que os jornais do dia seguinte (e do seguinte, e do seguinte) manteriam Eduardo nas manchetes e
deixariam Gabi, Manu, Ritinha e Suzaninha ainda mais famosas. Sim! O quarteto de Resende estava at dando autgrafo!
Metiiidas!
       - Nossa, t me sentindo uma ex-BBB! Parece que acabei de sair do confinamento! - exclamou Ritinha.
       - Ai, que cafona! T me sentindo a Madonna! - brincou Gabi.
       - Espera a, esse momento precisa ficar para a posteridade. Meninos, querem dar um recadinho aqui para a minha
cmera? -debochou Suzaninha, com uma cmera de vdeo na mo. - Vou botar o vdeo de vocs pintando o muro no You
Tube, para todo mundo ver o trabalho que vocs tiveram.
       - Fala srio! Vai passar em tudo que  televiso, no t bom, no? - reclamou Eduardo.
       - Dudu-cara-de-tatu, pensa um pouquinho, nenm... Muita gente trabalha at tarde, muita gente no v televiso
ou l jornal. No You Tube as pessoas vo poder ver vocs sempre que quiserem, a hora que quiserem. Vamos dar chance
para quem no assistir s matrias, n? - riu Suzaninha.
       - Voc tinha que nos agradecer, vai ficar pra sempre na Internet. Famoso! Vamos eternizar voc, seu Duduzinho-
mal-educadinho! - complementou Gabi.
       - A gente  to boazinha! To fofa! - exclamou Ritinha.
       - , garota! - reagiu Eduardo, pronto para rosnar alguma grosseria.
       - Cala a boca, Dudu! - bronqueou Beto, o amigo pichador.
       - Quer levar mais bronca dessas garotas? Fica quieto e faz o que elas mandam.
       - Isso mesmo! Pelo menos seus amigos so inteligentes,.. J voc... - espetou Gabi.
        meia-noite as meninas se deram por satisfeitas. Sob aplausos da multido que ainda estava l, entraram no stio,
orgulhosas, de cabea erguida.
       - Vocs viraram celebridades em Porto das Rosas - disse dona Hemengarda.
       - Eu sei, no agentava mais tirar foto com todo mundo. Ser famosa cansa - brincou Ritinha.
       - Agora eles vo daqui direto para a delegacia? - quis saber Gabi.
       - Vo. Mas o prefeito disse que eles no devem ficar trs meses atrs das grades, como sugere o cdigo penal.
Talvez no fiquem l nem uma semana.
       - Como assim? - indignou-se Gabi.
       - Ah, sabem como  esse negcio de justia, n? Tudo ameniza a pena: se  ru primrio, se paga multa... - irritou-
se Manu.
       - Se  filho do prefeito... - emendou Suzaninha.
       - Querida, o doutor Romildo me disse uma coisa e eu concordei com ele. No importa se esses rapazes vo ou no
para a cadeia, o que aconteceu hoje foi a maior punio.
       - , a senhora tem razo. Ele, que  todo metido a pegador, no vai conseguir ficar mais com ningum depois
dessa humilhao. Aposto que nenhuma garota vai querer ficar com o Eduardo - disse Ritinha.
       - Sem contar os amigos, que vo sumir com certeza. O maior castigo dele vai ser ficar sozinho at o povo esquecer
- opinou Manu.
       - E olha que em cidade pequena a memria do povo no esquece to cedo... - comentou dona Hemengarda.
       - Que bom! - comemorou Gabi.
       Misso cumprida. O quarteto de Resende conseguira calar a boca do mimado Eduardo. S tinha um problema: a
punio do filho do prefeito marcava tambm o fim da viagem. Aquela viagem que ficaria para sempre no corao das
meninas.
       - Puxa, que pena... Amanh j  quarta-feira de Cinzas e a gente vai ter que ir embora, v...
       - Foi a melhor viagem que eu j fiz - afirmou Ritinha. - Vou sair daqui com a certeza de que se a gente batalha por
uma coisa, essa coisa acontece.
       - Mesmo que parea impossvel - argumentou Manu.
       - Vamos ficar com muita saudade daqui e da senhora, dona Hemengarda... - choramingou Gabi. - Foi o melhor
feriado, o melhor Carnaval, o melhor caf-da-manh, a melhor av, o melhor stio...
       - Foi o feriado mais agitado de toda a minha vida. E olha que j vivi muito, hein? - riu a av mais querida de Minas.
- At no jornal eu apareci.
       - Obrigada por tudo, v.
       - Que nada! Obrigada vocs por me tirarem da rotina! E desculpa pelo trabalho que dei a vocs.
       - No foi trabalho, foi diverso - corrigiu Suzaninha.
       - Quer diverso maior do que ver os trs patetas obedecendo s nossas ordens? - complementou Gabi.
       - Vocs devem estar com a alma lavada. A cidade inteira est - disse a av, mexendo nas longas madeixas de Gabi.
- Olha, quando vocs voltarem, o stio vai continuar lindo, do jeitinho que vocs deixaram. Ningum vai ter que pintar
nadinha.
       As quatro abraaram a dona do stio com o muro mais famoso de Porto das Rosas.
       - Vamos sentir saudades - disse Suzaninha.
       - Eu tambm. Muita. No tenho nem palavras para descrever o quanto vocs me fizeram feliz.
       - Agora  a senhora que tem que ir visitar a gente. A minha casa  grande, meus pais vo adorar receb-la.
       - Manu, voc  um docinho, mesmo. Agora vamos dormir, amanh tenho que levar vocs para a rodoviria, e
temos muito cho at l.
       Bota cho nisso! Ainda mais a quarenta por hora, pensou Ritinha. Mas, claro, no disse nada. Estava triste por
deixar aquele feriado para trs, aquele feriado em que aprendera que  possvel viver sem Leandro grudado 24 horas e
que suas amigas eram realmente as melhores amigas que algum poderia ter...
       No quarto, as quatro bateram na cama e logo dormiram. O dia comeara cedo e elas estavam absolutamente
exaustas. Ser carrasca de pichador cansa!
       Acordaram ainda com o cu escuro para conseguirem chegar na hora certa  rodoviria, em Belo Horizonte.
Entraram no fusquinha 69 de dona Hemengarda e partiram rumo  capital mineira com aperto no corao, com a certeza
de que voltariam quele lugar muitas e muitas vezes. Sempre juntas. Celebrando aquela amizade especial.
       Depois de despedirem-se de dona Hemengarda, entraram no nibus, que j estava lotado de passageiros. Pela
janela, deram mais um aceno para a av de Suzaninha e logo puseram-se a tagarelar.
       Em vinte minutos de viagem, Manu levantou-se para ir ao banheiro. Na fila, um garoto bem bonitinho, de seus 18
anos, a olhou de cima a baixo e disse, na lata:
       - Se voc for bonita por dentro como  por fora, eu te dou casa, comida e roupa lavada.
       Manu ficou encantada com a cantada mais que batida.
       - Obrigada. T indo pra Resende? - perguntou, para logo depois se recriminar: "Lgico, sua anta! O nibus vai para
Resende, para onde mais ele iria?"
       - Vou...
       - Desculpa, eu quis perguntar se seu av  de Resende.
       - Meu av?!
       - No! Desculpa,  porque t com a av da minha amiga na cabea. Queria saber se voc  de Resende.
       - Queria, no quer mais? - ?
       No adianta, Manu continuava pssima na arte da conquista.
       - Brincadeira. Eu sou de Resende sim. E voc?
       - Arr.
       - Arr o qu?
       - Sou de l tambm - disse, sem esconder o sorriso,
       - Como  que uma deusa dessas mora no mesmo lugar que eu e ns nunca nos cruzamos?
       A porta do banheiro se abriu.
       - Vou entrar, mas no foge, no. Quero pegar seu telefone.
       - T aqui, no vou fugir - fez charme.
       Foi s a porta fechar que Manu ouviu das amigas:
       - Vai namorar no nibus, , Manu? - gritou Gabi.
       - Ar, ar, ar, Manu vai desencalhar! - cantou Ritinha.
       - Shhhh! - pediu Manu, encabulada com o nibus inteiro olhando para ela.
       - Oca, oca, oca, Manu vai beijar na boca! - insistiu Gabi.
       - , , , mesmo se ele fizer coc? - cantarolou Suzaninha, matando Manu de vergonha.
       O nibus caiu na gargalhada.
       - Boa, Su! - aprovou Gabi.
       - Demorou, mas voc aprendeu a fazer corinho - elogiou Ritinha.
       - Pra, gente! E se ele estiver ouvindo? - perguntou a loirinha, entre os dentes.
       Logo o bonitinho saiu do banheiro. Olhou para ela, olhou para o nibus, que olhava para ele, e soltou, bem alto:
       - Foi s nmero um, galera! Relaxa! Sem sada, Manu riu.
       Nas seis horas de viagem, trocaram telefone, mas no ficaram. Agora Manu queria conhecer muito bem a pessoa
antes de se encantar por ela. O beijo s saiu uma semana depois, quando Pedro (esse era o nome dele) levou lindas flores
 casa da loirinha e pediu para namorar com ela. Depois do sim, o beijo apaixonado selou a relao que comeava.
       Entre risos, beijos e fofocas, a viagem passou to rpida que elas nem sentiram. Quando chegaram  rodoviria de
Resende, logo viram a me de Manu ao lado de Leandro, que carregava um enorme buqu de flores. O corao de Ritinha
ficou apertadinho. Que saudade ela sentia do namorado!
       Na caminhonete de Macl, couberam todos, mesmo que apertadinhos.
       - Vocs estavam timas na televiso! T adorando essa idia de ter uma filha famosa, que a cada viagem aparece
na mdia -brincou Macl. - Mas vocs podiam ter passado um p compacto para brilhar menos no vdeo. Estavam suadas,
com a pele com aspecto de suja, de nojentinha.
       - Nossa, me! Que fofa! Muito obrigada! - ironizou Manu.
       - Mas estavam lindas mesmo assim. E fizeram justia, fizeram bonito. Fiquei orgulhosa. Seus pais foram l pra casa
para vermos a reportagem juntos. Pena que foi to rapidinho.
       - Voc viu a gente, Lel? - derramou-se Ritinha. -Vi. Voc estava linda.
       Leandro ps sua mo sobre a da namorada. No tirava os olhos dela. A caula do grupo estava pronta para ouvir
mil declaraes de amor, frases apaixonadas, poemas, olhares encantados...
       - Eu quase fiquei com uma garota no Carnaval, Ritinha - desabafou Leandro, causando espanto e silncio total no
carro. - Uma menina, amiga dos amigos dos meus pais...
       - Como  que ?! - reagiu Ritinha, injuriada.
       - , mas no fiquei! Eu no fiquei com ela! Isso que eu queria dizer!
       - No interessa, Leandro! Como assim voc quase ficou com uma menina? E o Pappoc? Voc ignorou o Pappoc, 
isso? O Pappoc no serviu para nada? Perdi meu tempo criando o Pappoc e voc nem ligou para ele?
       - No  isso, Ritinha, deixa eu explicar...
       - No tem nada que explicar, voc errou! Errou feio! - gritou, sob o olhar de reprovao das trs amigas. Elas bem
lembravam o que tinha acontecido no baile de Porto das Rosas.
       - Eu sei, devia ter te ligado!
       - Na mesma hora! A regra era clara: olhou menina e ficou interessado em menina, liga pra mim!  to difcil assim
pegar o celular e ligar?
       Manu, Gabi e Suzaninha estavam chocadas com a reao de Ritinha, que agia como se o prncipe carnavalesco
nunca tivesse existido.
       Clima pssimo. Clima estranho na caminhonete. Silncio seguido de silncio, a raiva estampada no rosto de Ritinha,
a surpresa nos olhos das amigas.
       - Mas, hein? E o stio da av da Suzaninha? Lindo de viver? Brincaram muito? - tentou quebrar o gelo Macl,
ignorada por todos, que permaneceram mudos at chegarem  casa da caula do quarteto.
       - Obrigada, tia. Tchau, gente. Pode deixar o Leandro na casa dele, tia Macl?
       - No, Ritinha! Eu quero conversar com voc!
       - Eu no quero conversar com voc, Leandro! - Ah, quer, sim! - meteu-se Manu na conversa.
       - Fica quieta, filha! No se mete em briga de namorado! -recriminou sua me.
       - No consigo. Ela sabe por que eu t falando isso. Ritinha fuzilou a loirinha com os olhos.
       - Podem ir, meninas. Amanh a gente se v - pediu Ritinha.
       - Ento tchau, querida - despediu-se a me de Manu. - Ah, eu no quero ir, no - palpitou Gabi.
       - Nem eu. Quero ficar pra ver esse dilogo at o fim - observou Suzaninha.
       Ritinha queria fazer picadinho das amigas.
       - Acho que voc tem mais coisas para dizer para o Leandro, n, Rita de Cssia?
       - Acho que voc tem mais o que fazer da vida, no , Manuela?
       - No. T com a agenda vazia, vazia hoje. Posso ficar aqui o tempo que for - debochou a loira.

       - Eu tambm! - disseram Gabi e Suzaninha. Leandro ficou cabreiro:
       - O que  isso? O que voc tem pra me dizer?

       - Nada. No sei do que essas meninas esto falando... - dissimulou Ritinha.
       - Eu sei do que a gente est falando. Quer que eu refresque sua memria? - instigou Suzaninha.
       - No pre-ci-sa - rosnou Ritinha, entre os dentes.
       - No estou entendendo, Rita... - disse Leandro, srio. Ela no tinha mais como escapar.
       -  que...  que... Eu... Eu fui a um baile de Carnaval.
       - O qu? E no me disse? - indignou-se Leandro.
       - No te disse - alfinetou Gabi.
       - Por qu?

       - Porque... porque... porque elas no deixaram! - respondeu, apontando para Manu, Suzaninha e Gabi, que se
quedaram boquiabertas e, claro, iradas.
       - Como  que !? - revoltou-se Gabi.
       - Quer fazer o favor de no mentir botando meu nome no meio? - irritou-se Manu.
       - No foi nada disso, Leandro! Ela que no disse nada pra voc por conta prpria. E a gente ficou to surpresa
quanto voc t agora - entregou Suzaninha.
       Leandro mordeu os lbios. Agora era ele quem queria explicaes:
       - Voc est fazendo esse escndalo todo pra qu? Fez muito pior do que eu! Voc mentiu, Rita de Cssia. Eu, no!
Na primeira oportunidade eu te contei tudo.
       Ritinha ficou tensa, assustada, culpada.
       - Eu sei, eu sei... desculpa... Eu devia ter te contado do baile... - disse, arrasada.
       - Do baile e do que aconteceu no baile... - acrescentou Manu.

       - Manuela! - estrilou Macl.
       - O que foi que aconteceu no baile, Rita?
       - Eu conheci um cara, Leandro.
       - Vamos embora, gente! - pediu a me da loirinha.
       - Sshhh! - fizeram as trs meninas.
       - Os dois tm que conversar em paz, sozinhos! - insistiu.
         - E perder essa discusso? Nem pensar, me!
         Macl, angustiada e superdesconfortvel com aquela situao, no teve outra alternativa a no ser desligar o carro.
         Ritinha estava mal, muito mal. No esperava passar por aquilo antes mesmo de chegar em casa e rever os pais.
         - Eu conheci um garoto, mas tambm no fiquei com ele.
         - No? Jura? - perguntou Leandro, inseguro.
         - Juro! No fiquei! Por qu? Voc ficou? Pode dizer, voc ficou com a menina? - indagou Ritinha, lgrimas nos
olhos.
         - No, claro que no!
         - Por qu?
         - Porque descobri com essa menina como  grande o meu amor por voc, Ritinha.
         - ! - fizeram Manu, Gabi, Suzaninha e Maria Clara, que torcia para que aquela discusso terminasse bem. E
logo.
         - Eu tambm no conseguiria ficar com ningum alm de voc - derreteu-se Ritinha.
         - ! - fizeram de novo as meninas.
         - D pra parar com essa chatice? Platia interativa  um pouco demais, n? - reclamou Ritinha, para riso das amigas.
         - Ela... ela era bonita?
         - Era. E me elogiou, me chamou para danar, deu mole descaradamente para mim.
         Glup! O mesmo que aconteceu comigo!, lembrou Ritinha.
         - Eu entendo. O prncipe tambm era bem bonitinho -entregou.
         - Prncipe? Voc conheceu um prncipe?
         - Claro que no, Leandro! Ele estava fantasiado de prncipe!

         - Ah, que bom! Com um prncipe de verdade eu no teria chance!
         - Claro que teria, bobinho! No meio da conversa, descobri que te amo mais que tudo, que voc  a coisa mais
importante da minha vida e que eu no quero te magoar nunca. Nunca!
         Os dois se abraaram. Abrao forte, sincero, cheio de saudade e ressentimento.
         Aplausos na caminhonete. Ritinha olhou-as irritada, mas acabou soltando um sorriso.
         - Desculpa? Por no ter te ligado, por no ter respeitado o Pappoc, por ter conversado com ela...
         - L... Eu que quero que voc me desculpe. Eu tambm ignorei o Pappoc, eu fiz tudo errado...
         - Desculpa? - pediu Leandro.
         - Voc me desculpa? - retrucou Ritinha.
         - Desculpo, mas voc desculpa o Lel?

         - Claro que desculpa! Caramba! Que coisa chata! Esqueci como vocs dois eram chatos juntos! - implicou Gabi.
         - ! Os dois erraram, os dois se arrependeram, os dois contaram... Agora  s beijar! - disse Suzaninha, impaciente.
         - Beija! Beija! Beija! - puxou Macl, para gargalhada das meninas, que a deixaram cantando sozinha.
         - Antes, eu preciso saber uma coisa... Quanto tempo voc conversou com a menina?
         - Sei l. Uns quinze minutos talvez...
         - Quinze minutos? Tudo isso? A minha conversa no durou nem cinco minutos! - enfezou-se a caula do grupo.
         - Ritinha! - brigou Manu.
        - Voc no acha que o nmero de minutos  o que menos importa agora? - questionou Gabi, louca para ir para
casa.
        Ritinha baixou a cabea. E concordou.
        - T bem, t bem! No se fala mais nisso, ento.
        - Eu te amo! - declarou-se Leandro, aliviado.
        - Eu te amo mais!
        - Eu te amo, minha Litinha!
        - Eu te amo, meu Lel - Eu te...
        - Ai, os dois se amam! Agora vamos terminar com isso que eu quero tomar um banho? - disse Manu, pegando com
fora o rosto dos dois e forando-os a dar um beijo.
        Aplausos.
        Tmidos, os dois saltaram da caminhonete, agradeceram  Macl e entraram na casa de Ritinha.
        O tempo passou e o casal mais apaixonado de Resende agora tinha uma relao bem mais saudvel, mais madura,
mais segura e, para alvio de Gabi, Manu e Suzaninha, muito menos grudenta.
        Manu continuava com Pedro, o menino do nibus. Estava toda feliz. Naquele dia fazia um ms de namoro e
chamou as amigas para comemorar a data no boliche.
        Gabi e Suzaninha continuavam solteiras e felizes. Mas, se dependesse de Manu e Pedro, no por muito tempo. Ele
levou seus dois melhores amigos para uma partida de meninos contra meninas. Manu, que agora finalmente sabia o que
era paixo, estava flutuando. No apenas por Pedro, mas porque fechara um contrato com uma loja de Penedo para ser a
estrela do catlogo de outono-inverno.
        - Voc no vai ser do tipo que fica famosa e metida, no, n, Manu? - implicou Suzaninha.
        - Claro que vou! - brincou a loira.
        - Que espetculo esse amigo do Pedro, hein? - comentou Gabi, mudando de assunto.
        - Ele te achou linda, foi a primeira coisa que disse quando a gente chegou.
        - Beleza! - comemorou a morena.
        - O outro tambm  uma graa, mas eu no suporto cavanhaque - disse Suzaninha.
        - Manda o cara raspar, u! - sugeriu Ritinha.
        As quatro riram e deram um upa esmagadao. Um upa cheio de carinho, em pleno boliche.
        - Elas so sempre assim?
        - Sempre, Pedro. Vai se acostumando - respondeu Leandro.
        - A gente pode comear ou vocs vo ficar a nesse abrao por muito tempo? - quis saber Tavinho, o do
cavanhaque.
        - Vamos comear. Eu sou a primeira! - disse Suzaninha, j pegando a bola.
        Mirou, fez uma cara de quem joga boliche todo dia, desde pequenininha, arremessou e ... strike!
        - U-hu! - vibrou a jogadora.
        - Meninas! Unidas! Jamais sero vencidas! - celebraram as quatro, aos pulos.
        As horas passaram voando naquela noite divertida, que no terminou quando o jogo acabou. Pelo contrrio: estava
s comeando. Ritinha, Gabi e Suzaninha foram dormir na casa de Manu. L, viram pela ensima vez as fotos da viagem
para Porto das Rosas, a viagem que marcou o melhor feriado de suas vidas. E riram, relembraram, cantaram marchinhas de
Carnaval e brindaram com potes de gelatina de framboesa, sem hora para acabar, a vitria no boliche.
      E na amizade.
